Estigmas e prisões: todo mundo sente um pouco

O colapso da ginasta Simone Biles dói também nas famílias

Gostamos muito de show. As crianças rapidamente entendem e se habituam com pessoas adultas pedindo que repitam as palavras que acabaram de aprender, imitem animais, dancem e se exibam como prova maior de seu desenvolvimento. O deleite das famílias é justo. É mesmo lindo ver um corpo pequeno desabrochar em impressões, entendimentos, sentidos e expressões a cada dia. Haveria algum custo emocional para as crianças em participar desses shows improvisados?

A desistência de Simone Biles das Olimpíadas de Tóquio reforça a importância de cuidar da saúde mental (Foto: Shutterstock)

Provavelmente não, se tudo acontece na medida do bom senso e do afeto. Ao contrário, a criança pode gostar muito de mostrar suas gracinhas, não se incomodando nem com a quantidade nem com a intensidade dos pedidos. Ou seja, ela curte ser a razão de tanto entretenimento e das risadas calorosas que provoca. E, caso não goste, simplesmente não faz o que lhe pedem e isso também é percebido como um aspecto lúdico e emocionante do show: a independência infantil. Quem resiste?

O custo emocional vem ou aumenta quando o show passa a envolver mérito. Concursos e competições com premiações. Quanto mais a família torce e envolve outras pessoas à medida que o grande dia chega, aumenta a pressão sobre a criança. O entretenimento sai do familiar e vira social, público.

Os pódios falsificam a festa. Os elogios, presentes, medalhas, mídia e visibilidade nas redes sociais de algum modo também falseiam o prazer infantil, descaracterizando-o na sua essência e simplicidade. O estigma de ser alguém que vence é fenomenal! Mas é um estigma. Com o tempo, vencer por vencer parece cada vez mais natural e adequado. O ganho é tão visível que qualquer perda fica imperceptível. O máximo que se faz, como contraponto, é comentar o quanto a vida de atletas infantis e adolescentes é dura. E todo mundo concorda.

Como interromper esse ciclo que deixa tantas crianças “prisioneiras” do sucesso que fazem, do prazer e de tudo mais que proporcionam às suas famílias, escolas, clubes e times? Qual o custo emocional deste ciclo tão “sedutor e glamouroso” para alguém em fase de desenvolvimento?

Aí vem Simone Biles e escancara para o mundo o seu custo emocional. A maior estrela dos jogos de Tóquio, campeã americana de ginástica artística, decidiu em plena Olimpíada abandonar a final para cuidar de sua saúde mental. A atitude da ginasta incidiu fortemente na indústria de esportes de elite, nas empresas patrocinadoras, nos meios de comunicação e no seu público admirador. Mas, para além de tudo isso, mandou um recado para todas as famílias: socorro.

Nos exames de rotina durante a vida, e a partir principalmente da meia idade, a medicina confere tudo que se refere ao corpo, solicitando exames de coração, vísceras e órgãos sexuais, mesmo que estes não estejam dando qualquer sinal de falência. Mas, frequentemente, esquecem-se de avaliar o intelecto, o encéfalo e o psiquismo. Parece-me, então, que o despreparo das pessoas adultas em observar e proteger o funcionamento e a saúde mental delas e de quem cuidam, crianças e adolescentes, é cultural. Certamente existem muitos outros exemplos.

Quando alguém grita socorro está em sofrimento e pânico. No caso de Simone Biles, imaginemos o amplo impacto de sua rendição, como solução para a sua dor. Abandonou a pressão e o estresse e decidiu cuidar de sua saúde mental provocando irrecuperáveis perdas para uma rede complexa que se beneficiava de seu êxito. Simone já devia estar gritando por ajuda há muito tempo. Acumulava danos, agravos e riscos sabe-se lá desde quando.  Não há relatos do quanto a sua dor era ouvida e cuidada. A nós, que observamos de longe este fato, épico, cabe constatar que o sucesso e a vitória têm um custo. E viciam.