Casais interraciais e a importância de falar sobre colorismo

Trocadilho com o dito popular “filho de peixe, peixinho é”?

**Texto por Douglas J.P. Almeida, assistente administrativo, criador do perfil @soupaidomeufilho sobre aprendizados e momentos em família, pai de João Henrique

Não mais espaço para o racismo em pleno século XXI (Foto: Thinkstock)

“Filho de preto, pretinho é”. Nossa Douglas, mas que trocadilho pesado. Se já estiver pensando em me “cancelar” de imediato, ESPERA. O texto vai te trazer muito mais dúvidas. Quando me convidaram para escrever fiquei pensando em respostas, mas convenhamos, nossas vidas são pautadas por questionamentos, correto?! De onde viemos, para onde vamos, coisas afins… Portanto esse texto trás alguns questionamentos importantes para o cenário da paternidade, maternidade negra e não negra.

O tema do racismo no Brasil segue emblemático e curiosamente simplificado. Mas já pararam pra pensar que nós não temos preconceito quanto à casais interraciais? Sério! A não ser aqueles casos de famílias brancas tradicionais do interior do Brasil que são filhos de netos de “colonizadores”, onde o rapaz negro decide se apaixonar pela filha loira de olhos claros da família. Tirando esses casos, eu considero que o Brasil não é preconceituosos sistematicamente quanto à união desses casais. Isso é confuso, pois consideramos que o nosso seja mega racista, pois bem, ou este preconceito é MUITO velado ou o fato de existirem bastantes casais nesse “formato” aqui faça com que o preconceito acabe se esvaindo. Não acham?

Minha mulher é filha de preto, com uma mulher branca descente de italiano. O pai dela é da minha cor (preto) e a mãe dela tem olhos claros, contudo ela tem fortes traços negros como lábios carnudos, nariz, cabelo cacheado e quadril avantajado. Fui chamado de palmiteiro ao comentar que ela é branca, por que de fato é e se considera branca, quando comentei com certa pessoa que ela era filha de preto o diálogo mudou e a pessoa falou que minha esposa era mestiça.

Honestamente, no meu ponto de vista isso é totalmente irrelevante. A grande questão é: Nosso filho de 5 meses de vida, João Henrique, tem cabelo cacheado (não crespo), nariz e lábios carnudos, e é levemente mais escuro que minha esposa, porém muito mais claro que eu. Seria ele branco? Seria ele negro? Mas é possível um negro ter um filho branco? Sim, já ouvi essa última pergunta. O fato é que temos pouquíssima informação sobre colorismo, até pouco tempo – honestamente – eu mesmo tinha pouco conhecimento sobre esse tema.

Lugar de fala

A maior polêmica para quem pretende defender uma causa hoje é o tal lugar de fala, facilmente substituído por lugar de falha, considerado por muitos lugar de faça… Temo trazer certos pontos de vistas por parecer mimizento, contudo odeio esse termo mimi, assim como tenho receio de ser visto como militante de causa única e acabar limitado e desconectado do resto das opiniões do mundo.

A paternidade preta, é um nicho da paternidade que no final das contas é única, A PATERNIDADE. É óbvio que só um pai preto de filho preto vai saber o que passa, assim como minha própria esposa (branca) já passou com o pai (preto) dela situações constrangedoras de racismo para/com ele. Neste caso, o lugar de fala é de quem? De quem luta? De quem vive? Categoricamente eu afirmo. Não cabe a mim e a ninguém definir, questionar ou julgar quem uma pessoa decide amar, quem ou o que ela defende, menos ainda como ela se entende, se define.

Contudo, mesmo que muitos de nós negros, questionemos “mas tu nem é tão preto assim”, para os negros não retintos, ainda que o mundo desconheça o assunto “colorismo”, ainda que casais interraciais sofram olhares confusos, ainda assim eu pergunto… E aí! “Filho de preto, pretinho é?”.