Amizade infantil pós-COVID-19. Terá mais ou menos sentido?

O mundo híbrido trouxe de volta mais vida às relações de afeto entre as crianças. Meninos e meninas estão retomando a rotina de criar vínculos de companheirismo na escola e na vizinhança. Crianças já estão estudando, conversando e brincando juntas. Com a rotina retomada, fica a dúvida: nada mudou ou tudo mudou?

Eu gostava de conhecer as famílias das crianças com quem meu filho e minha filha se aproximavam na infância. Era um requisito para que pudessem frequentar suas casas para passar a tarde brincando, dormir ou viajar. Muitas vezes, nós – meu marido e eu – descobríamos que já conhecíamos pessoas daquela família. Ou, ao contrário: a família era desconhecida, mas logo surgia uma afinidade farta e uma amizade também. E daí eram passeios e mais passeios nos finais de semana. Crianças juntas. Famílias juntas. Algumas dessas amizades permanecem até hoje.

Depois do tempo entre telas, a relação com amigos mudou para as crianças e os pais
Depois do tempo entre telas, a relação com amigos mudou para as crianças e os pais (Foto: Shutterstock)

Vínculos de afeto são uma força, sempre. Quanto mais o tempo passa, mais simbólico fica reencontrar ou conversar com alguém que nos conhece desde os seis, sete anos. São irmãos e irmãs de vida, irmandade que teve início com a previsibilidade do cotidiano.

O cotidiano é intimidade. Faz intimidade. Crianças que se encontram todo dia na escola, brincam na rua pela manhã, almoçam uma na casa da outra, conversam, observam-se, riem animadas por algo que é só delas. As amizades infantis têm relação direta com as rotinas – como do ano escolar.

Na pandemia, a rotina desapareceu. Os espaços de afeto ficaram confusos, e não apenas pela precariedade das informações sobre o novo coronavírus, o isolamento social e a volta ou não às aulas. Com isso, o afeto infantil deixou de ser exercitado, tornando-se mais abalável e inconsistente.

Amizades infantis são amadrinhadas pelas famílias. Que concordam ou não com a programação infantil. Crianças indo uma pra casa da outra com mil ideias de como se divertirem juntas. Essa rotina descompromissada mantinha esses enlaces funcionando bem. Ainda que na Covid-19 as famílias tenham se conhecido virtualmente, perdeu-se a naturalidade do sentir, tocar e perguntar.

Enquanto as crianças deixavam de conviver no presencial, suas famílias também foram se afastando ou nem chegaram a se aproximar. Perguntas novas surgiram, que talvez fiquem para sempre no mundo híbrido. Hoje, além de conhecer os valores e o cotidiano das famílias das crianças que se aproximam das nossas, queremos saber, por exemplo, se são mães e pais vacinados. E com quantas doses? Que vacinas tomaram? Usam máscara? De que tipo? As crianças usam máscara? Foram vacinadas? Como lavam as mãos? Quantas vezes lavam as mãos? Têm álcool em suas mochilas? De que tipo?

As perguntas mudaram. As famílias também. O mundo se embaralhou. A rotina se perdeu e terá que ser reconstruída em novas bases. Até o afeto, carente, pede atenção. Se existe algo que o mundo online não dá conta é nos oferecer a sensação de completude. Falta algo o tempo todo. Para quem educa e cria crianças a meta é recuperar a rotina de se exercitar no aconchego interfamiliar. Novas amizades entre famílias surgirão a partir do convívio das crianças? Como ficarão os vínculos infantis na fase pós-Covid-19? Tudo mudou? Ou nada mudou?

Toda criança precisa fazer e cultivar amizades na infância para seu desenvolvimento seguro, natural e não tóxico. Que as amizades infantis no pós-Covid-19 ganhem ainda mais força e sentido. Para isso, as famílias precisam ajudar.