Não tem nada como a nossa casa, seja aonde for

Estar com a família, dividindo os cuidados, a rotina, o quarto, a pia já dá uma cara diferente para qualquer ambiente

Ele: Lar é onde está nossa bagunça

Sempre que eu penso na diferença entre uma casa e um lar, me lembro de uma história que aconteceu com a gente no Rio de Janeiro. Era 2016, eu lançava meu segundo livro, minha esposa lançava seu primeiro, e a editora alugou um apartamento em Copacabana para passarmos alguns dias. Iríamos fazer a noite de autógrafos na livraria Travessa do Shopping Leblon, um dos mais charmosos da capital carioca.

Porque nós transformamos cada canto em lar junto da nossa família
Porque nós transformamos cada canto em lar junto da nossa família (Foto: Getty Images)

Chegamos no Santos Dumont empolgados com a possibilidade de estar perto da praia e perto de amigos que não víamos há tempos. Aquele frescor da natureza carioca, misturado com aquela confusão do trânsito e dos ambulantes, nos enchia de excitação. Quando chegamos no apartamento, porém, nossa empolgação frustrou.

Era um imóvel antigo que estava fechado há tempos, um sofá mofado na sala, um armário velho no primeiro quarto, uma cama apertada no segundo quarto, uma cozinha melancólica com uma solitária geladeira branca, um banheiro vazio com box de cortina. A simplicidade do local não me incomodou, mas o cheiro de mofo sim.

Pensei em ligar para a editora reclamando do tratamento que estavam dando ao seu nobre autor. Ora vejam, nossos livros estavam entre os mais vendidos do Brasil, o lançamento teria vinho branco e canapés, e ali estávamos nós em um cafofo humilde e úmido.

As meninas, como sempre, correram para a minúscula cama do segundo quarto para pularem no colchão, um clássico que chamamos de “exercício pós-viagem de avião”. Eu e minha esposa nos olhamos, abrimos as janelas do apartamento, verificamos a possibilidade de cozinharmos algo de janta, abrimos as malas na sala, nos preparamos para tomar banho.

Alguns minutos depois, as meninas estavam no chuveiro, brincando e brigando. Pelo chão do banheiro, roupas sujas e calcinhas, tênis e meias jogados, nossas nécessaires em cima da pia, escovas de dente rosa e roxa e pastas de dente da Ladybug. Na cozinha, achamos e preparamos um Miojo, que comemos rindo da nossa pequena desgraça.

A risada das meninas foi preenchendo o apartamento. As roupas jogadas pelo chão foram nos aproximando de casa. Nosso cheiro foi substituindo o cheiro de mofo, a umidade foi saindo da casa e o barulho do trânsito da Avenida Nossa Senhora de Copacabana foi entrando, de forma que nos sentimos por alguns segundos legítimos cariocas, em nosso apartamento velho, em nosso edifício com portão na calçada, com nosso porteiro simpático, com nosso vendedor de frutas na esquina. E dormimos juntos e amontoados naquela cama minúscula do segundo quarto, com a janela aberta e com a brisa que balançava um cortina branca e na.

E era como se morássemos ali faz tempo, como se soubéssemos a história daquele apartamentinho, seus defeitos e qualidades, como se já soubéssemos dos seus problemas hidráulicos e quais eram os vizinhos mais chatos do prédio. E, por uma semana, aquele espaço não foi só o apartamento de alguém. Foi nosso lar.

Ela: A minha casa

Estou pensando em me mudar. Desde que passamos a trabalhar em casa – e fazer lives, que demandam silêncio dos demais – viajar menos, fazer pilates online, cultivar uma mini floresta e criar minhocas, nosso apartamento ficou pequeno pra tanta vida. Nos esbarramos no corredor, nos banheiros, pedimos silêncio, batemos portas, o vento bate portas, muita coisa acontece em pouco mais de uma centena de metros quadrados. É hora de se mudar.

A jiboia já abraçou todos os quadros na parede, o sol já torrou as cortinas que se partiram ressecadas, a filha mais velha já menstruou, a menor aprendeu conta com vírgula, é preciso procurar outro lugar pra tanto fluxo.

Toda vez que saio para olhar um apartamento, acontece um fenômeno muito estranho. Eu entro, olho, abro janelas, faço perguntas, fico imaginando uma nova decoração, uma pequena reforma. Na volta pra casa, não sei explicar o porquê, quando abro a porta, onde ainda moro, o alívio que sinto de “estar em casa” é tão grande que me pergunto por que mesmo quero sair daqui.

Me sinto traindo meu lar, que nem meu é. É um apartamento alugado, era para ser provisório. Estacionamos aqui há 5 anos e, no dia que sairmos, teremos que fazer muitos e muitos reparos. Provavelmente ficaremos um semestre presos tentando entregar o imóvel e a imobiliária dirá “não, esta porta está com cupins, este azulejo não era trincado e opa, o que vocês zeram com este teto que está todo mofado?”. A gente vai penar, pagando aluguel e condomínio até ouvir um sim, meses depois, muitos reais mais pobres.

Hoje estive na casa de uma senhora que regula de idade com a minha mãe, deve ter entre 70 e 75 anos. Ela mora num apartamento bem antigo muito ensolarado com um pôr-do-sol de tirar o fôlego. À esquerda, o Palácio Iguaçu, sede do governo do Paraná, à direita, o Museu Oscar Niemeyer, nosso querido museu do olho, com sua estrutura de olho flutuante.

A dona Gertrude, muito simpática, em poucos minutos me contou todos os seus segredos, abriu o coração. Sua filha separou-se na pandemia e está morando lá, com dois filhos adolescentes, um vira-lata médio cor caramelo – que fica no terraço no segundo piso o dia todo. “Ela nem se dá ao trabalho de passear com ele” – e uma gatinha branca que se enroscou na minha perna, esfregou a cabeça em mim e ficou no meu colo a visita toda.

Pobre Gertrude, quer seu sossego de volta, poder cuidar das suas plantas, das tarefas de síndica e ver sua tevê em paz, não ter que ficar lavando roupa de marmanjo. Foi a primeira vez que pensei: olha, acho que quero montar meu acampamento aqui. Levar meus sabonetes, meus temperos de cozinha, os arranjos de flor seca da Anita, os bilhetinhos, canetinhas e figurinhas da Aurora, meus mil livros (se não forem mais que isso) e até as minhocas do Marcos! No salão de festas, com móveis em laca branca e estofados amarelos gema de ovo, eu podia jurar que estava numa reunião de Tupperware das amigas da minha avó, nos anos 1980. Pandemia, nostalgia, delírio? Chame do que quiser, eu gostei. No final da visita, dona Gertrude me fez uma promessa: “Se sair negócio, a gata é sua!”. “Combinado”, falei!

Moral: “Nossa casa é onde nos sentimos bem e isso não tem nada, religiosamente nada, a ver com luxo. Pelo menos, no nosso caso”