O estresse e angústia atingiu toda a família nesse período em casa

São muitas tarefas, mas com a ajuda de todos da família, esse trabalho pode ficar um pouco mais fácil (e até divertido)

Ele: sem sossego

Aurora acordou de cara fechada – o que não é comum. Geralmente, ela acorda sorrindo. Por vezes, gargalha durante o sono. De manhã, nos explica: “Sonhei que eu era um cachorro”. É normal olhar para ela dormindo e perceber um sorriso. A menina está sempre feliz. Menos hoje de manhã. Ainda de pijama, veio até a mesa da cozinha e, emburrada, sentou na cadeira. “Bom dia”, dissemos, pra não ouvir resposta. “Eu não quero crescer mais”, ela disse, lábios duros e sobrancelhas juntas.

Com o acúmulo de tarefas e as incertezas sobre o mundo, crianças e adultos estão esgotados na pandemia (Foto: Getty Images)

Ela explicou que tinha sonhado que tinha um salão de beleza, as clientes não paravam de chegar e ela tinha que correr de um lado para o outro atendendo as pessoas. Cortava o cabelo de uma, pintava o cabelo de outra, uma nova cliente entrava na loja, outra queria pagar a conta, outra reclamava do atendimento lento. E a Aurora sozinha tendo que dar conta de tudo. Minha filha de oito anos está estressada, angustiada com a tortura do labor.

Acho que sei de onde veio esse sonho. A menina, durante as férias, começou a jogar videogame com as amigas, no computador. Esses dias, dei uma espiada no que ela estava jogando, não sei se era Roblox ou PKXD, e lá estava a Aurora correndo de um lado pro outro entregando pizza. “Eu ganho moedas, pai”, ela me disse. A menina, no jogo, entregando pizza com aquela mochila quadrada do iFood nas costas, tentando ganhar a vida virtual, pagar as contas do cabelo rosa que ela comprou pro personagem dela.

Olha, meus amigos, a azáfama começa cedo. Minha mãe me dizia, enquanto eu limpava o chão da cozinha e lavava a louça, nos anos 1990: “O trabalho dignifica o homem!”. Depois descobri que uma frase parecida era letreiro nos campos de concentração. Como vocês sabem, a palavra trabalho vem do latim tripalium, que também derivou a palavra tortura. Já faz muito tempo, um amigo aprimorou a frase da minha mãe: “O trabalho danifica o homem”, e explodiu em risada.

Disse à Aurora que ela não precisava abrir um salão de beleza. Nem entregar pizza. “Eu gosto de entregar pizza de bicicleta”, disse ela, mais tranquila. Comeu um pão com manteiga e já estava bem humorada. “Encontre um trabalho que você ama e você nem vai sentir que é trabalho, Aurora”, eu disse, imitando o Confúcio. Aurora continuou comendo seu pão com manteiga, que eu e minha esposa trabalhamos para comprar, o padeiro trabalhou pra fazer, o produtor trabalhou para cultivar, e assim por diante. Obrigado a todos.

Ela: tudo é trabalho

Toda vez que escuto alguém falar que sonha em se aposentar e não fazer nada – e essa frase é muito recorrente entre os jovens –, eu penso: ah, é, malandro? É bom ter muito dinheiro então pra pagar pra alguém fazer tudo pra você. Não existe não fazer nada. A gente precisa mudar nossa visão de trabalho, dissociá-la da ideia única de troca de esforço por pagamento e, quem sabe, voltar àquela definição da Física, trabalho é uma força aplicada a um objeto com capacidade de transformá-lo. Troque objeto por situação e voilá o resumo da vida.

Trabalhar é inevitável. Tudo envolve algum trabalho. Fazer café? Trabalho. Desenhar? Trabalho, o papel estava ali vazio, você pensou, apontou o lápis, criou algo, colocou o papel em outra dimensão. Cortar a grama? Trabalho. Arrumar a cama? Trabalho. Pagar contas? Adivinha. Trabalho também. Mental, com alto grau de planejamento prévio. Requer uma boa estratégia para viabilizar a operação e a matéria-prima nem sempre é fácil de encontrar.

Quando fazemos algo que gostamos, trabalhar pode ser altamente prazeroso. Melhor até do que “não fazer nada”. Cozinhar um almoço pode ser terapêutico. Escrever um texto pode dar uma sensação ímpar de realização. Salvar uma vida? Também. Fazer uma faxina e deixar a casa brilhando? Idem. Desde que você goste e não exagere, trabalhar é muito bom. Ao contrário do que parece, lazer demais, ou fazer só o que a gente quer também pode nos deixar imprestáveis. Sei por experiência própria.

Num sábado desses, peguei o livro novo da Elena Ferrante pra ler (A vida mentirosa dos adultos). Deixei todo o resto de lado, pedi comida num aplicativo e não me meti nas questões familiares (ah, como dão trabalho) e li as 400 páginas. Eram oito da noite quando terminei e eu estava exausta. Aí entendi porque minha mãe de 74 anos fica tão cansada com cursos online que adora e porque quanto mais minhas filhas jogam no celular, menos dispostas ficam até para descer o lixo.

Mesmo que a gente ame o que faz, é preciso dosar. A médica que dá três plantões seguidos pode colapsar. A mãe que cuida da casa e das crianças sozinha tem chance de adoecer. Pessoas que nunca descansam são mais propensas a terem aqueles ataques mortais do coração. Se tudo que nos envolve é trabalho, e ele não vai sumir, está mais do que na hora de aprendermos a nos relacionar melhor com o dito cujo. Nessa vida não tem almoço grátis, mas se um faz o macarrão, o outro arruma mesa e as crianças lavam a louça, já fica bem mais barato para todos.

MORAL: “O trabalho não é bom nem ruim, mas é necessário e altamente compartilhável”