Da carta ao podcast. Nas tragédias, a tecnologia salva. Salva?

Na pandemia, adquirimos o hábito inusitado de conectar luto às redes sociais. É graças ao prazer viciante dos streamings e de posts em redes sociais que recebemos consolo pela dor das mortes de avós, avôs, e demais pessoas próximas da família. Como as crianças percebem isso?

“Quer ser meu amigo?” pergunta Brendan Mackie em seu artigo na Real Life Magazine. Inspirei-me nele para escrever este texto. O historiador vem observando o que acontece com as relações familiares durante e após as grandes tragédias da humanidade, destacando o valor das tecnologias disponíveis à cada época.

(Foto: Shutterstock)

Segundo Mackie, por volta do século XIV, depois da Grande Fome e da Peste Negra, quase metade da população da Europa morreu, desestruturando o conceito de família e o senso de pertencimento inerente à ela. Com as relações familiares despedaçadas, houve uma busca desenfreada por novos núcleos afetivos. O objetivo era compartilhar com pessoas de fora interesses comuns, vida diária e emoções. Para isso, usaram uma tecnologia corriqueira: as cartas. Nascia, então, a amizade.

As cartas do século XIV são as redes sociais do século XXI. Com a média de 1000 a 2000 mil mortes por dia de Covid-19 no Brasil, estamos, a exemplo da população do século XVI, sem família. Com isso, alguns verbos caíram em desuso, como “visitar”. Que fim levou o bolo da vovó aos domingos?

O verbo “visitar” não é de movimento físico, e sim de afeto. “Visitar” demonstra apreço e vínculo. Crianças e adolescentes precisarão de ajuda para conjugá-lo livremente no mundo pós-Covid. As visitas de família hoje, quando ocorrem, geralmente são rápidas e tensas. O que era prazer e aconchego virou ansiedade e até incômodo. Mãe, pai, avó, tio, bisavô, sobrinha, filha, filho, todo mundo se policia, se julga e se teme. É mútuo o medo de alguém se contagiar com a Covid-19, ainda que parte do grupo já tenha se vacinado.

A Covid-19 atacou a saúde, a segurança, a paz e também o exercício da nossa intimidade em família. Como será que as crianças e adolescentes lidam com todas essas lacunas nas relações familiares? Naturalmente nos observam e registram o quanto recorremos à tecnologia para buscar, no mundo virtual, amizade e consolo psíquico.

É como se cada acesso a streamings, redes sociais ou aplicativos substituísse um contato “familiar” perdido, convertendo-se em uma nova amizade. As plataformas digitais se transformaram em um caminho seguro para que bisavós, tias, primos e netas conversem, celebrem aniversários ou saibam quem engordou ou emagreceu. É quando a tecnologia se exibe, interpondo-se, como ponte, entre as afetividades.

Na pandemia, temos perseguido o mundo digital, embora tenhamos a ilusão de que é ele que nos persegue. Tudo é online. À medida que o isolamento por Covid-19 se alonga, o apelo da virtualidade se fortalece. O online resolve tudo: da compra emergencial de alimento ao prazer de encontrar, a tempo e a hora, diversão, ensinamento, passatempo e aconselhamento – de celebridades. Apegamo-nos à temerária ideia de que pertencemos a uma eternamente disponível família global. Nela, reina a amizade virtual.

No pós-Covi-19, exercitaremos o amor presencial em família refazendo a legitimidade carinhosa entre mães, pais, filhas, filhos, avôs, avós, tias, cunhados e primos. Enfim, após meses de isolamento social, as crianças voltarão a tecer laços de prazer, aconchego, convívio e confiança com familiares que vivem em outras casas. Para elas será difícil. Nós temos recordações; a infância, não.

Vale tudo para impedir que a Covid-19 consolide a distância física como estrutural, e não apenas emergencial-temporal. Ninguém merece o amor familiar rápido, eufórico, previsível e raso oferecido pelo online. Era uma vez, a família.