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O livro como um grande presente

Quando o mês da criança se aproxima e começamos a pensar nos presentes, devemos refletir: o que realmente uma criança ganha quando é presenteada com um livro?

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(Foto: Istock)

Quando damos uma boneca para uma menina, ela brinca de alimentar, cuidar, acalentar e todos nós ficamos maravilhados com seu jeito maternal e seus potenciais como futura mamãe.

Algo semelhante acontece quando um menino ganha uma bola: imediatamente se torna um craque e enche nossos corações de esperança com seu futuro de campeão (ou, no mínimo, de esportista amador cheio de saúde).

E o que acontece quando as crianças ganham um livro? Já reparou como elas se maravilham – sobretudo as muito pequenas que ainda não sabem ler?! Até mesmo um bebê se encanta com um livro nas mãos… Ele reage com orgulho quando os adultos percebem que ele já sabe virar as páginas, apontar com o dedinho alguns trechos, antecipar o conteúdo (sim, eles antecipam aquilo que está escrito mesmo sem saber ler!) ou até mesmo balbuciar alguma cantilhana que lembra a leitura de um texto em voz alta… E como os adultos ao seu redor reagem?! Não há quem não comente: “afff, vai ser um intelectual!”.

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Pelo menos sempre foi assim comigo quando meus filhos eram pequenos e eu nunca soube o que isso realmente quer dizer… Que vai ser mais inteligente do que a maioria das pessoas? Que vai ficar lendo sem parar, um alienado social? Que vai ser mal remunerado e ainda por cima metido? E o encantamento das crianças, o que significa realmente?!

Outro dia, assistindo a uma campanha de combate ao analfabetismo, me deparei com o depoimento de uma mulher de 55 anos do sertão nordestino. Ela explicava a sua rotina de quem divide o dia em três momentos: o roçado, os afazeres da casa e a escola. Falou sobre sua satisfação de, após vários meses de aula, conhecer as letras do alfabeto. Já reconhecia a letra A por escrito e sabia que ela fazia parte do seu nome, Maria.

A alegria de Maria em agora saber “ler” as letras do alfabeto era imensa. Seus olhos brilhavam. Pensei que esse seu entusiasmo todo tinha tudo a ver com a reação das crianças pequenas diante de um livro: elas não sabem ler, mas o fato de se sentirem leitoras em potencial as deixam com muito orgulho. Ser um leitor em potencial… Para Maria, isso significa deixar para trás toda uma vida de dependência e sua alfabetização pode gerar transformação. Ler é ascender, transcender. Para a criança pequena, isso representa um passo na sua socialização. Assim como sabe como chutar uma bola e cuidar de um “bebê”, ela simplesmente sabe ler…

Ler é fazer parte de uma comunidade maior e conquistar o seu lugar nela. Apoderar-se. Eu não sei se a Maria do documentário se tornará uma leitora de fato, mas a oportunidade de frequentar a escola lhe permitiu conquistar um status muito diferente da sua condição de analfabeta.

Quando ganha um livro de presente, a criança pequena dá um passo em direção a esse lugar na sociedade que ela já reconhece como importante. Ela desconhece completamente essa história de ser mais inteligente, do conhecimento ser fator de segregação e dominação, cargos, salários, o que é ou não ser um intelectual… O que ela sabe é que, quando pega um livro (assim como uma boneca ou uma bola), os adultos ao seu redor a admiram por isso. Talvez todos nós não saibamos exatamente qual é a relevância de saber ler em nosso dia a dia. Afinal, a maioria de nós é alfabetizada e praticamente lê o tempo todo sem muitas vezes se dar conta do que isso realmente significa. Mas lembremos da Maria: a dor de não saber ler talvez só seja plenamente sentida por alguém que de fato não sabe ler…

Presentear a criança com um livro é dar-lhe um sentido social e politico. Quando achamos graça dela “fingindo” que está lendo, estamos confirmando a conquista desse lugar de leitor que ela ocupará num futuro próximo. Por isso, na minha opinião, é tão importante que a criança desde pequena tenha livros por perto. Não sei se ela se tornará ou não uma intelectual. Tampouco se gostará de ler quando adulta. Mas tenho certeza de que ela, com um livro nas mãos, desenvolverá o sentimento de fazer parte de uma comunidade, uma comunidade que lê e sabe usar a informação escrita. Alguém que detém poder e tem autonomia. Um ser político pleno.

Lembre-se disso da próxima vez que presentear a criança com um livro e toda vez que a ver lendo!

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