Não decepcione a criança que você já foi um dia

A parentalidade traz muitos desafios para a rotina, mas resgatar o seu eu, na infância, é fundamental para curtir essa fase

Ele: de um pai imaginário ao filho

Queria ter tido um pai. Deitado em sua barriga, criança, adormecido, protegido. Passear de mãos dadas, sentir a mão forte de um gigante protetor. Queria ter sentido, surpreso, uma mão afagando meus cabelos infantis desregrados. Queria ter tido abraço longo de pai antes de entrar na escola. Queria ter inventado brincadeiras, ouvido histórias antes de dormir, queria ter ouvido conselhos de um pai quando começasse a crescer. O que um pai fala ao filho homem? O que meu pai teria me falado? Como me ensinaria a ser um bom homem?

Relembrar a sua infância é muito importante quando você se torna pai e mãe
Relembrar a sua infância é muito importante quando você se torna pai e mãe (Foto: Shutterstock)

Seja sempre criança, ele diria. Lembre-se do seu coração infantil, gentil e bondoso. Tente nunca decepcionar essa criança que você foi um dia. Tudo o que você aprendeu quando criança serve para o resto da vida: divida o que sobrar; brinque sempre dentro das regras; tome cuidado com o trânsito; limpe sua própria sujeira. Quando não se sentir seguro, peça ajuda.

Ter um coração mole em um mundo cruel não é sinal de fraqueza, é sinal de coragem. Não tente provar sua força para os outros. Os meninos realmente fortes não precisam demonstrar poder. Os inseguros precisam. Trate a todos com respeito. Use sua força para ajudar as pessoas mais fracas. Nunca abuse de pessoas frágeis. Nunca exponha a intimidade de alguém. Nunca diminua alguém apenas por ser diferente do resto. Você vai se sentir minúsculo quando magoar as pessoas. Você vai se sentir enorme quando engrandecê-las.

Trate bem as meninas. Escute-as. Inspire-se nas suas sensibilidades. Seja carinhoso com a menina por quem você se apaixonar. Ouça-a com atenção. Trate-a com respeito e dignidade, mesmo se você não sentir que a ama. Não a magoe. Sempre diga a verdade, mas não de uma maneira cruel. Diga a verdade com doçura. Se esforce para não magoar nenhuma pessoa, mesmo sabendo que isso pode acontecer. Peça desculpas quando acontecer.

Faça sempre a coisa certa. Seja honesto e corajoso, mesmo que ninguém ao seu redor seja. O mundo é cheio de pessoas boas, se você não encontrá-las, seja uma. Busque estar rodeado de anjos. A forma mais fácil de fazer sempre a coisa certa é estar rodeado de pessoas virtuosas. Valorize os amigos. Vá conhecer o mundo. Aventure-se. Seja ousado. Mas, por favor, não morra. Fique vivo em algumas fotos, em vídeos, nas músicas, nas lembranças de alguém. Fique vivo nas memórias do seu próprio filho. E, se puder, diga a ele tudo o que eu disse a você, ele diria.

Ela: a irmã que eu não tive

Fui criada entre dois meninos. Herdava os moletons furados do mais velho e tinha o mais novo como grande companheiro de brincadeiras. Era um mundo muito masculino. A gente trocava tapas, chutes e um sem fim de xingamentos. Minha mãe, coitada, às vezes, era obrigada a apelar para histórias horríveis para que parássemos de deixar hematomas uns nos outros. “A filha da vizinha da sua vó tinha tantos roxos na perna que um dia viraram câncer e ela quase perdeu a perna”, ouvi dela. Essa história me apavora até hoje e desconfio que era mentira.

Funcionou, baixou os índices de violência entre nós! Não que a gente fosse violento, mas brincávamos de lutinha o tempo todo e era bem divertido. Nunca me machuquei seriamente e a pior coisa que fiz foi fechar a porta na mão do meu irmão menor. Um horror, sem dúvida, mas ele não quebrou nenhum dedinho.

Brincar com meninas era uma raridade pra mim. Nas férias eu encontrava minhas primas que moravam no interior. Era o céu. A gente pulava elástico, costurava roupinhas para as nossas Barbies, passeávamos na cidade e falávamos de garotos. Elas eram um pouco mais velhas e lá pelos 12 me abandonaram e foram viver suas adolescências.

Eu sentia muita falta de ter uma irmã. Pra emprestar roupa, pra me trançar o cabelo – minha mãe vivia sempre tão ocupada, sem tempo pra essas frescuras – e pra ter pra quem contar meus segredinhos. Alguém que não ficasse rindo da minha cara, como os guris faziam. Eles me sacaneavam demais. Eles costumavam desatarrachar a parte do telefone que captava o áudio do aparelho da extensão de seus quartos, gravar minhas conversas com amigas em fitas cassetes e depois ficar tocando alto pela casa pra me provocar. Eram umas pestes.

Como eu não tinha uma irmã, sempre cultivei muitas amizades com meninas. Assim fui formando grupos e grupos de amigas. Por onde eu passava, seja uma aulinha de artes ou um tratamento de fisioterapia, desenvolvi uma estranha capacidade de fazer amizades, trocar telefones e agilizar encontros. Sou assim até hoje.

Há alguns anos, uma dessas muitas amigas, a Flavinha, foi passar uma tarde na minha casa. Ambas tínhamos apenas um filho na época, com 6 anos. Eu tinha uma menina e ela, um menino. Eles brincavam superbem, mas, lá pelas tantas, inventaram de lutar jiu-jitsu. Ele ensinou uns golpes pra ela e começaram a “luta”. Meu primeiro instinto foi de parar a brincadeira. Onde já se viu a Anita bater e apanhar? Aí me lembrei de como era divertido e deixei.

Que coisa mais boa é extravasar um pouco de energia brincando de lutinha com alguém do nosso tamanho! Nesse dia me dei conta que sempre quis tanto ter uma irmã, mas como foi bom e importante na minha formação ter tido dois irmãos.

Moral: “Não ter um pai é triste, não ter uma irmã (ou irmãos) também pode ser. Mas a gente sobrevive!”