Por que mesmo as crianças vão para a escola?

Famílias ingênuas acreditam que é para estudar. E assim desconsideram o valor e o sentido das salas de aula

“Para ter uma profissão”; “para entrar na faculdade”; “para aprender matemática, física e português”. Tudo isso pode ser verdade, mas é muito pouco se quantificarmos quantas horas de um dia – e quanto tempo de uma vida – é totalmente dedicado à escola e às suas tarefas em casa. Por que razão as crianças vão pra escola? Para estudar – esta é uma resposta bastante precária. Tão rasa quanto acreditar que bebemos água porque temos sede.

Há muito mais para aprender na escola do que a grade curricular (Foto: Getty Images)

Escola é o espaço onde as gerações se encontram, se entendem e se reconhecem como parte de uma geração indivisível, única e temporal. É na escola que crianças e adolescentes de idade próxima desenvolvem e testam a técnica, a intuição, a sensibilidade, a criatividade, a flexibilidade e a arte de formar, entre si, parcerias indispensáveis para o futuro da nação. Quem não vai para a escola fica fora da memória afetiva de sua geração, e pra sempre.

Sou contra a prática do homeschooling, claro! Desejo que toda criança se perceba empática e sinapticamente enredada às demais crianças, cúmplices pelo simples fato de terem nascido na mesma época; morarem naquele bairro ou passarem juntas pela pandemia da Covid-19, entre outras similitudes. Embora ainda não alcancemos que tipo de marcas o isolamento social e o sofrimento generalizado irão deixar para quem está na infância e adolescência, é certo que impactarão fortemente quem está em fases tão sensíveis de desenvolvimento.

Na escola, nem tudo são – nem serão – flores. Natural que seja assim. Dói para a criança, em alguma medida, construir a sua autoestima social. Mais ainda se, até então, seu único espaço de interação era com a família em um lar cuidador, protetor e amoroso, como idealmente todos deveriam ser. A formação da autoestima social envolve riscos, desafios, descobertas e experiências – pro “bem” e pro “mal”.

Qual será a sensação que uma criança tem ao ficar tantas horas com pessoas de corpos tão vulneráveis e pequenos como o dela? Deve ser de muita emoção e felicidade, mesmo que envolva disputa de atenção e brinquedos. Mas no decorrer da vida a gente se esquece de tudo isso que viveu e sentiu. Documentado eternamente só ficam mesmo o currículo escolar, notas e conceitos. Boletins com avaliações que depois serão motivo de orgulho, frustração ou piada. É nossa autoestima social sendo moldada a partir da avaliação das pessoas de corpos grandes que cuidavam de nós naquele espaço.

Cada pessoa adulta é responsável pela escola que temos no Brasil, e também por transformá-la em algo menos excludente sob qualquer perspectiva: a educação inclusiva. Conversar sobre qual o motivo das crianças irem para a escola deveria ser assunto de almoço aos domingos, de conversa de bar, tema de interesse público para qualquer idade. Daí, amadurecendo reflexões e desenvolvendo uma visão mais crítica sobre o sentido e o valor de se frequentar diariamente uma sala de aula desde a infância, e por toda a vida, imagino que teríamos na ponta da língua respostas mais consistentes, livres de jargões e pieguismos. Ao contrário, é comum que as famílias comecem a pensar sobre educação e, principalmente, educação inclusiva, “no susto”, sob ameaças, urgências e necessidades pessoais. Tudo sem terem acumulado conteúdo crítico que dê conta da complexidade da demanda.

Podemos até argumentar que nosso desinteresse vem da rotina doméstica e laboral estafante – e do trabalho que dá sobreviver e manter a saúde da prole em dia. Mas não é por isso que somos tão naives quando se trata de conversar sobre a vida escolar. Falta veracidade nesta argumentação. A história é outra: preferimos seguir no automático, como se ir para a creche ou a escola fosse uma decorrência natural – quase biológica – na vida de alguém que acabou de nascer. Assim como andar vem depois de engatinhar. Mas não é. Existe um futuro individual e cidadão a ser pensado e decidido.

E voltando à química, à história, à geografia, às provas, às notas e à literatura… Ah, sim. Isso a escola oferece – também.