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Criança-símbolo do terremoto: nunca existiu e mostra o que leva as pessoas à falsa comoção

Mas então, como essa história chegou aos nossos ouvidos?

Ana Beatriz Alves

Ana Beatriz Alves ,Filha de Maria de Fátima

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(Foto: divulgação/AP Photo/Gerardo Carrillo)

A confirmação do subsecretário da Marinha mexicana, Angel Enrique Sarmiento, de que não há mais nenhuma outra criança a ser resgatada do Colégio Rébsamen causou estranheza pra muita gente. Isso porque o país (e o mundo) criaram expectativa sobre resgate de suposta criança nos escombros de escola na Cidade do México após terremoto que sacudiu o país. A tentativa de resgate chegou a ser transmitida ao vivo pela TV local. Só que a tal criança – Frida Sofía – não existia.

Tudo começou na terça-feira, 19, quando o México foi devastado por um terremoto de magnitude 7,1. Em meio à tragédia, muitas crianças ainda estavam sendo resgatadas, quando o coordenador das operações de resgate, José Luis Vergara, confirmou ao canal Televisa seu contato com uma menina e que ela tinha recebido oxigênio, água e disse estar “muito cansada”. De acordo com o canal de televisão, Frida Sofía ainda teria dito aos bombeiros que podia ainda ver outras duas crianças, mas não sabia ao certo se estavam vivos.

Mas, a história foi negada na quinta-feira, 21. Angel confirmou que não existe nenhuma Frida Sofía. Segundo as autoridades de educação, todas as crianças estavam com familiares, internadas ou tiverem a morte confirmada. “Nunca tivemos conhecimento desta versão, e temos certeza de que não foi uma realidade, pois repito que [a informação] foi corroborada com a Secretaria de Educação Pública, com a delegação e com a escola.”

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Mesmo sendo mentira, a história de Frida estava sendo noticiada pela imprensa mexicana e mundial. Como uma notícia falsa pôde ter se espalhado tanto?

As pessoas buscam diferentes formas para lidar com a tragédia. Segundo a psicanalista e psicóloga do CBA do instituto PENSE e membro da CEPPAN, Gabriela Malzyner, mãe de Olívia e de uma menininha que está para nascer a qualquer hora, e Yuri Busin, filho de Wal e Tales e psicólogo, diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (CASME), podemos abordar 4 possibilidades:

  1. Coordenador das operações de resgate na posição do herói. É comum alguém ter esse sentimento de que precisa “salvar o dia”. Se José salvasse uma criança no meio de uma tragédia, ele teria sido o grande herói do terremoto.
  2. Sentimento de esperança. No meio de uma tragédia, as crianças são o maior alvo de preocupação e de empatia. Salvar uma criança, seria como salvar os mexicanos daquele desastre, a Cidade do México caiu, mas uma criança teria sido resgatada. 
  3. Fragilidade. Em uma situação traumática, é normal as pessoas ficarem mobilizadas e e fragilizadas. Frente a uma catástrofe, ninguém age de modo racional, sendo mais fácil dar margem à uma fantasia ou uma histeria coletiva. Se uma pessoa acha que está doente e começa a passar mal, muitas outras farão o mesmo. O que pode ter acontecido ao “ouvir” a voz de Frida.
  4. Redes sociais. O sentimento de mobilização em massa toma caminhos inesperados, quase como um telefone-sem-fio. Pode não haver uma verdade ou uma mentira porque as pessoas não conseguem mais discernir o que é real e o que não é. O que norteia a verdade aqui é o que as pessoas querem ouvir e ver para se mobilizarem a situação do outro.
  5. Frida Sofía não pôde ser salva. Menos provável, mas também uma possibilidade. A equipe de resgate pode não ter conseguido salvar o símbolo de esperança do México e, para não criar uma tragédia em cima da tragédia, optaram por desmentir a existência da Frida.

Verdade ou não, a Pais&Filhos torce pelo bem-estar das famílias que sofreram com o terremoto e pelo resgate de mais crianças e adultos.

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