De mulher para mãe

A minha transformação não foi planejada, mas foi muito bem-vinda

**Texto por Daniela Reigadas, Produtora Cultural, mãe de Laís, de 6 anos

Vou contar para vocês a história de como me transformei de mulher para mãe, tudo começou há 7 anos em 2014. Não pensava em ser mãe devido ao acumulo de trabalho e funções porém após o rompimento de um preservativo, mesmo tomando pílula do dia seguinte corretamente me encontrei grávida. A princípio tinha certeza que um dos dois métodos funcionaria especialmente o segundo, mas depois de dois meses passei a enjoar inclusive com um prato de macarrão, molho branco e bife a parmegiana embaixo de um restaurante que eu amava…

A transformação de mulher para mãe é uma grande aventura (Foto: iStock)

Resolvi comprar o teste, fiz, só apareceu um risquinho, comemorei, porém durante a comemoração, o segundo risquinho apareceu, como eu chorei, era uma situação nunca pensada por mim. Passei mais uns dois meses sem falar sobre o assunto, até que minha irmã me ligou e falou que estava grávida de quatro meses, isto me deixou animada, as bebês nasceriam praticamente juntas. Mesmo assim, não anunciei pois me cobrava muito o fato de não ter me programado para acontecer esta gravidez.

Em 2014, estava com 38 anos ainda assim não falei sobre a gravidez, mas a minha barriga ficou enorme e não tinha como não abordar o assunto, fui comprando os itens e organizando as coisas e apesar de fazer todos os exames do pré-natal, somente em dezembro descobri uma Diabetes Gestacional que me fez ser internada com urgência em janeiro e ficar no hospital até 12 de fevereiro quando minha bebe nasceu. Se estava frustrada por não ter me preparado para ser mãe, imaginem como fiquei quando tive que ser internada.

Pensei “se vou ficar internada no hospital vou levar notebook para continuar fazendo meu trabalho”, e foi assim durante todo o período que estive internada, fazendo contato com os contratantes, oferecendo projetos culturais, escrevendo editais, e foi um período onde lancei muitas sementes e colhi muitos frutos graças a este esforço.

Fevereiro de 2015 chegou e após o nascimento da minha filha tudo mudou em mim, me transformei de mulher em mãe, foi perceptível esta mudança. Para quem não tinha se planejado para ter filho, me tornei uma mãe focada e incansável, meu trabalho ficou em segundo plano, até porque não conseguia fazer as coisas com tantas atividades novas. Algo importante é que realmente as bebês nasceram com sete dias de diferença. Helena, filha da minha irmã, nasceu em 5 de fevereiro e Laís, minha filha, nasceu dia 12.

Isto foi muito bom, porque gerou uma rede de apoio muito grande familiar. Neste período, comecei a compor musicas infantis para poder cantar para Laís durante sua infância e montei o projeto infantil Uni Duni Tê Musical, ser mãe é algo tão diferente e desperta tantos sentimentos novos em nós que não dá pra explicar, só as mamães vão entender.

Nos três primeiros anos, mantive minha atenção em cuidar da Laís e só retomei o meu trabalho de forma mais frenética quando coloquei ela na escola. Um dia minha mãe veio em casa, estava toda descabelada, de pijama, atendendo um contato pelo telefone fixo, digitando um email e falando no celular por um aplicativo, Laís chorando eu não conseguia trabalhar rápido. Minha mãe nos colocou dentro do carro, fomos em três escolas e decidimos por uma. Confesso que no tempo que ela ficava na escola eu me sentia aliviada em conseguir fazer meu trabalho e outras coisas necessárias.

Aos poucos fui me readaptando ao trabalho. Uma coisa que eu tinha muito medo era o fato da Laís ser negra com a pele clara. Desde pequena sempre apelidei minha filha de bonegra (boneca negra), sempre expliquei sobre negritude, África, escravidão e para minha felicidade apesar dela ter a pele clara desde os 5 anos ela se declara negra. O pai dela, Darlan, é branco e teve um papel fundamental na educação e formação da negritude na cabeça dela, sempre apresentando o melhor dos negros na musica, no esporte, na cultura, na dança. Laís inclusive por muitas vezes chora querendo ser negra com a pele mais escura, eu explico que as pessoas são diferentes mesmo assim ela sempre pede para ficar mais escura ou se Deus pudesse escurecer mais ela.

Eu fico muito feliz, pois ela sabe exatamente quem é negro. Por exemplo, ela e o pai são da mesma cor, as vezes ele fala “sou negro também filha, minha cor é a mesma que a sua”, ela fala “você não é negro, seus pais não são negros, somos da mesma cor mas seus lábios não são iguais ao meu, minha mãe e eu somos negras”. Quando ela vê alguém no YouTube ou TV ou mesmo na rua mesmo que for mais claro que ela, ela sabe exatamente quem é negro ou não, ela percebe pelos traços, então fico muito feliz, pois na minha infância tive muitos problemas com a não identificação.

Sobre mim, meu corpo mudou muito e fiquei com diástase, demorei 6 anos e meio para voltar a usar as roupas de antes da gravidez. Me incomodou muito o fato da minha barriga ter ficado para frente como se eu estivesse grávida de novo, então me isolei dentro de mim mesma, só usando roupas pretas, com blusa amarrada na cintura, porem logo depois do inicio da pandemia percebi que não poderia continuar desta forma, de tanto conversar com um amigo sobre Marketing Digital, aos poucos comecei a voltar a me fotografar.

E depois de um trabalho com cultura aqui no meu município, procurei retomar as coisas, voltei a usar os meus vestidos combinando com cinto para disfarçar a diástase, fiz tranças soltas pela primeira vez, amei, agora sempre mudo a cor, voltei inclusive me maquiar. Estou numa fase feliz, mas tudo foi um processo de aprendizado e descobrimento. Amo minha filha, é meu amor e minha vida, mudei muitas coisas por ela, aprendi outras, e somente depois de ser mãe posso dizer o quanto vale a pena ser mãe e o quanto é prazeroso ouvir um “te amo”. Ensinar e aprender não são tarefas fáceis, mas estamos na vida para esta troca.