A saúde mental das famílias pretas e atípicas

Como o racismo estrutural afeta de forma maçante a vida de pessoas com deficiência e suas famílias no Brasil

**Texto por Mirian Ribeiro, de 26 anos, mãe de Miguel, um menino de 6 anos que está no espectro autista. No momento não trabalha fora. Escreve, e é ativista pelos direitos das pessoas com deficiência, atuante na luta antirracista e anti-capacitista. Oficineira nas horas vagas, administradora do IG @vivendo_tea, onde mostro minha realidade com minha criança autista, ensino a fazer atividades com sucata e conecto famílias.

Crianças atípicas merecem respeito
Crianças atípicas merecem respeito (Foto: Arquivo Pessoal)

O que é o racismo estrutural? “Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o fato de que existem sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras. No Brasil, nos outros países americanos e nos europeus, essa distinção favorece os brancos e desfavorece negros e indígenas”.

Isso no Brasil deu tão “certo” que fomos o último país a abolir a escravidão –  abolição essa que de fato aconteceu só no papel. Negros foram deixados à mercê, sem reparo, suporte e perspectiva. E os impactos disso são sentidos até hoje, em um país onde a maioria da população é negra, mas quase 100% dos ocupantes de cargos de poder são brancos. Estudos estatísticos do IPEA mostram que entre os brasileiros que chegaram ao nível superior de ensino, os negros estão 20 anos atrasados em relação aos brancos.

Como criar leis eficazes para nós, pessoas pretas, quando sequer temos a chance de chegar tão longe? E como chegar lá quando esses patamares, em grande maioria, são reservados para pessoas que jamais vivenciaram ou pouco compreendem nossas mazelas? E, em uma perspectiva além da raça, temos relatos como aqueles descritos no livro “holocausto brasileiro”, do qual gosto muito, sobre o genocídio de 60 mil pacientes em um hospício do Brasil – uma tragédia recente, que ainda deixa marcas e relatos assombrosos de vitimas sobreviventes desses hospitais (conhecidos também como casas da morte ou inferno na terra).

Pessoas como meu filho (uma criança preta), com alguma deficiência, eram vistas como indesejáveis, retiradas dos olhos da sociedade e descartadas nesses lugares que nada mais eram que depósito de gente. Não existia assistência terapêutica ou médica adequada, nem o básico, como água limpa e comida; a vida passava da pior forma possível e, quando morriam, seus corpos eram vendidos para faculdades de forma ilegal, como peças, objetos sem valor – nem na morte recebiam tratamento digno e respeito.

Muitos brasileiros ficam chocados com os horrores de Auschwitz, mas ignoram os horrores dos hospitais psiquiátricos do interior do Brasil. A saúde mental, em 2022, ainda é artigo de luxo. Os “loucos” são descartados, desassistidos, deixados à mercê, nas ruas, legítimos  fantasmas que ilustram as paisagens das grandes metrópoles. Ser deficiente e ter casa e família, no Brasil, é privilégio.

O racismo estrutural age para que o opressor nunca perca os privilégios, e o oprimido não saia da condição que está – e isso é, também, um fenômeno recorrente no âmbito da atenção e acolhimento de pessoas com transtornos mentais ou outros tipos de deficiência. Pessoas pretas com deficiência estão amplamente desassistidas – como por exemplo meu filho: o fato de ter um diagnóstico já é digno de nota (muitas crianças pretas não são diagnosticadas adequadamente); conseguido o diagnóstico, na base de muita pesquisa, insistência e luta, veio a parte mais complexa: conseguir os tratamentos e acompanhamentos necessários.

A maternidade atípica não precisa de pena, mas inclusão
A maternidade atípica não precisa de pena, mas inclusão (Foto: Arquivo Pessoal)

Enquanto eu juntava moedas para saber se chegaria até a terapia uma vez na semana, pessoas privilegiadas tinham suporte e tratamento até fora do país. O diagnóstico de autismo não era suficiente para fazer com que meu filho se igualasse dentro dessas minorias, a condição de criança preta e periférica fazia com que ele se assemelhasse a crianças mais privilegiadas no CID e nada a mais. Com 30 minutos apenas de terapia, surgiu um talento que até então eu não sabia que tinha, foi do lixo, nos materiais recicláveis que tirei os matérias para ajudar a minha criança, foi os materiais recicláveis que fez com que a falta do estado em seu desenvolvimento não fosse sentida de forma tão maçante. A saúde mental é subestimada no Brasil, terapias e cuidados psicológicos ainda são associados a necessidades de pessoas brancas e afortunadas. O pobre se quer tem o direito de sofrer da “alma”, a saúde mental das mazelas é ignorada, ignorada por você na rua que troca de calçada, que chama de bêbado ou drogado o preto em situação de rua, ignorado pelos governantes que acham que “hospícios” são a solução, bem como pessoas que chamam mães como eu de “mãezinha abençoada” , e afirmam que eu “nasci para isso”.

Ao tratar desse modo uma mãe atípica, principalmente uma atravessada pelo viés de raça e classe, você tira o direito dessa mulher o direito de chorar, de reclamar, sentir fraqueza e pedir ajuda. A negligência da saúde mental dos mais pobres, é resultado de um racismo estrutural, que nos tira direitos básicos e reduz a nossa existência a soluções rápidas e assistencialistas, mas não eficazes e duradouras. Combater o racismo e olhar a saúde mental da classe mais pobre é fazer com que “holocaustos brasileiros” não se repitam nunca mais.