Casamento inter-racial… Mãe de gêmeos também inter-raciais

A visão de uma mãe negra sobre a diversidade e preconceito, além da importância da educação antirracista para todos

**Texto por Georgia Miyazaki, Consultora de Imagem & Estilo, mãe de Anthony e Sophie, filha de Georgia e Charles

As referências familiares fazem toda a diferença na criação dos filhos
As referências familiares fazem toda a diferença na criação dos filhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Eu tenho certeza que as mães que lerem estas linhas concordarão  que a maternidade é uma espaçonave que nos leva há lugares inimagináveis! Mas acredito que como mãe destes gêmeos tão diferentes eu tenha avançado alguns Planetas.

Sou casada com um Sansei (terceira geração – neto de Japoneses) e que tem uma bisavó provavelmente de origem Cafuzo (mestiça de ascendência negra e indígena) e eu sou uma mulher negra de pais do Nordeste Brasileiro.

Então, como vocês podem perceber meus filhos SÃO REALMENTE BRASILEIROS porque mais mestiços e misturados impossível. Acontece que esteticamente nós conseguimos conceber uma menina negra e um menino branco (na classificação de olhos brasileiros, é claro, na Europa ele talvez fosse classificado como um Latino quase indefinido… kkkkkk). Sim, eu sou uma mãe muito bem humorada.

Educá-los dentro de uma sociedade preconceituosa e racista vai muito além dos elogios (sempre comentam como são lindos pelas diferenças). Existe um legado pesado para o qual eu tenho que  prepará-los. Meu marido apesar de Sansei possui a pele bem escura, já ganhou o apelido de japonego muitas vezes.

Meu pai que é negro vive conosco também. O Anthony tem adoração pelo avô (meu pai/que vive conosco), porque neste último ano (de pandemia) ele foi seu amigo de lutinhas então acha que ele é o homem mais forte deste mundo! Anthony também tem veneração pela irmã, eu realmente não sei se isso se dá pelo amor natural de irmãos ou se é por conta de ser gêmeo.

Infelizmente como filha única eu realmente não sei explicar – mas ele a defende e a preserva de todas as maneiras que pode. Ele é um menino que preza demais a família e sempre quer que todos estejam juntos no mesmo ambiente.

Um belo dia ele me perguntou: “Mãe por que a minha semente foi diferente? Por que você, a Sophie e o vovô são negros e eu não?”. A resposta foi longa para que ele pudesse entender que muitas  pessoas que ele também amava eram brancas e isso não faria diferença no que sentíamos.

Até este momento eu nunca tinha pensado na possibilidade do meu filho desejar ser negro por perceber que o núcleo familiar a sua volta era negro.

Criar filhos gêmeos inter-raciais traz um novo olhar para o tema racismo
Criar filhos gêmeos inter-raciais traz um novo olhar para o tema racismo (Foto: Arquivo Pessoal)

A Sophie é uma menina forte, independente, dona de suas vontades e que percebe sua diferença das amigas, mas acha isso muito legal (não vivemos dissabores, ainda). Eu me preocupei em não alisar  mais os meus cabelos depois que a Sophie nasceu para que ela tivesse referências, busco exercícios onde eu possa enaltecer a sua beleza e procuro literaturas que a levem a conhecer a sua história/ancestralidade.

Ela entende na capacidade dela de oito anos de idade que houveram pessoas no passado que já fizeram mal as pessoas negras e que há uma história sobre isso e dividimos tudo isso com o Anthony para que ele entenda também.

O que mais me amedronta é que sei a minha missão de ensinar a minha filha a se defender não só fisicamente, mas psicologicamente e também ensinar o meu filho que pessoas podem usar a minha cor e a da irmã para atingi-lo.

Fazê-lo entender seus privilégios e o quanto a narrativa e postura dele pode ajudar pessoas/vidas negras a reconquistar seus lugares. Sinto como se a diferença (fenótipo) deles fosse tão impactante que eles transbordam o amor explícito do “Preto e Branco” de uma maneira muito clara.

Eu espero de mim mesma que eu tenha a lucidez de explicar a “diferença” que a sociedade criou e por isso perpetuam códigos, condutas e posturas que são simplesmente inaceitáveis. Há pouquíssimo tempo me deparei com uma situação que me levou ao outro lado do meu próprio mundo!

Percebi que existe um local onde eu não consigo acessar referente a alguns sentimentos do meu filho, que será um homem branco, assim como algumas conversas são reservadas somente a mim, como mulher negra, a minha filha Sophie. Logo entendi que a educação é uma rede de apoio e ajuda.

E depois do vapor das emoções, pensei em algo que vai além do meu umbigo! Quantas mães brancas possuem filhas negras? Quantas mães brancas possuem filhos negros? Quantas mães negras possuem filhos brancos? Quantas mães negras possuem filhas brancas?

E nós, mães negras, estamos formando essa rede de apoio para que as mães brancas e negras possam educar suas crianças para que se sintam entendidas e seguras? Parece que ser uma mãe negra vai além do meu pequeno planeta! O planeta MÃE é maior e mais abrangente do que imaginamos!