Onde mora a alegria?

Equilibrar limites e liberdade criativa é fundamental para criar crianças criativas que entendam e respeitem regras e que também sejam flexíveis e alegres

Equilibrar limites e liberdade criativa é fundamental (Foto: iStock)

Existem várias formas de se divertir. Cada pessoa encontra seu próprio jeito particular de fazer isso. A unanimidade, porém, é que toda diversão inclui alegria.

Muitos adultos comemoram o Carnaval exagerando no consumo de subterfúgios artificiais que imitam a sensação de euforia e alegria: uma alegria artificial. Passa-se o efeito, passa-se a emoção e a vida retorna à sua normalidade não-divertida. E cadê a alegria?

Quando crianças, somos naturalmente alegres. Nos empolgamos com as coisas simples da vida. Outro dia me peguei refletindo sobre isso quando meus filhos (de 1 e 2 anos) me pediram para andarem no banco da frente do carro sem o cinto de segurança. Eu disse que não podia, que era perigoso e que havia uma lei, uma regra social que impedia que eles fizessem isso. Mas que havia uma circunstância em que aquilo era possível de ser feito. Eles aguardaram este momento chegar – não sem choro e frustrações, claro. Mas cabe a mim lidar com isso e fazer valer a regra.

No dia seguinte, eu os busquei na escola de carro e coloquei cada um na sua cadeirinha. Chegando em casa, atravessei o portão da garagem e parei o carro antes de chegar na nossa vaga. Tirei as crianças de suas cadeirinhas e as coloquei do meu lado, no banco da frente. Dirigi 10 metros a menos de 10km/h até parar o carro na minha vaga. E nestes menos de 3 minutos da vida deles, eles estavam alegres como quem saboreava um baita sorvete de morango com chocolate.

Equilibrar limites e liberdade criativa é fundamental para criar crianças criativas que entendam e respeitem regras e que também sejam flexíveis e alegres. Além disso, essa tarefa, que de fato não é muito fácil mas extremamente poderosa, fortalece os vínculos e a noção de respeito entre adultos e crianças.

Quando a vida só tem limitações, ela perde a graça e a espontaneidade.

Quando a vida só tem liberdade, ela perde significado e valor.

Isso ainda fortalece os vínculos e a noção de respeito entre adultos e crianças (Foto: Getty Images)

No equilíbrio dessas duas coisas está a alegria em seu sentido e sua experiência mais natural. Infelizmente, é justamente por termos perdido esse sentido e essa experiência na nossa infância que faz com que extrapolemos no consumo de drogas lícitas (e ilícitas – o que é pior) em busca deste resgate.

Reencontrar alegria nas coisas simples da vida adulta é mesmo uma arte – necessária. Ao mesmo tempo, cuidar de manter nutrida a alegria natural de nossas crianças é nosso dever enquanto educadores que desejam ter filhos felizes e um mundo mais interessante para se viver.

E, bem, para quem diz que o ano só começa agora, que sejam bem-vindos os próximos 309 dias de 2020. Que sejam, sobretudo, alegres.