Construção da autoestima como forma de proteção

Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista

**Texto por Glycien Souza, Gestora de projetos de tecnologia e transformações digitais, mãe de Kizzy e Luiza

É importante ensinar as crianças sobre amor próprio desde cedo (Foto: Shutterstock)

As experiências na criação de filhos são muito particulares para cada família. Sabemos que cada uma tem sua maneira, suas tradições, suas crenças, que são passadas muitas vezes desde gerações antigas.

Assim que minha primeira filha nasceu, fiquei pensando em quais memórias eu gostaria de fortalecer nela e quais memórias gostaria de tentar proteger.  Eu acredito que seja natural que os pais pensem dessa forma, e dar um mergulho na sua própria infância é um convite ao resgate de memórias de acontecimentos que de alguma forma gostaríamos que nossos filhos fossem protegidos.

Quando fiz esse mergulho na minha infância e me conectei com minha filha, além da preocupação em proporcionar carinho e proteção, segurança financeira, alimentação, escola e  tudo relacionado a bens materiais de que uma criança necessita, me deparei com o fato de que gostaria que minha filha tivesse muita autoestima, que gostasse da sua cor, do seu cabelo, dos  seus traços e tivesse orgulho da história de sua família. Na minha visão, essa autoimagem positiva a protegeria das situações racistas que infelizmente eu já sabia que ela sofreria.

Assim, eu comecei um processo consciente de cuidados com as duas. Não era somente sobre passar um creme, ou fazer um penteado novo, eu precisava ir além, precisava além de cuidar, elogiar com palavras positivas, valorizando a individualidade delas, a tonalidade da pele, as características, a curvatura dos fios dos cabelos e enaltecer a cultura negra.

A construção da autoestima de uma menina negra passa principalmente pelo cabelo, e assim, desde pequena sempre falei para minhas filhas sobre seus cabelos, que são lindos, crespos, que com eles poderíamos fazer vários penteados e sempre fazia e faço questão de mudar o penteado de forma recorrente. Apesar disso, eu mesma ainda alisava meus cabelos e esse discurso ficou diferente da realidade, e foi com o nascimento da minha segunda filha em 2013, que também comecei de fato a praticar meus próprios conselhos e parei de alisar meu cabelo e comecei a deixá-lo crescer de forma natural.

Esses fatos são importantes e fazem, sim, a diferença. Já parou para pensar na rotina de uma criança negra fora de seu seio familiar? Tem muitas experiências onde seus traços são desvalorizados, mesmo sem palavras. Por exemplo, faça um teste e vá até uma loja de brinquedos e observe quantas opções de bonecas negras você encontra. Essas mensagens ficam na cabeça da criança, então no meu ponto de vista entendi que se eu fizesse o movimento contrário pelo menos com as minhas filhas, as protegeriam de iniciar a primeira infância já com uma autoestima abalada. Seguindo esse raciocínio, na minha casa sempre tivemos todos os tipos de bonecas, com todos os tipos de cabelos e sempre conversamos abertamente sobre assuntos relacionados à diversidade.

Entendo que já estamos colhendo frutos dessas atitudes em família, hoje minhas filhas que já são questionadoras como a maioria das crianças dessa geração colocam  muitas questões que fazem os adultos em sua volta refletirem, e na escola essa situação fica bem mais evidente.

No dia dos avós de 2019 por exemplo, a Kizzy, minha filha mais velha, e todas as outras crianças receberam um desenho já decorado para ser anexado na carta que cada criança escreveria para seus avós, ela então chamou a atenção da inspetora que estava na sala no momento e disse que aquele desenho não era parecido com  ninguém da família e que gostaria de anexar um desenho que fosse mais parecido com os avós. A inspetora tentou argumentar dizendo “mas é apenas um desenho”,  mas não teve jeito, o caso foi parar na sala da pedagoga e a mesma fez um outro desenho decorado parecido com os demais, porém com uma diferença, representava avós negros.

Pode parecer algo simples, mas para a construção da autoestima das crianças essas situações que mostram a existência da diversidade em qualquer tipo de ambiente faz a diferença, pois assim ela se enxerga em diferentes espaços.

Um outro ponto de ajuda que utilizamos como família é sempre ouvir com muito cuidado, o relato de vivências que as meninas trazem diariamente. Isso porque as interações infantis são ótimas para aprendizados de convivência e também regras da sociedade e ajuda na criação de relações sociais de amizade e companheirismo, mas também como as crianças representam a sociedade em que estão inseridas. Essas relações podem sim trazer experiências racistas.

Sabemos que crianças não nascem racistas, ela aprendem com as atitudes que percebem em todo seu contexto familiar e social, então acredito que seja  imprescindível ter uma escuta muito ativa quando as crianças trazem suas experiências, e em detectando qualquer situação racista ocorrida entre as crianças, posicionar os responsáveis para que eles tenham a chance de reverter a situação em uma conversa franca no intuito mesmo de educar.

Sobre essa situação minha filha mais nova, Luiza, de 7 anos, chegou da escola um dia desse ano dizendo que uma amiguinha havia dito que ela parecia um macaco e a melhor amiga concordou. A Luiza não gostou, mas ficou sem reação, não entendeu o que aconteceu, o porquê foi comparada com um animal e só foi me contar o que houve depois do jantar, próximo ao horário de dormir. Fiquei refletindo um  bom tempo sem saber ao certo como lidaria com essa situação, até que pensei “o problema aqui não é meu, tenho que compartilhar com os responsáveis”, e foi o que eu fiz. Enviei mensagens de áudio contando o relato, explicando o porquê estava errado e dando a “dica” de que os responsáveis incluíssem uma educação antirracista para seus pequenos, porque de fato não adianta não ser racista, precisa ser antirracista para combater, é necessário ter uma indignação sobre o assunto. Disse para os responsáveis também que se ocorresse novamente, iria envolver a escola no assunto, e falei isso de forma muito tranquila e respeitosa, e os pais entenderam meu ponto. Ficaram chocados com as atitudes dos filhos e disseram não entender por que  suas crianças fizeram isso, dado que segundo eles, não haviam ensinado isso.

Mas é esse o ponto, não falar sobre o assunto, não significa que a criança vai entender o que é certo e o que é errado… Não falar do assunto faz a criança reproduzir o que ela vê na sociedade, por isso é, sim, necessário falar sobre antirracismo com a criança e explicar sobre as diferenças individuais e enaltecer o ser humano. Quem sabe assim garantimos que nossos filhos ou filhas não cometam atitudes racista e depois falem que não sabiam, que não fizeram por mal, que foi sem querer ou deem qualquer outra desculpa relacionada a falta de conhecimento. Vamos criar crianças que respeitam a diversidade das pessoas, que se indignam com a desigualdade. O futuro agradece.