De alma chorada. E lavada

Lágrimas são fiéis amigas do corpo. Tornam público que nele há um sentimento – de sofrimento ou não – autêntico. Servem para pedir e para oferecer ajuda. Inevitáveis e necessárias, têm sido tratadas com desprezo pelo mundo adulto. As crianças sabem que chorar é humano?

O ácido sulfínico, gás volátil que sai das cebolas, chega rapidamente aos olhos e provoca uma lágrima reflexa que dispensa interpretações. Há também os discretos líquidos basais – um tipo de lágrima – que existem para lubrificar os olhos. Até aí tudo bem.

O choro também é uma forma de comunicação e precisa ser respeitado (Foto: Shutterstock)

O que o mundo adulto não tolera são as lágrimas que vêm do choro emocional, transbordando pelos olhos, inchando o rosto e espalhando perplexidade em quem observa a cena. Embora as lágrimas de comoção íntima sejam naturais e bem-vindas como expressão e saúde humanas, “não chora” é uma das frases mais comuns dirigidas à infância.

Seres humanos são a única espécie que produz lágrimas emocionais, diz a ciência. Choramos sem querer ou querendo, por impulsos variados e ambíguos, para alívio de estresse e dores. As lágrimas emocionais são múltiplas até em sua diferenciada composição química: prolactina, manganês, serotonina, cortisol e adrenalina.

A origem delas é sempre um enigma. Enigma porque uma mesma pessoa pode chorar por estar comovida, sofrida ou extasiada, tudo ao mesmo tempo, por razões diferentes que nem ela consegue definir pra si.

Há estudos sobre as possíveis razões das lágrimas emocionais. A hipótese mais plausível, segundo o oftalmologista espanhol Juan Murube Del Castillo, da Universidade de Alcalá, em Madri, é que o choro tenha surgido antes da linguagem falada, como uma expressão mímica para comunicar dor.

“Por que o olho, motivado por uma emoção qualquer, produz uma secreção?”, pergunta o médico pesquisador, que responde: “O choro surgiu quando a humanidade já havia esgotado seus recursos faciais e movimentos musculares como levantar a sobrancelha ou morder os lábios para revelar estados anímicos de curiosidade, surpresa ou medo, entre outros. Precisava escolher uma nova expressão no rosto para dizer ao outro que sentia dor.” Surgiam as lágrimas emocionais. Leia mais aqui.

Com inputs diversos, nas lágrimas emocionais há um pouco de tudo: de lembranças a sonhos e planos de futuro. Junte-se ainda algo que acabou de acontecer no presente e que tocou aquela pessoa de modo inexplicável. A partir daí, como num tarô existencial, um sentimento se liga ao outro, que se liga ao outro e em segundos está formada uma rede de dimensões inimagináveis, misturando sensações, alegrias, dores, sustos e muito mais.

Talvez seja dessa incerteza sobre o que aquela pessoa sente, a ponto de verter lágrimas, que vem o desconforto para quem a observa. Quando as lágrimas são acompanhadas de soluços, então, quem aguenta? O que fazer com alguém assim ao seu lado? E se for uma criança?

Bebês chorando comovem muito na cultura ocidental. Ainda assim, o pranto ou a choradeira estão na lista das expressões emotivas que devem ser evitadas durante a vida.  Ao contrário do riso, que está sentado confortavelmente no alto da cadeia alimentar da comunicação humana.

Crianças crescem acreditando que o riso é bom. E o choro é mau. Melhor ficar perto de quem ri na escola, do que de quem chora. Mas como se sente uma menina mais introvertida que prefere chorar a falar de algo que a entristece? Ou um adolescente surdo, que se comunica apenas pela Libras num ambiente onde precisa contar algo que o machuca e não há intérpretes da Língua de sinais brasileira disponíveis ao seu redor? Como expressar sentimentos sem saber, ou poder, falar por qualquer razão?

Nas fotos, em qualquer tempo, rimos e sorrimos. E se alguma criança pedir para tirar foto chorando? Acabamos logo com essa “besteira” dela. Ou a foto fica pra depois. Ou ela fica de fora da foto se insistir em se expressar desse jeito. Ou a foto é feita assim mesmo e pra sempre será motivo de comentários sobre aquela criança, do quanto ela insistiu em chorar, e etc. Como se fosse preciso justificar eternamente algo tão “bizarro”: querer tirar foto chorando, e não rindo.

Há ainda as lágrimas produzidas por artistas no exercício da profissão e representação de uma personagem. Há pessoas que, sem estarem interpretando como profissionais da arte, se comportam como artistas e, por alguma razão, aceitável ou não no campo da moral, choram para comover, manipular, obter informação ou aceitação para uma ideia que defendem, um plano para conseguir algo. Daí talvez venha a expressão “lágrimas de crocodilo”, animais que derramam lágrimas após engolirem outro animal.

É ótimo que as emoções se misturem e desaguem no choro. Todo mundo sai fortalecido, quem chora e quem observa, atônito, ágil, compassivo ou prestativo, aquela situação. Bonito ver o sistema humano e social se exercitando e querendo se conectar. Ao derramar lágrimas, pedimos atenção para o que se passa conosco naquele instante. O choro comunica com precisão, para além das palavras e gestos, da alegria à tristeza, do desespero ao bem-estar.

Todo choro é comunicação. Toda lágrima é expressão. Pessoas que passam fome na rua sabem que, muitas vezes, só conseguem ser percebidas na força do seu desespero por comida, se choram. Muito.