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Educação para o consumo digital

Precisamos falar de qualidade e de consumo consciente

(Foto: iStock)

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Já viu um menino de 13 anos querendo comprar um joguinho de qualidade para jogar no seu tablet? Já viu meninos e meninas de 10 anos que sabem menos do que você, adulto, em termos de entretenimento digital?

Pois é, eu nunca tinha visto. Pelo menos não até a semana passada, quando vivenciei dois momentos que me marcaram.

O primeiro aconteceu em casa mesmo. Estava no escritório trabalhando quando meu filho Fernando, 13 anos, pede para o pai liberar a compra de um game de 10 dólares. O pai diz que não, que é um absurdo, que não ia gastar com nada que fizesse ele ficar mais tempo grudado no computador. Meu filho contesta que o dinheiro é dele, da mesada. Meu marido replica que por isso mesmo, não precisa gastar nada, pois tem muita coisa de graça para baixar, muito game free. Para que gastar? Bobagem desperdiçar o dinheiro, mais vale guardar. Meu filho argumenta que o game é bacana, está super recomendado. Não tem violência. Meu marido diz que não, onde já se viu pagar por algo que pode ter de graça. Meu filho choraminga, diz que o tal game além de recomendado foi desenvolvido por empresa brasileira, gente daqui da terrinha.

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Ooopssss, interrompo a discussão tal como uma avalanche, onde já se viu dizer não quando o menino pede um entretenimento digital de qualidade, recomendado, sem violência e ainda por cima feito no Brasil? Só por que é pago? Quer dizer que se é digital, tem que ser de graça mesmo que seja ruim? É isso que a gente quer ensinar a ele, que só vale se não tiver que pagar?

Bom, mas vamos ao momento seguinte. Estava em uma escola particular dando uma palestra para alunos do 4º ano de um colégio particular de São Paulo. Falava de livros, como são feitos, o trabalho do editor, as decisões todas de formato, ilustração, acabamento e disse que alguns dos livros da minha editora tinham determinado tamanho por que estava migrando todos eles para o formato digital. Eles me olharam com aquela cara de susto, sem entender. Expliquei que formato digital era o mesmo que livro eletrônico, e-book. Nada. Patavina. Perguntei se eles já tinham lido algo no celular ou no iPad. Uma revista pelo menos. Nada. E seus pais e familiares. Também não. Ninguém lembrou sequer do jornal, que muitos adultos já preferem a versão eletrônica. Nadica de nada… Pensei, um pouco chocada, que aquelas crianças relacionavam o entretenimento digital apenas com games. Nada mais.

Juntando os dois acontecimentos foi que percebi que a educação digital nos moldes como a consideramos hoje está muito mais voltada para a questão do conteúdo inadequado – como ajudar as crianças a reconhecê-lo e evitá-lo – do que propriamente com os infinitos usos que elas podem desfrutar da tecnologia desde pequenas. Existe também uma preocupação grande da tecnologia como uma ferramenta de aprendizagem, um instrumento para o professor ensinar (a tal da gameficação da educação).

Mas preste atenção, esses dois moldes são muito mais para os adultos do que para as crianças propriamente ditas. São os pais que devem estar constantemente monitorando seus filhos quanto ao conteúdo, tal como monitoramos os programas de TV e até mesmo os livros e as revistas (impressos). E se a tecnologia é uma ferramenta de aprendizagem, ora isso é um assunto para os professores. Cadê a criança nisso tudo?

Somos consumidores, inclusive de tecnologia, e o preço que pagamos vai muito além dos dólares geralmente cobrados pelos produtos digitais. O maior preço é o tempo que gastamos na frente do computador, do tablet ou do celular. É preciso começar a encarar o entretenimento digital, mesmo que de caráter pedagógico, como um objeto a ser consumido. E a educação digital como sendo a educação para o consumo digital.

Coisas simples, como separar aquilo que tem baixa qualidade daquilo que tem qualidade, que não tem apenas game mas livros, programas para desenhar e pintar, música, ferramentas para quem quer cozinhar, material de pesquisa, a compreensão de que o tablet e o celular podem ser as máquinas das nossas coleções – nossos livros, músicas, imagens, sons etc. etc. etc.

Se deixarmos as crianças sozinhas, consumindo sem orientação, consumindo principalmente aquilo que é de graça, o preço vai ser alto, muito alto. Elas passarão muito tempo na frente da telinha, um tempo sem retorno. Já pensou nisso?

P.S. O game super recomendado que está ganhando prêmios ao redor do mundo é o No Heroes Here, uma dica para a galerinha que tem mais de 12 anos.

 

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