A jornada do autoconhecimento é a jornada do amor!

É sobre tecer ancestralidade, amor preto e o retorno pro nosso próprio templo

**Texto por Luana Thalita Rodrigues de Souza, mãe de Lauryn e Naomi, paulistana, de 37 anos, Rapper/Mestra de cerimônia, produtora cultural, educadora social e atuante em medidas socioeducativas e espaços de privação de liberdade e direitos

É necessário honrar a nossa ancestralidade e história (Foto: Shutterstock)

É sobre gratidão, é sobre contar e honrar sua própria história. Quando penso em família, gosto de fechar os olhos, e daria um filme tipo “Nego Drama”, de “Racionais MC’S “Uma mulher negra e uma criança nos braços” ou uma leve leitura de “Conceição Evaristo”, me invadindo e me fazendo gritar, são escrevivêcias minhas, escrevivêcias pretas que é honra para mim contar.

Trecho da música: “Cabelo crespo, A pele escura. A ferida, a chaga, à procura da cura. Nego drama tenta ver e não vê nada. A não ser uma estrela longe, meio ofuscada. Sente o drama, o preço, a cobrança. No amor, no ódio, a insana vingança. Nego drama, eu sei quem trama e quem tá comigo. O trauma que eu carrego  Pra não ser mais um preto f***. O drama da cadeia e favela. Túmulo, sangue, sirene, choros e velas. Passageiro do Brasil, São Paulo, agonia. Que sobrevivem em meio às honras e covardias. Periferias, vielas, cortiços você deve estar pensando: o que você tem haver com isso?”.

É como diz o álbum “Nada como dia após o outro dia”, do ano 2002. E, na verdade, é como tem sido a vida do negro no Brasil, um dia após o outro e com muitos desafios pertencentes ao meu povo. No ano do lançamento deste álbum, estava de frente a um dos maiores desafios da minha vida, bom “QUEM NÃO LUTA TÁ MORTO”, estava morando na maior ocupação da América Latina, na Ocupação Prestes Maia. Luz, Centro, SP.

Fazendo parte do grupo de luta chamado, FLM (coletivo formado por representantes de movimentos sociais autônomos, cujo objetivo é a reforma urbana e um desenvolvimento urbano mais justo), lutando por direito à cidade, e direito à moradia! E sabem o que vocês tem a ver com isso?

É uma sociedade onde nós, negros, somos 54% da população e também trata-se de uma sociedade extremamente preconceituosa, machista, misógina, homofóbica, racista, transfóbica e que de alguma forma as pessoas estão atreladas, entrelaçadas numa trama de racismo estrutural que faz com que as atitudes preconceituosas sejam tidas como normais.

Estou desde sempre ressignificando e desenhando outra história, buscando conhecimento e trazendo pro meu profundo, das minhas filhas, da minha família, e reexistindo através da arte. O mediador dos meus passos foi a cultura hip hop, pra ser mais clara, o elemento rap, a música, a voz dessa cultura.

“Os Nossos têm voz, Nossos mortos têm voz”, “Por Memória x Verdade, Justiça e Liberdade”, tem de ser assim como grito, e esse vem da voz de uma das mulheres que mais admiro e mais potentes do Brasil, Débora Maria – Mov. Mães de Maio.

O movimento Hip Hop é a consciência de uma década, é muito mais que importante, chegou a lugares que até mesmo nosso Estado nunca chegará. Gerou e gera importantes reflexões, despertando e destravando mentes. Nasceu e fluiu aqui no Brasil na década de 80. E retrata pessoas como eu, vindas de lugares como os de onde vim, cresci, guerreei, todos os dias foram aprendizados e tenho muito orgulho!

Isso me despertou fome, fome de conhecimento. E lhes compartilho essa leitura. Trecho do Diário de Carolina Maria de Jesus “Quarto de despejo”: “Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou aos meus olhos”. A comida no estômago é como combustível nas máquinas.  Passei a trabalhar mais depressa. Meu corpo deixou de pesar. Eu tinha a impressão que eu deslizava no espaço. Comecei a sorrir como se eu estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida. É quatro horas. Eu já fiz almoço, hoje foi almoço. Tinha arroz, feijão e reponho e linguiça. Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguém. Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão, o alimento que não está no alcance do favelado, fico sorrindo atoa. Como se eu estivesse assistindo um espetáculo deslumbrante. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!”.

Conhecimento é a chave. Amei conhecer às palavra como Eliane Dias – Mulher Negra, mãe, empresária, advogada, sonhadora e ativista em defensora dos direitos negros. E beber dessa fonte, comer, ouvir, sentir, entender, criar meios de diálogos, reflexões de fato foi e é libertador, desafiador e muito precioso todos os dias.

A Pedagogia, a leitura, o saber, a educação, transforma, transborda, vem me preenchendo, e nos preenche, sermos conhecedores da nossa história Negra é sermos sábios! Sabemos como foi a questão do apagamento, do silenciamento, do genocídio de toda voz negra, como diz nosso grande poeta periférico Sérgio Vaz, “O ESTUDO é ESCUDO”.

Outro dia recebi um abraço, foi tão apertado, tão cheio de vida, tão cheio de amor, tão cheio de informações e conhecimento. Era em forma de livro e ele se chamava, “Ninguém solta a mão de ninguém – Manifesto afetivo de resistência e pelas liberdades”, lançado pela Editora Clarabóia e organizado pela linda Tainã Bispo. Um dos presentes mais lindos que já ganhei. E gratidão por abraçarem nossa luta num momento tão delicado, por adentrarem nosso lar com todo amor.

Bom, confesso, estou fazendo as pazes com os livros novamente, e sentir esse abraço me trouxe à mente cura e consciência que silêncio não mais, precisamos juntos todos criar “estratégias de combate”, como relata não só a música da rapper Tati Botelho, como também aborda o livro “Na linha tênue”, experiências de arte educação em privação de liberdade. Através da cultura, do afeto alcançaremos a transformação, precisamos ser essa rede de apoio para nossos.

O racismo trouxe lágrimas a minha família, por diversas vezes, por motivos que preciso desconstruir e vou através do conhecimento a cada minuto, porque a vida é do luto à luta sempre! Sou grata demais a esse livro que me trouxe presentes como “Poema pra aquecer”, de Bell Puã, com ela aprendi que a palavra é mamífera, característica de seres tão intensamente sociais. A palavra é um artifício de comunicação, saber ser, tem a vantagem de compreender-se cidadão do mundo sempre.

Me trouxe também o texto “Em carne viva”, Débora Noal, amo ler essa mulher, que me instiga a questionamentos e reflexões, alguns deles são: qual tipo de pobreza nos permite subtrair os direitos de alguém? Por que a pobreza da empatia, da solidariedade e do bom senso nunca foram contabilizados? Então, como fazer com que essa porção de nós, que padecemos de pobreza na prática, seja arrancada do nosso “para sempre”?

Me reconectando com o todo, magiando na leitura que mais me pareceu um sopro de vida, o abraço mais apertado, aqueles que nos despertam algo, aqueles que nos fazem chorar, porém de alívio, de conforto de saber que juntas somos mais fortes, foi assim nosso encontro – texto chamado “Sigamos”, de Anielle Franco. Começamos emblematicamente com um trecho da nossa escritora maravilhosa Conceição Evaristo: “Eles combinaram de nos matar. E nós de não morrer”.

Meus sentimentos Anielle. Sim, nos deparamos com tempos difíceis, cruéis, sombrios são os tempos atuais. Qual nossa primeira reação? Você seguraria a mão de alguém que não conhece ou nunca viu? Até que ponto essa frase faz sentido na sua vida? Você me faz refletir mulher, me questionar, questionar os meus, me olhar no espelho, me permitir mais uma vez, não é fácil! Nunca será!

Quem está do nosso lado de verdade e quem está por oportunismo? Também me fiz essa pergunta, refiz, chorei, gritei, emagreci, perdi cabelo, tive diversas crises. Estamos a quase 800 dias sem resposta! Nesse nosso processo familiar de resiliência e amor preto. Quem matou Luciano? Quem matou Marielle e Anderson? Mataram meu sobrinho. Filho de Sarah, minha terceira irmã mais velha, que dor, que sensações são essas? Que o genocídio não nos cale e, sim, nos una. Pois, somos sementes, plantadas em África e adubadas com nossos sonhos. Regados de afagos, afetos e empatia.

E você, leitor(a), já perdeu alguém querido por conta de alguma forma de preconceito? Que Oxalá cubra com seu manto a todos no cárcere e que proteja seus familiares. E conforte o coração de todas as famílias que perderam seu reis e rainhas, príncipes e princesas, seus entes queridos, por consequência do covid-19 e por conta desse genocídio. E como nos diz Abdias do Nascimento “Honrar um sangue derramado é honrar a vida e a história de uma pessoa”.

Trecho da música “Mulheres Negras”, letra escrita pelo rapper Eduardo Taddeo, interpretada pela maravilhosa também atuante no rap nacional Yzalú. “Enquanto o couro do chicote cortava a carne. A dor metabolizada fortificava o caráter. A colônia produziu muito mais que cativos. Fez heroínas que pra não gerar escravos, matavam os filhos. Não fomos vencidas pela anulação social. Sobrevivemos à ausência na novela, e no comercial. O sistema pode até me transformar em empregada. Mas não pode me fazer raciocinar como criada. Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo. As negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo. Lutam pra reverter o processo de aniquilação. Que encarcera afrodescendentes em cubículos na prisão”.

É sobre existir, reexistir, se reencontrar, é sobre esse retorno, esse processo de volta pra casa. Pois quando adquirimos conhecimentos, quando buscamos ser conhecedores dos nossos passos, dos passos de quem veio antes de nós, é reafirmar nossos valores.