Maternidade x paternidade: mesmo peso, duas medidas

Quando um bebê nasce, praticamente todas as cobranças, julgamentos e questionamentos caem no colo das mulheres

Ele: ser pai

Como é difícil para um homem virar um pai. Ele faz filhos, mas como é difícil ser pai. Homem feito pra ser duro, orgulhoso, violento, competitivo, egoísta. Como é difícil para um homem transformar seu coração de pedra em manteiga. É preciso um milagre químico ou intervenção cirúrgica. Ouvir mais e falar menos. Aceitar o imprevisto, o incontrolável. Não ligar para os outros. Tirar suas máscaras, reconhecer o choro. Recolher a âncora, aceitar a onda. Tirar a armadura, pra construir um castelo.

Ser pai e ser mãe trazem as mesmas responsabilidades (ou pelo menos deveria) (Foto: Getty Images)

Pai não tem útero, mas tem colo. Não tem peito, mas tem mamadeira. Não carrega na barriga, mas no abraço. Carrega no ombro, nas costas, na cabeça. Pai engravida no frio da barriga. Gesta no coração. Pare no choro. Nutre no beijo. Alimenta no carinho. Protege na atenção. Pai não nasce pronto. Se quebra no parto, se reconstrói no caminho. Nasce menino, cresce homem, morre pai.

Pai não tem cordão umbilical, mas tem mãos, braços e pernas pra fazer chegar o necessário. Pai não faz leite, mas faz comida. Não amamenta, mas faz a papinha, dá a papinha, suja a roupa inteira de papinha, limpa a papinha que caiu no chão. Pai não tem nove meses de gestação, mas tem anos e anos de formação. Gesta fora, tentando fazer tudo certo. É árvore, esconderijo, refúgio, esforço, perdão, arrependimento, recomeço. Pra ser bom pai vira bom filho, bom marido, bom homem.

Pai é rei, princesa, professor, Messi, Einstein, Steve Jobs. Gigante, minúsculo, imbatível, chorão. Que nossa bolsa nunca estoure, nosso cordão umbilical continue nutrindo eternamente, nosso colo seja apoio pra sempre. Que nosso amor seja tão grande ao ponto de causar pequenas revoluções, auréolas invisíveis, pequenos milagres, vagalumes onde formos, asas escondidas embaixo das nossas camisas. Que sejamos os super-heróis que nossos filhos sabem que podemos ser. Heróis anônimos, comuns, empurrando carrinhos, buscando nas festas, ligando aos domingos. Agradecidos por um dia termos virado o que nunca imaginamos que seríamos. Como é bom para um homem virar um pai.

Ela: ser mãe

A maternidade chega já com o positivo, quando aparecem os primeiros julgamentos e cobranças (Foto: Getty Images)

Toma que o filho é teu! Quem pariu Mateus que o embale. Pra ser mãe basta parir. Nasceu de ti, pronto: serás eternamente responsável por tudo que acontecer à criatura de teu ventre. Se a criança for calma, bem humorada, saudável, mamar direito: ponto para você. Se, ao contrário, chorar ininterruptamente, morder o coleguinha, apavorar na adolescência: é para o teu lado que a balança vai pesar. A culpa, a não ser que você tenha um excelente advogado ou um pai muito aliado, será sempre (e exclusivamente) sua.

Cadê a mãe dessa criança? Mesmo que você não tenha planejado, uma vez mãe, sua vida muda radicalmente. São anos e anos de dedicação. Ai de você se não der conta. E mesmo que dê será igualmente avaliada, julgada, censurada e questionada. Ser mãe é o maior do trabalhos, o que envolve mais horas, mais anos da sua vida. Uma vez mãe, você acorda com a responsabilidade de alimentar, cuidar, limpar e educar seus filhos.

E vai dormir como um médico plantonista em noite calma de pronto-socorro: preparada para acordar ao menor sinal. O resultado de tamanha responsabilidade, sobrecarga de trabalho e dedicação é uma infinidade de amor. Abraços, beijinhos, cartinhas, companhia (agora na quarentena de 24 horas por dia, 7 dias por semana) e uma espiada na continuidade de sua própria vida.

O futuro está ali, naquele bercinho, primeira porta à esquerda no corredor. E esse futuro precisa ser mais seguro, mais justo, mais limpo, ou seja, melhor. Mas, cabe a nós, mães, lutar por um mundo melhor para nossos filhos. E é nosso dever também criar filhos melhores, crianças mais gentis, solidárias e humanas para que o futuro não seja uma grande guerra.

O nó, no entanto, é que sozinhas pouco conseguimos. Toda mãe precisa de apoio, precisa compartilhar com marido, parentes, professores e amigos a longa lista de tarefas necessária nessa missão de criar mundos e pessoas melhores. Quem inclui, agrega, multiplica. E tem o poder de tornar todo mundo um pouquinho mãe também.

Moral: Pai e mãe é quem cria, quem cuida. E é mágico