Para ser antirracista: filho segue exemplo e a mudança precisa partir de você

Não adianta falar, falar e falar, mas não mudar as atitudes

Ela: Antirracista sim

Caminhe juntos para a mudança (Foto: iStock)

Tem um ditado espanhol que diz “Cría cuervos y te sacarán los ojos”. Ele nos ensina uma lição fundamental: se criarmos pessoas para serem rudes e vis, é isso que o mundo vai receber e também o que nós colheremos. Corvos são aves que gostam de objetos brilhantes e são incapazes de expressar gratidão. Faz sentido. Na política, é comum um personagem apadrinhar outro, de fama ruim, e depois se arrepender. Casamentos, amizades e sociedades também se desfazem litigiosamente quando uma das pessoas é má ou age desta forma. Parece trama de novela, mas não é.

Na vida real há decepções, adultos infelizes e filhos ingratos. Aos montes. Você, adulto, que lê este texto, já deve ter percebido isso. Filhos rudes e vis? Quem vai educar sua prole assim, você pode estar se perguntando. O mundo é repleto de maldades e cabe a nós identificarmos essas questões e evoluirmos. Ninguém quer que o seu filho bata em mulheres, por exemplo, mas basta uma olhada rápida em qualquer relatório de violência de gênero para percebermos que pouco está sendo feito. Mulheres seguem morrendo porque o parceiro ou ex-parceiro sente ciúmes. Assim como negros seguem sendo presos e morrendo apenas pela cor de sua pele.

Não é justo. Muitas vezes, as pessoas que cometem estas violências o fazem por convicção, sentem-se no direito. Acham que estão certas. Alguém as educou assim. Agora me responda, sinceramente, uma criança é melhor do que outra porque nasceu homem, branco e num lar de gente rica? Se você respondeu não, então é bom começar a educar seus filhos (e filhas) para que entendam isso. Antes que seja tarde. Criar filhos sem preconceitos e antirracistas é um ato de amor. É educar uma pessoa melhor pra sociedade, para nós mesmos e para ela própria.

Ter uma visão estreita do mundo, tratar os outros mal ou se achar superior a alguém em função de seus privilégios é um atestado de ignorância. Não sabe como começar? Procure filmes, desenhos animados e livros com heróis e heroínas que sejam de outra etnia, religião, classe social, que possuam deficiências, que sejam diversos. Pode parecer pouco, mas você vai se surpreender com a riqueza de produções que encontrará. Desenhar um mundo melhor para nossos filhos passa por esboçar novas ideias dentro de nós mesmos, alargar o nosso pensamento. Comece hoje mesmo, porque o tempo passa voando e essa mudança é pra ontem. E está cheio de corvos por aí.

Ser pai e mãe é uma responsabilidade que merece cuidado (Foto: iStock)

Ele: I have a dream

Um pouco antes da palestra o organizador me levou pra conhecer o escritório da empresa. Uma empresa moderna, dessas que todo mundo trabalha junto, sem paredes, salas de reunião de vidro, jovens descansando em pufes coloridos. Mostrando o escritório, o organizador me dizia: “Aqui fica a área de Customer Success” (todas tinham nomes em inglês), “Aqui está nossa Dream Wall, a parede de sonhos. Os colaboradores escrevem um sonho e colocam aqui”. Vi duas fotos com aviões. Vi a palavra MERITOCRACIA escrita grande. “Pois aqui acreditamos muito na ME-RI-TO-CRA-CIA”, me disse.

Fiquei um pouco abalado. Estava na empresa para falar justamente isso: não existe meritocracia se os pontos de partida são tão díspares, a não ser que contrate apenas pessoas com o mesmo gênero, cor de pele, orientação sexual e… Olhando ao redor percebi que era isso. “ME-RI-TO-CRA-CIA”, se você, mulher, aceitar piadas machistas e comentários inapropriados. Se você se equilibrar em saltos, se maquiar adequadamente, não discutir, não se impor. Se você não engravidar, não vier com esse papinho de opressão de gênero, patriarcado, feminismo, quem sabe um dia, a MERITOCRACIA funcione e você seja promovida.

E, claro, se você for negro dificilmente será contratado. “Porque aqui nós só contratamos os melhores!”, e você mora longe, estudou em escola pública, teve problemas na família, ajuda financeiramente os irmãos, a polícia de vez em quando fecha a rua e você chegaria atrasado. Você não conseguiria. Nossa empresa só contrata os melhores. E eu me lembrei de quando expliquei pra minha filha pequena quem foi o Martin Luther King, e de como era bonito o que ele disse. E que mataram ele. “O negro deve ser tratado como um igual, mas desde que não peça mais nada. À primeira vista, isso parece razoável, mas não é realista. Pois óbvio que, se um homem sai da linha de partida de uma corrida 300 anos depois do outro, precisaria de uma façanha inacreditável para alcançar o colega”.

A resposta está na educação (Foto: iStock)

Quando nós, que temos todas as condições para sermos bem-sucedidos, não enxergamos as dificuldades dos outros e não lutamos contra esse sistema; quando nós não conseguimos ultrapassar o segundo parágrafo de um texto porque tem a palavra “machismo”; quando ficamos cansados desse “papinho de racismo”, quando chamamos de “mimimi” as reclamações, estamos compactuando com essa corrida injusta. O organizador me apontou para a parede de sonhos do escritório. “Nossa empresa surgiu de um sonho do CEO, sabia?”, me perguntou. Um sopro de esperança atingiu meu coração. “Será mudar o Brasil? Será o clichê startupeiro ‘Fazer o Mundo um Lugar Melhor’?”, pensei. “O sonho dele era ter um helicóptero!”, o organizador me disse. “E agora ele TEM um!”, acrescentou, quase batendo palmas. “Ele realizou o sonho!”.

MORAL: “Que tal assistir aos filmes Pantera Negra, O menino que lia cartas ou ao desenho Doutora Brinquedos, ouvir o Lázaro Ramos ler Faz de contos, ler o livro Amoras, do Emicida, acompanhar perfis como @oradoblec no Instagram?”