A ignorância é um lugar perigoso para as nossas crianças pretas

Identificar, acolher e reafirmar quem seu filho é hoje, faz com que ele tenha confiança de ser ele mesmo amanhã

**Texto por Joyce Salvador, 28 anos, moradora de Duque de Caxias – RJ, mãe solo de duas crias, Ágatha, de 8 anos e Akim, de 2 anos. Modelo fotográfica, criadora de conteúdo e coescritora do livro “Mães Pretas – Maternidade Solo e Dororidade”

Informação é essencial na luta antirracista
Informação é essencial na luta antirracista (Foto: iStock)

Um fenômeno que já foi foco de experimento social, é uma dinâmica em que perguntam para um número de pessoas brancas se elas já foram racistas, e a maioria das pessoas, ou todas, dizem que “não, nunca foram racistas”. Então perguntam para um número de pessoas negras se elas já sofreram racismo, e a maioria das pessoas, ou todas, dizem que sim. Essa é uma conta que não fecha. Mas por que isso acontece?

É bem simples, vivemos em um país que não racializa os brancos, que ignora o passado escravocrata e as heranças escravagista, que acredita em meritocracia e não debate sobre racismo naturalmente; nós só falamos de racismo em último caso. Precisa sempre ocorrer um caso de extrema violência, em que famosos se manifestem. Então… “aí sim, vamos falar sobre!”. Nós precisamos cada vez mais dialogar sobre questões raciais, principalmente com nossos filhos, desde a primeira infância.

Eu sempre digo que a ignorância é um lugar perigoso para as nossas crianças pretas. Se nós (responsáveis) não ensinarmos aos nossos filhos, com orgulho, que eles são negros, o mundo lá fora ensina de uma forma pejorativa. Com Ágatha (minha primeira filha) eu não tive essa oportunidade, pois me roubaram a vez. O racismo chegou mais cedo do que eu esperava! Quando minha filha tinha 1 ano e 8 meses eu fui pentear seus cabelos e ela disse: “Não, mamãe, meu cabelo é ‘dulo’!”.

Na hora eu perdi meu chão, pois vivia em uma utopia e acreditava que por ela ainda ser uma bebezinha, estaria à salvo do racismo de forma direta. Ledo engano. Mas foi a partir dessa injúria racial que eu tomei para mim a responsabilidade de educar e conscientizar não só a minha filha, mas outras pessoas sobre a relevância e a urgência desse assunto. Entretanto, conscientizar minha filha não impediu que ela fosse vítima de mais um episódio de racismo direto e violento: aos 4 anos Ágatha teve os cabelos crespos cortados sem a minha autorização, por uma tia paterna.

Esse foi o golpe mais forte que eu já senti em toda a minha vida. A tia tentou alegar que era “pra ficar bonito” e a todo tempo repetia que “não, ela não era racista”. Foi naquele momento que compreendi que precisamos desmistificar o racista e não só o racismo. O racismo estrutural é algo que teoricamente está fora do nosso controle, então as pessoas simplesmente seguem levando a vida com o pensamento de que “foi assim a vida toda, isso é assim desde que o mundo é mundo…”. Esses pensamentos minam nossas ações quando nos deparamos com uma situação de injúria racial, por exemplo.

Eu precisei mudar minha postura depois desse episódio, e assim mudei também a educação que dou para a minha filha. Eu vi na prática essa mudança. Aos 6 anos, Ágatha mudou de escola, assim que ela chegou outras colegas começaram a fazer bullying com ela, até que uma disparou: “Sua feia do cabelo duro”. Ágatha tentou contar para a professora, mas ela simplesmente não fez nada. E dados apontam esse tratamento diferenciado dos educadores para as crianças negras.

Assim que fui pegar minha filha na escola ela já veio e me abraçou apertado, dizendo: “Eu sofri racismo mamãe!”. Já em casa, Ágatha me contou tudo e nós choramos abraçadas. Pela primeira vez eu me permiti sofrer e mostrar a minha vulnerabilidade para a minha filha, abandonei a armadura de “mãe preta forte e que carrega o mundo nas costas” e me deparei com a Joyce menina preta que passou pelo mesmo na época de escola. No dia seguinte, levei Ágatha na escola, esperei passar o tumulto do horário de entrada das crianças e me dirigi até a secretaria. Quando entrei encontrei uma cena inesperada: Ágatha e as coleguinhas conversando com a orientadora e logo em seguida se abraçando, um abraço sincero como só as crianças são capazes de dar.

A orientadora teve uma escuta acolhedora, e me propôs que fizéssemos algo junto à escola. Eu recorri a minha rede de apoio virtual no Instagram e na outra semana já estávamos fazendo uma oficina na escola de Ágatha (escola pública, onde a maioria dos alunos são negros e que ainda assim reproduzem falas racistas). O Estêvão Ribeiro, autor da @renatatinta, levou vários livros e era nítido o poder que a literatura infantil tem de educar e conscientizar as crianças. Os livros têm a didática e as ilustrações ideais para dialogar, e trazer entendimento para os nosso pequenos. Hoje me orgulho de ser embaixadora do @clubinhopreto, que é um clube de assinatura que oferece conteúdo educativo e de cultura antirracista para crianças. Eu acredito fielmente que a educação antirracista é uma forte ferramenta para um futuro melhor, precisamos educar as crianças da forma mais igualitária possível, pra quem sabe assim trazer equidade para as próximas gerações.