Quarentena: lucro ou prejuízo para as crianças?

Aproveite para ampliar as possibilidades brincantes da sua casa e cuide disso como uma maravilhosa oportunidade de curar os vínculos com seus filhos!

O que as crianças ganharam agora foi o presente de ter os pais mais perto delas (Foto: iStock)

Há dias fico pensando em como a pandemia tem ressoado na vida das crianças. E muitas vezes acho bastante injusto que, justo elas, estejam sofrendo tanto! Presas dentro de casa, sem reencontrar os amiguinhos, sem o chão da escola para correr e até mesmo sem a voltinha no parque para se divertir de pés descalços. “Puxa vida, dona natureza! Não dava para a senhora ter sido um pouco mais legal com estes serzinhos que só enfeitam o mundo com seus sorrisos e molecagens?”.

Há tempos me sinto indignada por isso, confesso! Mas fui capaz de ressignificar esta sensação refletindo mais profundamente sobre esta tamanha incoerência. Afinal, não faz mesmo o menor sentido que o mundo esteja sendo cruel com as crianças, não é mesmo? E foi por não acreditar nisso que eu consegui olhar para este momento como um presente para elas!

A verdade é que, nas escolas, muitas crianças já não podiam correr tão livres assim e, nas famílias, muitos já não tinham tempo para passear no parque. Andar descalço era mais motivo de briga pra não ficar resfriado do que um desfrute da tal liberdade infantil. Parece-me verdade que nós, adultos, estávamos matando a infância de um jeito pior do que o que este vírus tem nos “obrigado” a fazer. Esta “judiação” com as nossas crianças é só uma perspectiva de olhar – daquele ponto de vista com o qual já estávamos bastante acomodados.

Ao contrário de nós, as crianças querem sair de casa para expandirem seus mundos internos, para se perceberem e se desafiarem em outros contextos e relações. Nós, queremos sair para fugir de tudo aquilo que nos incomoda por dentro (dentro da gente e dentro de casa). Esta necessidade de expansão da criança é, portanto, inerente à infância. Experimentá-la faz parte do seu desenvolvimento psíquico e socioemocional saudável. Mas será que havia essa expansão antes, quando sair de casa era tão fácil? Receio que não, porque a correria do dia-a-dia nos fazia prender as crianças em jaulas invisíveis, como à frente da TV ou com limites muito rígidos ou, por outro lado (mas com mesmo efeito), com nossa negligência deixando fazer “o que se quer e como quer”. Jaulas invisíveis que pudessem nos oferecer um pinguinho de sossego ao chegar em casa depois de um dia estressante de trabalho.

As crianças já estavam presas, invisivelmente.

O que elas ganharam agora, é o presente de terem seus pais mais presentes e a chance de, a partir desse imenso incômodo que os adultos estão sentindo, acontecer um movimento que possa guiá-los em direção a mudanças reais e concretas para que, enfim, possam usufruir de tudo aquilo que de fato faz sentido nessa vida.

Juntos estamos redescobrindo o que faz sentido nessa vida (Foto: Getty Images)

A necessidade de expansão da criança pode ser experienciada mesmo que dentro de casa, até mesmo dentro de um abraço. Não tem parque mas pode ter uma horta, mesmo que num micro-apartamento. Uma mini-hortinha que ela possa cheirar e cuidar todo dia. Não tem coleguinhas mas tem varanda e, quase sempre, um prédio em frente com alguém para se trocar um “oi” ou um desenho ou um avião de papel, quem sabe! Para ver estas possibilidades, precisamos nos desgrudar do nosso antigo modo de funcionamento.

Nada substitui o ar livre, claro! Refiro-me às tantas outras possibilidades de EXPANDIR, mais delicadas e quase imperceptíveis, que precisamos resgatar para que, de fato, o ar livre possa ser curtido na sua máxima potência quando pudermos saboreá-lo novamente!

Agora, as crianças precisam se sentir livres para beijar e abraçar seus pais a qualquer momento, ainda que interrompa por meros segundos aquela reunião importante. Elas não querem fazer da sua casa uma bagunça completa. Só estão te implorando limites genuinamente mais saudáveis e respeitosos. Elas precisam que os adultos redescubram uma nova forma de “ser adulto” que inclua – e valide – a infância como ela é essencialmente. Este, sim, será um baita presente para elas!

Nesta semana, de 23 a 31 de maio estamos comemorando a 11ª Semana Mundial do Brincar, uma mobilização promovida pela “Aliança pela Infância”. Aproveite para ampliar as possibilidades brincantes da sua casa e cuide disso como uma maravilhosa oportunidade de curar os vínculos com seus filhos!

Acompanhe as ações pela #SemanaMundialDoBrincar2020

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