Criando Princesas Pretas com atitude e voz ativa

Não são as que estão no andar mais alto da torre mais alta, mas aquelas que podem governar seu próprio reino

**Tiago Lima, estudante de Letras (UNIVESP), idealizador do projeto @paidaspretinhas no Instagram, pai de Lauryn e Alicia

É preciso educar com afeto (Foto: Arquivo Pessoal)

Passei a minha infância rodeado de primas, tias, avós, mãe e irmã, ou seja: Cresci rodeado pela presença da força, sincronia e afetividade feminina… Isso me fez crescer com o desejo imenso de ser pai de meninas e criar princesas, mas sempre soube que as minhas princesas eram um pouco diferentes das princesas dos contos de fadas. Minha princesa não ficaria presa na torre mais alta do castelo mais alto, mas estaria sempre na posição mais alta o possível dentro do meu reino imaginário…

Ao imaginar a paternidade em relacionamentos anteriores ou ao descobrir a gravidez da minha parceira atual, a minha inserção no universo da paternidade me trouxe a seguinte questão: “Que tipo de pai quero ser?”. Me levando a repensar prioridades, projetos de futuro, responsabilidades e meu espaço afetivo. A paternidade veio e fez com que eu me apegasse a funções não tão palpáveis, como: atenção, carinho, maior participação nas atividades domésticas com minha parceira e no desenvolvimento das nossas filhas…

Quando a pandemia chegou nos fez rearranjar nossas vidas familiares e me desgarrar da função tradicional de responsável pelas provisões materiais. Assim, o homem provedor não perdeu sua força, na verdade estava ganhando novos poderes e que tinha suas energias renovadas a cada vez em que me sentava ao chão para compartilhar momentos de brincadeiras com minhas filhas e aproveitar desses momentos para ensiná-las a serem fortes, audaciosas, sensíveis e honestas (mal sabia eu que estava mais aprendendo do que ensinando…).

Ter visto minha filha dizer que não poderia ser uma princesa, pois uma amiguinha disse que ela não poderia com “aquele cabelo”, me fez sentir que fora dos portões do nosso pequeno reino familiar a realidade é muito dura e sentir através das minhas filhas me ensina que nossa luta de autoestima, afirmação estética e representatividade continua. Nossas filhas terão sempre contato com suas raízes e ancestralidade onde suas características físicas são celebradas, mas não somente isso… Suas características emocionais, de inteligência, positividade e grandeza serão sempre exaltadas!

Mas como um homem que cresceu num lar amoroso, mas pouco afetivo conseguiria quebrar essas barreiras? Como eu homem, posso aprender a ser afetivo? Como falar com outros pais sobre a importância da afetividade? Bem, responder à minha filha que quando andamos na rua e um outro preto nos acena a cabeça e nós sinalizamos de volta, é porque há um acordo aparentemente tácito, invisível e ancestral de reconhecimento e essa é uma forma de demonstrar afetividade com o outro e com isso aprendo e ensino sobre ver e respeitar o outro.

É preciso valorizar as características físicas ou não (Foto: Arquivo Pessoal)

Ver a teimosia e questionamentos delas me mostra que a força da mulher preta é um item inerente e que não posso e nem devo,  puni-las por manterem seu ponto de vista e com isso aprendo a respeitar e entender suas características. E esse cuidado com as individualidades delas me tornou afetivo. O estado de paternidade não me tornou pai, mas me torna um pouco mais pai à cada dia e assim ser pai transformou minha vida. É minha responsabilidade mais significativa e impactante. Por causa da paternidade, me esforço para ser consistentemente uma pessoa melhor e mais altruísta. Desde o início, você percebe que as crianças estão observando você e aprendendo com você pelo exemplo. Portanto, agora estou mais ciente do impacto de minhas ações e palavras.

A paternidade de meninas pretas me ajudou a entender que há uma luta diária para torná-las princesas fortes e guerreiras como Shuri, Naki e Okoye e que a realidade demanda princesas menos frágeis, mas com atitude e voz ativa. Criar meninas pretas me mostra, diariamente, a importância de ensinar que a independência e a liberdade são valores que estão acima de muitas coisas. A paternidade me mostra a importância de abraçar, olhar no olho e fazê-las sentirem-se vistas e ouvidas.

A paternidade mudou, inclusive, minha relação com meu pai (que ainda tem ressalvas por ser beijado e abraçado por um homem barbado como eu, mas mesmo assim eu o faço) e eu me sinto tentado a acreditar que eu tenho sua licença, para dar alguns conselhos: abrace seus pais, dedique-se à conhecê-los e a compreender mais de sua história, afinal é impossível prever quando eles terão ido embora de vez… Abrace seus filhos/filhas, deixem que eles/elas saibam o quanto estão protegidos dentro do seu abraço e do seu lar, pois da porta para fora nem todos os abraços serão tão sinceros ou preenchidos de amor.

Deixe a afetividade tomar conta da sua vida; deixe os sorrisos fazerem parte dos seus dias e as descobertas dos seus filhos te fazerem descobrir o homem sorridente e maravilhoso que há dentro de você. Deixe sua bagagem de problemas do trabalho no portão de fora de casa ou no fim do expediente e encha seu lar de amor e afetividade. É claro que a paternidade é transformadora e se deve buscar sempre o aperfeiçoamento, mas sem esquecer que erros podem ser causados no caminho e que se houver devem ser encarados como preciosas lições. Embora esse assunto não se esgote aqui não posso encerrar este texto sem lhe recomendar que procure oferecer a sua princesa proteção, amor e companheirismo para que ela sinta a força necessária para continuar o seu reino.

Acompanhe o Tiago em @paidaspretinhas (Foto: Arquivo Pessoal)