Como ser educadora e mãe negra antirracista

Reflexões sobre maternar e educar. Ambas as tarefas são bastante desafiadoras, mas o esforço traz recompensas para o presente e futuro

**Texto por Luiza Mandela Silva Soares, professora, pedagoga, escritora, mestra em Relações Étnico-raciais, palestrante, coidealizadora do Curso livre Onã: Infâncias e Relações Étnico Raciais e da Revista Mahin Malê, produtora de  conteúdo antirracista no Instagram @luizamandela e mãe da Alice Mahin. Coautora dos livros “Mães Solo, maternidade negra e dororidade”, “Educação  Socioemocional” e “Saúde Mental da População Preta Importa”.

É necessário ser antirracista e mostrar referências para os filhos desde cedo
É necessário ser antirracista e mostrar referências para os filhos desde cedo (Foto: iStock)

Sou professora de educação infantil da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro há nove anos, e quando comecei a lecionar, dividia sala com uma outra professora. Um certo dia, me deparo com uma atividade realizada por ela: um mural de 13 de maio, em que nos cabelos dos desenhos das crianças foram colados bombril. Na hora, levei um susto e veio um misto de sentimentos: tristeza, indignação, e revolta.

Questionei o motivo pela realização da atividade, mas não obtive resposta. Dali em diante, percebi o  quão urgente era trabalhar a autoestima das crianças negras de maneira positiva, fazendo a diferença para essas crianças, e de como uma formação mais aprofundada acerca das Relações Étnico–raciais é necessária. A Lei 10.639/03, que institui a obrigatoriedade da história e cultura afro-brasileira e africana nas instituições escolares já completou dezoito anos de existência, e o que mudou?

Há nove anos não tinha a vasta quantidade de material pedagógico que existe atualmente. No entanto, eu tinha a certeza de que eu tinha que fazer a diferença na vida dessas crianças, majoritariamente negras e pobres. Com o pouco acervo que tinha na época, iniciei trabalhando a autoestima das crianças: falando diariamente que elas eram lindas, inteligentes e capazes de serem o que quiserem ser.

O material do site “A cor da Cultura” me ajudou muito, ele tem diversas atividades para trabalharmos as relações étnico-raciais. Com o passar do tempo, foram surgindo mais materiais para trabalharmos: livros, bonecos, jogos pedagógicos, e o tão necessário giz de cera com diversos tons de pele. Quando trabalhamos a identidade, muito necessária na educação infantil, pedimos para que as crianças se desenhem, e muitas vezes já presenciei crianças negras se pintando com aquele giz de cera que generalizavam como cor de pele (cor da pele de quem?). É um giz rosa, e eu brincava com eles “rosa é Peppa Pig!”, sua cor não é essa, e é  linda!

É muito dolorido perceber que as crianças não querem se ver como negras, e nós sabemos o motivo. Cabe a nós, educadores negros ou não, colocarmos em prática essa educação antirracista tão falada nos dias de hoje. Mas para isso, é necessário primeiramente mudança de postura. Não adianta ter o melhor material pedagógico para trabalhar as relações étnico–raciais se na prática as falas continuam racistas, se o cabelo crespo da aluna ou do aluno não é penteado alegando ser “duro” ou não saber pentear, não colocando as crianças negras como protagonistas das peças de teatro e/ou  das histórias.

Desse tempo em que estou no magistério, houve uma história que me marcou muito e sempre falo sobre ela em lives, palestras e conversas com escolas. Eu  tinha acabado de chegar em um espaço de educação infantil, e fiquei com uma turma de Pré-Escola II. Eu cheguei quase no meio do ano, a turma já tinha passado por outras professoras. O espaço estava com um projeto sobre Olimpíadas (era ano de Olimpíadas), e as turmas foram divididas em Continentes. Me deram para trabalhar o Continente Africano (por que  será? Rs).

Tinha uma aluna negra retinta mas que se mostrava muito irritada em estar naquele espaço. Ela não se sentia pertencente àquela escola, ela não tinha bom relacionamento com os colegas e com as professoras que passaram pela turma. Ela era vista como a aluna “agressiva”. Quando o trabalho foi iniciado, comecei a coloca-la como protagonista das histórias que contava: fizemos peças em que ela foi a ‘’Princesa Arabela’’, quando falamos sobre o Egito (que, sim, fica no Continente Africano), fiz adereços egípcios e coloquei em todas as crianças, afirmando que eles eram descendentes de reis e rainhas. Todas as atividades foram trazendo o Continente Africano de forma positiva, rica e diversa.

Foi um ano muito especial e de muito aprendizado. Foi emocionante ouvir da mãe dessa aluna, com a qual tenho contato até hoje: “A minha filha não gostava de vir para a escola, agora ela está amando”, uma outra mãe também falou o quanto a filha dela se sentia feliz em ir para aquele espaço. As crianças me respondiam tão positivamente, com tanto afeto que ali eu percebia que estava no caminho certo. Quando temos consciência do quanto é necessário trabalharmos de forma positiva e fluida, durante todo o ano letivo, não fragmentada como de costume em datas como 13 de maio, 20 de novembro, nós muitas vezes também passamos a entrar em alguns “embates”.

Trabalhar as relações étnico-raciais não é uma tarefa fácil, e entendo também que não existe formação específica voltada para as relações étnico-raciais, mas vivemos em um país majoritariamente negro: de acordo com o IBGE, somos 57% da população, e já passou da hora de mudarmos essa realidade.

Devido à essa ausência na formação docente, eu e mais duas professoras negras da Rede Municipal do Rio de Janeiro, Joana Oscar e Renata Francis, criamos em 2020, de forma remota o curso livre “Onã Infâncias e Relações Étnico-raciais”. Onã, em Iorubá, significa “caminho”, e o curso, dividido em seis módulos, traz caminhos para quem quer colocar em prática uma educação antirracista e transformadora. O curso já atendeu mais de 300 pessoas de todos os lugares do Brasil e inclusive fora dele e sempre temos um retorno muito positivo; esse aquilombamento foi um bálsamo para tempos tão difíceis em que estamos vivendo.

Quando falamos de representatividade, é porque ainda não é proporcional a quantidade de pessoas negras, a representação positiva em comerciais, novelas, filmes. E a escola acaba por muitas vezes  reproduzir essa mesma lógica. A luta é árdua, mas não podemos desistir, pois sou uma professora que acredita que a educação transforma, e que a educação para transformar precisa afetar positivamente.

A difícil tarefa de maternar

Descobri minha gravidez no final do ano de 2017, e com a gravidez vieram as preocupações; estava gerando em meu ventre uma criança negra, em um país em que o racismo estrutural se faz presente: a cada 23 minutos morre um jovem negro nesse país. Quando descobrimos que era uma menina, já  tínhamos o primeiro nome (meu marido sempre disse que se tivéssemos uma menina se chamaria Alice), mas decidimos também colocar mais um nome, de origem africana para homenagear nossa ancestralidade. Decidimos acrescentar o nome Mahin, em homenagem à Luísa Mahin, líder da Revolta dos Malês na Bahia, e mãe do advogado Luís Gama.

Luísa Mahin foi uma das  grandes personalidades esquecidas da nossa história e que contribuíram muito para a Abolição da Escravatura. A Alice Mahin foi muito esperada e desde a gravidez a preocupação em trazer referências positivas foi constante. A decoração do quarto da Alice é com o tema “boneca negra”, e a do chá de bebê dela também foi. No chá, quem acertava as perguntas das  gincanas ganhava como prêmio o livro da escritora nigeriana Chimamanda Adchie: “Sejamos todas feministas’’.

Para compor a decoração tanto do quarto quanto do chá de bebê, tive dificuldade em encontrar bonecas negras, eu encomendei com diversas afroempreendedoras para conseguir ter as bonecas negras que não tive na minha infância. Alice Mahin é muito amada por nós e por todos que a rodeiam. Nasceu em julho de 2018 e hoje está com três anos e é muito linda e inteligente. Como mãe e educadora, busco trazer sempre referências positivas para a criação da Alice, no entanto a sociedade está aí ainda com referências majoritariamente brancas, então não há como “blindar” a Alice do racismo estrutural.

A maternidade com certeza é o maior  desafio de toda a minha vida. Desde quando a Alice nasceu, eu e meu marido, Wagner, que também é um homem negro, falamos todos os dias que ela é linda, inteligente, maravilhosa e muito amada, para que a autoestima dela seja cada vez mais fortalecida, o que é extremamente necessário para que ela saiba lidar com as situações que infelizmente serão inevitáveis. Os desafios como mãe negra, professora, educadora antirracista são muitos, mas sigo  fazendo o que acredito. Sei que não é fácil, mas com certeza não posso deixar de acreditar e nem de esperançar dias melhores.