Crianças negras têm nome!

A importância de ser chamado pelo nome como forma de fortalecimento identitário, valorização e construção positiva da autoimagem das crianças negras

**Texto por Flávia Imirene, mãe de Nohan, atriz, formada em Bacharelado em Artes Cênicas.

Apelidos podem ser prejudiciais na formação da identidade de crianças negras (Foto: Unsplash)

Sou mãe de um menino negro, atualmente com oito anos de idade, seu nome é Nohan. A minha fala com ele dentre outras coisas, é sempre no sentido de que no convívio com seus colegas, sobretudo na escola, eles ao se referirem ao Nohan, precisam chamá-lo pelo nome. Costumo falar sobre isso reiteradas vezes. E meu filho com um olhar de estranhamento me indaga: “Por que mãe?”. E eu me limito a dizer o óbvio: “Porque você tem nome e precisa ser chamado como tal. Por um acaso quando você quer falar com algum amigo seu, costuma chamá-lo de outra forma que não seja pelo nome?”. Ele fica pensativo. Algumas vezes quando percebo ser necessário sou mais explícita e digo: “Por acaso você fala a algum amigo seu: ‘ô branco, vamos jogar bola?’ ou ‘branco, você fez a lição?’”. Não! Você não fala assim! Então porque ao se referirem a você criam “apelidos” como: chocolate, nescau, neguinho… E outras denominações que só tendem a piorar, ou seja, palavras absolutamente depreciativas e ofensivas, que tem por objetivo ridicularizar e opto por não reproduzir aqui. “Portanto, Nohan, você precisa ser chamado pelo seu nome”.

“Respeite para ser respeitado”, já dizia meu pai, quando meu irmão e eu éramos crianças. Mas quando se é criança negra, nem sempre o respeito é recíproco. Existe uma permissividade social, racista, que faz com que crianças brancas, se sintam autorizadas e no direito, de lidar com crianças como o meu filho, de forma a ridicularizá-los na primeira oportunidade. As crianças são o espelho daquilo que veem, escutam, assimilam e posteriormente reproduzem, sendo, portanto, uma conduta naturalizada, e em muitas situações interpretado apenas como uma inocente brincadeira de criança, mas não é!   Se não revisitarmos a história dificilmente conseguiremos compreender as dimensões de onde partem tais condutas sociais, entendidas como “naturais”, essas práticas, têm na origem colonial suas bases, mentalidade enraizada nas relações brasileiras.

Como criança negra aprendi a importância do meu nome e ensino isso para o meu filho (Getty Images)

Uma das primeiras providências de controle e subjugação, não à toa, do colonizador, a respeito do africano escravizado e trazido a força para as terras brasileiras, foi justamente destituí-lo do seu nome de origem e batizá-lo com um novo nome, de branco, e sobrenome do senhor de escravo, dono e proprietário daqueles corpos desapropriados de suas identidades. Ou seja, a partir desse ato, o negro na condição de escravizado, perdia nominalmente sua humanidade, identificação, origem. Misturando-se a muitos outros de nações diferentes, que vivenciavam naquele momento a mesma sina. A construção da identidade de alguém, perpassa por saber sua origem, nome, sobrenome, de onde vieram seus familiares e partir disso se entenderá uma série de questões a respeito de si, da sua família e do seu entorno, que ajudarão na formação da própria subjetividade, autoimagem etc. No caso de nós, pessoas negras, afrodescendentes, ficam várias lacunas, a respeito da nossa origem, uma série de hiatos, em virtude da escravização negra, que vamos no decorrer da vida, tentando compreender para fortalecer quem somos.

A partir dessa perspectiva, muitos são os atravessamentos e desdobramentos que podem impactar a construção identitária das pessoas negras em virtude do racismo, não ser chamado pelo nome é mais um deles. Nesse contexto, a fase escolar é um grande desafio pois pode se transformar em um dos períodos mais cruéis para as crianças negras, que passam a ser alvo dos “apelidos” e ofensas racistas de seus colegas brancos.

Retomo aqui a frase do meu pai que dizia “respeite para ser respeitado”, desde cedo ele e minha mãe sempre mantiveram com meu irmão e comigo conversas muito francas e abertas a respeito de possíveis hostilidades por parte de outras pessoas por causa da cor da pele. “Nunca deixe ninguém te humilhar, achar que é superior a você pelo fato de ser branco”. Muitos foram os relatos que o meu pai nos contou de episódios racistas que enfrentou na escola. E do seu posicionamento em não admitir que viessem se referir a ele como “negão”, ou “criolo”, por exemplo, sempre frisou da importância de sermos chamados pelo nosso nome, ensinamento aprendido por ele através da minha já falecida avó Maria, que apesar da origem humilde sempre foi altiva e orgulhosa de suas raízes negras. Compartilhar as experiências vividas, era uma forma de nos preparar para o que viria. Porém, mesmo tendo noção do que poderia vir acontecer, nunca é fácil quando de fato as situações se apresentam de forma a nos ferir profundamente.

Na época em que frequentei a escola, muitas foram as situações desagradáveis das quais eu tive que lidar. A cada início de ano, especialmente quando ia para uma turma ou colégio novo, o primeiro dia de aula era sempre uma tensão, frio na barriga, mãos geladas, pois havia uma preocupação de minha parte de sofrer algum insulto de alguém, pensar nessa possibilidade cerceava a minha forma de ser, pois havia um medo de eu não ser aceita, ou de chamar a atenção demais, pois geralmente eu era a única menina negra da turma.  Em umas das vezes fiquei muito chateada com uma colega minha de classe que ficava o tempo todo me chamando de “neguinha”, e eu quieta, em muitas situações como essa eu costumava ignorar, relevar, fingir que não escutava, usava de várias estratégias a espera de que os insultos cessassem.

Porém dessa vez, já com um nó na garganta, resolvi falar para a diretora que me respondeu da seguinte maneira: “está reclamando do quê? Você é!”. Eu tinha uns doze anos de idade quando ouvi aquelas palavras, fiquei arrasada, se quer consegui argumentar. Só pensava: “Quero ser chamada pelo meu nome, será que ela não percebe que não está certo isso!”. Sim, esse pode ser um outro grande problema que agrava a situação, a omissão, o silenciamento e falta de preparo de alguns educadores e da escola que em muitas situações não sabem de que forma lidar com questões raciais.

Ser chamado pelo nome é a valorização e construção positiva da autoimagem das crianças negras (Foto: Getty Images)

No livro “Negro Qual é o seu Nome?” de Consuelo Dores Silva, autora aborda o tema de forma bastante interessante, apresentando quais são os desafios das crianças negras dentro dos domínios da escola, e de como os apelidos podem ser prejudiciais na formação da identidade dessas crianças. Os apelidos, segundo a autora, são o nome da inferioridade.  Por isso a importância da reflexão, do debate na escola, como forma de se instrumentalizar de conhecimentos e práticas que abordem as relações étnicos-raciais em seu interior. Mas para além do discurso é preciso ação, responsabilização, a branquitude precisa se entender como parte do problema, pois o racismo não é um problema só dos negros.

É muito comum ao tratar do tema, pessoas brancas se colocarem de fora da questão, as ações práticas antirracistas, se iniciam em pequenas atitudes cotidianas, afinal quem não tem um amigo “negão” não é mesmo? Há quem diga: “Ah eu falo com carinho, a gente se dá bem”, ou “ele não liga!”. E eu pergunto: Será? pode até ser que em um dado momento da vida, já adulto, talvez a pessoa não ligue mesmo de ser chamado desta forma, ressignifique e até assuma o apelido, muitas vezes, por resignação, cansaço, ou por achar que é assim mesmo!

Outros ainda dirão: “Ah hoje em dia não se pode falar nada, que tudo é racismo!”. Na realidade, sempre foi! Só que durante muito tempo criou-se estratégias de silenciamentos, em que não era permitido tocar no assunto pois importante era manter a falácia da “democracia racial brasileira”.  Até hoje a pauta é indigesta, justamente porque convém para muitos deixar tudo como está, já que racista é sempre o outro!  Afinal: “A minha bisavó é mais escurinha do que você!” ou “Meu pai é negro também”, ou então “Sou casada com uma moreninha assim igual você!”. Todas essas frases e tantas outras não minimizam, não livram e nem tão pouco justificam e não isentam de atitudes racistas. É bom reiterar que essas condutas são tão naturalizadas que muitos não veem problemas, revelando o quanto a nossa sociedade precisa de letramento racial e a escola pode ser um alicerce importante neste enfrentamento. É preciso refletir sobre a violência por trás dos apelidos, que se iniciam lá na infância, na fase escolar, e muitas vezes acabam seguindo pela fase adulta nos mais variados ambientes de interação social. Supostamente interpretados como “brincadeira” essa prática precisa ser desnaturalizada para a construção de uma convivência antirracista dentro e fora do ambiente escolar.

A escola é  um importante pilar na formação da nossa identidade, por isso a necessidade de se criar mecanismos, aperfeiçoamentos curriculares, capacitação de professores, que possam privilegiar e valorizar uma educação mais plural em que os saberes e fazeres afro-brasileiros e africanos estejam presentes, para que as crianças negras consigam se ver nos livros, materiais didáticos, conheçam sua cultura sendo apresentada de forma positiva, fortalecendo e ajudando na construção de sua identidade racial e social. A escola precisa ser um ambiente seguro, em que todas as crianças possam se sentir acolhidas, pertencentes a um espaço que respeita e valoriza a diversidade.

A importância de ser chamado pelo nome como forma de fortalecimento identitário para a criança negra (Foto: Getty Images)

Muitos são os desafios a serem percorridos, ainda mais em um país que não à toa, sucateia a educação, desvaloriza os professores, no entanto, é preciso lutar por melhorias no ensino, escolher governantes que apresentem uma agenda que pense a educação de forma prioritária e de enfrentamento ao racismo, mas em paralelo, acredito também na autor-  responsabilização, ou seja, o que eu enquanto indivíduo, dentro do meu ciclo social, posso contribuir com pequenas ações cotidianas,  repensando práticas e atitudes na forma de lidar com outro. Ensinar as nossas crianças o respeito aqueles que são diferentes de nós, mas que tem o direito de existir no mundo assim como qualquer ser humano. Essa mentalidade penso ser o caminho possível, ou seja, a compreensão de alteridade.

Aos pais que têm o desafio de educar crianças negras para o enfrentamento do racismo, que consigamos manter e estabelecer o diálogo aberto sobre o tema, não é fácil, mas não podemos fingir que o assunto não existe, precisamos dentro das nossas possibilidades preparar os nossos filhos.

Com Nohan, para além das conversas, busco sempre levá-lo a lugares, eventos em que ele vivencie e interaja com crianças também negras, já que dentro do ambiente escolar, mesmo sendo de escola pública há poucas crianças como ele. Creio ser de extrema importância essa identificação para a formação da sua identidade.

É urgente desnaturalizar práticas de violência como os apelidos em menção a cor da pele de crianças negras. Chamá-las pelo nome pode ser um despertar para os que buscam por práticas e ações antirracistas.