A luta antirracista precisa estar em todos os lugares

A sociedade nos faz pensar que precisamos escolher lados, porém somos múltiplos

**Texto por Katia Nunes, Gastróloga, estudante de psicanálise, membro do @projetoagostinhas (projeto de mulheres cristãs e negras para fomentar a discussão e o combate ao racismo sob a luz do Evangelho), mãe de Arthur, 11 anos, e Nina, 7 anos

O preconceito racial é assunto de todos e necessita ser levantado em todas as áreas
O preconceito racial é assunto de todos e necessita ser levantado em todas as áreas (Foto: Getty Images)

Criar filhos negros em algumas comunidades cristãs que têm demonstrado pouco afeto ou nenhum tipo de demonstração de amor aos diferentes é um grande desafio. Cresci em um ambiente eclesiástico cristão evangélico racista e preconceituoso, o que sempre me fez pensar sobre a real motivação de muitos líderes religiosos, entretanto apesar de muitas barreiras e questionamentos desde a minha infância, eu tinha certeza dos verdadeiros ensinamentos de Jesus, não aquele que muitos erroneamente divulgavam, mas um mestre que tantos outros com suas atitudes se pareciam.

É importante salientar que a luta antirracista é uma pauta muita valiosa para alguns movimentos a qual a religião muitas vezes rejeita e que muitos movimentos igualmente rejeitam a religião. Vivi então por muitos anos neste dualismo, em falar sobre racismo e sobre a minha fé.

Desde muito pequena eu tinha um sonho, “quando eu tiver minha família, vou ensinar aos meus filhos que além do racismo ser crime ele também é pecado a ser combatido”. Decidimos como pais de dois filhos pretos que não negociaríamos escolher apenas um lado, decidimos seguir nossa fé e a importante causa que nos representa.

Inspirados por palavras do pastor batista Martin Luther King, determinamos que ensinaríamos nossos filhos sobre igualdade, respeito de maneira reconciliadora. “Eu tenho um sonho” se tornou o guia e o alvo, pois lamentavelmente o brilhante discurso de 1963 ainda não é realidade, mas nossa família decidiu não parar de tentar.

De forma prática em nossa casa, dispomos a verdade sem maquiagem para os nossos filhos, mostramos concepções para desconstruir formas de pensar e agir que foram naturalizadas. Estimulamos a se reconhecerem em uma religião que se tornou eurocentrada e clareada. Desde a alfabetização temos um compromisso com o letramento racial, apresentamos de maneira intencional autores e autoras negras, homens e mulheres negros que se destacam em suas áreas intelectuais, proporcionando oportunidades de se afirmarem.

Hoje em uma sociedade polarizada onde deram lugar a um fundamentalismo religioso, infelizmente irmãos de fé simplesmente se esqueceram dos preceitos de Jesus, nos sentimos por muitas vezes acuados para o silenciamento, mas não deixaremos de construir pontes para que meus filhos e os filhos de outros se reconheçam e resistam em todas as esferas sejam elas públicas ou religiosas e que em um futuro próximo se manifestem a favor do respeito e nunca aceitem demonização de sua cor e cultura.

Fico com as palavras do norte africano Santo Agostinho: “Se tiveres amor enraizado em ti, nada senão o amor serão os teus frutos”. Fomentar uma discussão antirracista em todos os ambientes, como cristão, para crianças é um enorme desafio, mas resistiremos e seremos reconhecidos pelo amor.