Gritar com os filhos não ensina nada: entenda os prejuízos e como parar de fazer isso

Para começar a mudar o comportamento, é preciso antes entender como funciona o cérebro da criança e saber que os momentos de desobediência não acontecem para desafiar os pais, mas sim porque seu filho ainda não entende o que é certo e errado

Resumo da Notícia

  • Educar uma criança é, sim, um desafio - embora isso fale muito sobre instinto parental, o ato de criar um filho também pede muito estudo
  • Entender como funciona o desenvolvimento infantil é essencial para ensinar seu filho da maneira correta o que ele pode ou não fazer
  • Saiba porque não adianta gritar com o seu filho, quais são as consequências desse ato e o que fazer no lugar

Entre todos os desafios que um filho impõe aos pais diariamente desde a sua chegada, o maior de todos é educar do zero um ser humano que você ainda está conhecendo. Pois é, o tal amor incondicional existe, mas, assim como qualquer outro tipo de relação, esse sentimento é construído diariamente na base do trabalho de formiga, de pouco em pouco. E criar esse bebê, educá-lo e mostrar o caminho certo das coisas é a maior prova desse afeto e bem-querer por ele.

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Educar e criar uma criança pede muito estudo e entendimento sobre o assunto. É claro, tudo isso tem a ver, sim, com o instinto dos pais em relação à escolha do melhor caminho para seguir, e também com a herança familiar de como foi a própria criação desses adultos que têm nas mãos a responsabilidade de cuidar de um bebê. No entanto, o legado da criação muitas vezes pode trazer junto de si muitos traumas.

Atenção: os marcos de desenvolvimento do bebê têm uma data limite para acontecer. Fique de olho e, na dúvida, procure um especialista
Entender como o cérebro da criança se desenvolve é fundamental para que o processo de educar seu filho se torne cada vez mais respeitoso e com conexão

Engole o choro?

A maneira como os pais educam os filhos mudou muito, isso é fato. Apesar disso, alguns comportamentos insistem em permanecer na rotina de criação de alguns pais. Uma delas é o ato de gritar com a criança quando ela faz alguma coisa que não atende a expectativa dos pais, algo que pode colocar a vida delas em risco (como mexer em uma tomada), ou ter um rompante de birra – algo extremamente normal e que caracteriza a maneira como seu filho consegue comunicar a frustração que está sentindo.

De cara a gente já te adianta: gritar com o seu filho não adianta nada. Ele não para de fazer o que está fazendo porque entendeu que está errado, é perigoso ou está incomodando. A criança para porque o corpo acende um sinal de alerta e, naquele momento, ela passa a sentir medo. Isso desencadeia um fator chamado estresse tóxico, que é altamente prejudicial para o desenvolvimento.

“A organismo da criança responde aos gritos dos pais com um aumento de hormônio de cortisol e alteração das conexões sinápticas, mudando a arquitetura cerebral”, explica a médica Eliete Faria, neuropediatra, colaboradora voluntária do ambulatório de transtorno do espectro autista PROTEA do Ipq da FMUSP e mãe de Sara e Estela.

Outro ponto importante para deixar cair por terra a teoria de que é preciso gritar com a criança para ela te obedecer: respeito é uma coisa que precisa ser ensinada na prática e pede exemplo dos pais diariamente. “Na teoria, você não ensina isso para o seu filho gritando com ele e falando ‘me respeita porque eu sou seu pai’. Essa prática é extremamente autoritária e está modelando um comportamento desrespeitoso”, acrescenta Fernanda Teles, educadora parental, psicóloga e mãe de Liz, Théo e Mel.

Se o adulto é o espelho da criança para que ela tenha hábitos alimentares saudáveis, goste de se exercitar, arrume o próprio quarto, escove os dentes e mais vários itens de uma lista de atividades rotineiras, a educação segue a mesma lógica. Respeito é uma coisa que acontece mutuamente e, para que o filho respeite os pais, eles precisam respeitar aquela pessoa que ainda está aprendendo tudo. “A criança precisa ser orientada e direcionada. Eu preciso ensinar uma nova habilidade para ela quando acontece um erro”, explica a educadora parental.

Gritar com o filho, além de não ensinar a criança sobre o erro dela, também pode causar prejuízos
Gritar com o filho, além de não ensinar a criança sobre o erro dela, também pode causar prejuízos (Foto: Shutterstock)

Como funciona o desenvolvimento cerebral da criança na prática?

Para entender o porquê gritar com crianças não só é ineficaz como prejudicial para a saúde dela, é preciso dar um passo para trás e falar, científica e biologicamente, como o cérebro do bebê funciona. Parte do sistema nervoso central, esse órgão é responsável por movimentos voluntários e involuntários do corpo humano e está relacionado à memória, linguagem e inteligência. Plástico, ele pode ser moldado de acordo com os estímulos que recebe.

O desenvolvimento cerebral do bebê começa enquanto ele ainda está sendo gerado dentro da barriga da mãe. Após o nascimento, esse fenômeno vai acontecer com uma intensidade muito acelerada durante os primeiros dois anos de vida da criança – mas só vai se estabelecer de verdade por volta dos 26 anos de idade. A neuropediatra Eliete Faria explica que os especialistas dividem esse desenvolvimento do cérebro em três etapas.

A primeira etapa é chamada de proliferação. “Simplificando, é a fase de multiplicação dos neurônios em que eles aumentam de quantidade rapidamente. A segunda etapa é a migração. Os neurônios são todos formados em uma parte do cérebro, e então migram deste local para atingir a área onde vão permanecer”, explica Eliete.

A terceira etapa, a mais complexa de todas, foi nomeada como diferenciação. “Esse estágio engloba a formação de sinapses, mielinização e poda neural”. Mielinização é o nome dado ao processo de formação de uma capa feita de gordura e proteína em volta do corpo do neurônio e que acontece até a vida adulta de uma pessoa. “Essa capa faz com que a informação seja transmitida de uma maneira mais rápida e eficiente. Por isso que uma criança de dois ou três anos, ou até mesmo uma adolescente muitas vezes não consegue controlar os próprios impulsos”, justifica a neuropediatra.

O cérebro da criança começa a se desenvolver durante a gestação e só fica completamente maduro na idade adulta
O cérebro da criança começa a se desenvolver durante a gestação e só fica completamente maduro na idade adulta (Foto: Getty Images)

As consequências de educar uma criança na base do grito

Por mais simplificada que seja, a explicação científica mostra que crianças desobedecem os pais não porque querem testar os limites dos adultos (como muitos dizem), mas porque não possuem o cérebro maduro o suficiente para entender muitas coisas que estão fazendo. É papel dos educadores mostrar caminhos para que ela se desenvolva de forma saudável, com autonomia, mas também com limites.

As consequências de uma educação que acontece na base do grito podem ser muito sérias para a criança não só durante a infância dela, mas também a longo prazo, chegando até a vida adulta – principalmente quando falamos sobre autoestima e a capacidade de se autorregular emocionalmente, isto é, a habilidade de lidar com os próprios sentimentos e situações frustrantes de maneira inteligente e saudável.

Educando de forma atenciosa

É comum ouvirmos pessoas dizendo que, sem a punição, não há limites sendo impostos para educar aquela criança. O equívoco mora exatamente aí: punir não é a mesma coisa que criar com educação. “Não gritar, não punir, é muito diferente de deixar a criança fazer o que ela quer, não corrigir e não colocar limites. É possível a gente corrigir, colocar limites, deixar a criança se frustrar sem que seja algo agressivo. Com afeto e segurança, deixando um ambiente seguro, a gente consegue trazer uma estrutura para um desenvolvimento neurológico saudável”, complementa a neuropediatra.

Aqui, a conversa volta para o que foi dito logo no início: parentalidade é instinto, mas também é preciso estudar para ajudar seu filho a ter um desenvolvimento feliz e saudável. A educadora parental Fernanda Teles desenvolveu um método para ajudar os pais a lidarem melhor com a turbulência interna que, muitas vezes, uma criança pode trazer até para os próprios responsáveis por ela quando se enxergam diante de uma situação desafiadora, frustrante ou nova.

A comunicação e acolhimento entre pais e filhos nos momentos difíceis gera conexão - e, posteriormente, a conexão se transforma em colaboração
A comunicação e acolhimento entre pais e filhos nos momentos difíceis gera conexão – e, posteriormente, a conexão se transforma em colaboração (Foto: Getty Images)

Chamado de “mar da calma”, Fernanda conta que essa é uma maneira se você se conectar com o seu filho para que, em um momento de briga, birra ou que o grito seria a primeira ferramenta usada para tentar controlar a situação, o adulto da relação pare e se coloque no lugar daquela criança. “A letra M é para ‘mergulhe no mundo do seu filho’; A para ter atenção plena e estar genuinamente presente nos momentos em que ele demanda alguma coisa de você. R diz sobre ressignificar o pedido que a criança fez para os pais”.

Esses três movimentos vão ajudar o adulto, que é o cérebro maduro da relação, a se conectar de maneira profunda e verdadeira com a criança, que ainda está aprendendo a lidar com as próprias emoções, a partir da comunicação. “A conexão gera cooperação. Se você se conecta profundamente com seu filho, você vai conseguir cooperação sem precisar gritar, xingar, castigar e punir”, finaliza Fernanda.