Ainda sou coadjuvante? O papel do pai na criação dos filhos

Como a paternidade confronta o meu protagonismo social masculino

**Texto por Ronan Lima, pai da Alice. Pastor, mestrando em Teologia e co-fundador do projeto coletivo O Que Tem No Brasil

O homem é sempre cobrado para ter uma resposta na ponta da língua, mas o nascimento dos filhos questiona essa visão (Foto: Shutterstock)

Sabe, eu gosto muito de escrever. Entendo a escrita como arte que coloca as palavras para dançar em uma harmonia única, entregando uma mensagem que somente aquela pessoa consegue passar daquele jeitinho, porém o meu gosto pela escrita tem encontrado um bloqueio corriqueiro quando o assunto é paternidade. Por que será?

Talvez esse bloqueio esteja escondendo algumas coisas que precisam vir à tona nessa caminhada. Quando minha filha tinha 16 dias de nascida, fiz um texto sobre paternidade real para o site do Coletivo Obirin — plataforma que possui textos sobre inúmeros assuntos, escritos por pessoas negras. Revisitei esse texto para perceber o quanto minha visão sobre a paternidade se modificou. Será que tudo muda em 6 meses?

Minha relação com a minha filha muda a cada dia. Há dias de muita alegria, o amor supera o cansaço, as risadas espontâneas superam os choros fortes bem no pé do nosso ouvido. Porém também há dias de esgotamento, irritação e aquela sensação de impotência. Como pode um ser tão pequeno tirar tantas emoções da gente? Como conseguimos aprender tanta coisa em pouco tempo?

Filhos mexem com as nossas estruturas, não é mesmo? Para quem tem algumas estruturas abaladas fica ainda mais sensível nessa situação de paternidade. Historicamente, nós, homens, somos socialmente empurrados ao lugar da resolução, devemos ser sempre protagonistas. Sempre ter a resposta, mesmo sem pergunta, sempre estar firmes na posição que ocupamos, sempre temos que trazer algo. Nunca podemos não ter, e isso acaba com o nosso psicológico.

O protagonismo da figura masculina cai por terra quando a criança nasce. Meses se passaram e eu ainda me pergunto se sou coadjuvante nessa história. Respondo-me que sim. A partir dos 3 meses, iniciou-se uma independência natural da nossa filha, porém a ligação mãe-filha ainda é forte e fundamental para o desenvolvimento da criança. A triangulação da relação começou a ser percebida, mas nesse triângulo, eu ainda sou o terceiro; e preciso entender todos os dias que isso não tem a ver com competência, mas sim com processos.

Todas as emoções estão à flor da pele na vivência da paternidade. Tudo acontece ao mesmo tempo aqui dentro de casa e lá fora. O país continua em crise, ainda estamos em pandemia, certezas e espera quanto à vacina, gente preta continua morrendo. Crianças negras continuam morrendo. Agatha, Miguel, Emily Vitória, Maria Alice, Lucas, Alexandre, Fernando, a lista não para. O medo insiste em nos parar, mas a gente consegue prosseguir, pois nossos filhos são quem iluminam nossa jornada. Eles nos ajudam a resistir às adversidades e a trilhar caminhos diferentes rumo à vida, contrariando a lógica cotidiana.

De criação com apego a “vale night” de meia hora para fazer algo só eu e minha esposa, seguimos nos cuidando e priorizando nossa menina. Não é dependência, é parceira criada desde o berço. Não é criação egocêntrica, é entender o quanto a criança também é uma pessoa com vontades, desejos, medos e processos. E em cada nova etapa de desenvolvimento dela, sinto-me feliz e surpreso. Feliz por entender que toda fase tem seu fim e abre portas para um novo começo; surpreso porque crianças se resolvem melhor do que nós. Queria voltar a essa pureza e coragem, sabe (rs)…

Qual é o processo que te encara hoje? Que muro te impedem de viver todas as nuances da paternidade? Lembre-se que o bebê que está no seu colo, a criança que está ao seu lado em breve se tornará adolescente, jovem, adulto, idoso, fim do processo. Somos responsáveis por dar base a uma pequena pessoa a se desenvolver e se tornar uma grande pessoa brilhantemente saudável, de forma integral. Faz parte dessa responsabilidade sabermos o nosso lugar nas cenas diárias, e não tem problema não ser protagonista sempre.

Homens, não se pressionem tanto, não nos pressionemos tanto. Sorria, abrace, afague, desacelere. Bora curtir a paternidade com leveza e assertividade. Deixemos de ser máquinas de performance, pois também somos pessoas.

OBS: assim como o primeiro texto que citei, só consegui finalizar essas palavras com a minha filha dormindo no meu colo.