Desengessa! Todo mundo tem muito dentro de si

Um breve conto sobre a atual (antiga) modalidade de Ordem Social e criação antirracista. Assumir o racismo seria o máximo do espelho narcísico voluntário a escolha da própria conduta

**Texto por Cínthia Aleixo, psicóloga clínica, consultora em intervenção terapêutica antirracista, comentarista de TV e rádio, e desenvolvedora do projeto “Um Mundo de Possibilidades Maternas”, mãe de Manuella

As crianças precisam se sentir representadas (Foto: Arquivo Pessoal)

O ano é 2020. Imagina que em 1984 a menina Maria iria pensar que escrever sobre educação e criação de crianças fosse fazer parte do registro da sua atividade profissional.  Logo ela, aquela menina observadora, calada, engraçada por dentro e determinada por fora, ainda que ninguém falasse, a observasse e a elogiasse. Às vezes, sem vergonha e muitas com vergonha mesmo ela enfrentava as diferenças que a vida insistia em colocá-la na sua principal pauta da vida: ser lida como uma menina negra.

Maria menina era uma mocinha atenta e bonita. Nem era tímida, mas preferia não chamar a atenção. Atenção que viria meio pautada no mais ou menos, no deixa disso, no não vale a pena. Ninguém ligava para a sua autoestima e nem mesmo para o que ela ouvia, percebia, sentia vindo através de olhares, desprezos, descasos dos outros.

Maria argumentava e falava com os pensamentos. Era incentivada a falar sempre (mas não era ouvida), a defender-se e sabia qual era o seu lugar: seu reinado de menina crespa era único. Único porque somente ela e seus pais a colocavam nesse altar/patamar.

Ela ouvia de seus pais: “Você é linda, seus olhos são lindos, que sorriso bonito, vai ser modelo de revista. Vou te levar pra São Paulo, te apresentar para agências de moda e você será a modelo mais bonita do país”. E de fora: “Que menina bonita é essa que está ao lado da Maria?”.

A menina Maria não acreditava mas fingia, pra evitar decepcioná-los. Coisas de pai e mãe, ela pensava. Sabia que o padrão de moda, beleza e acessórios, penteado eram outros. E nem precisava ir longe. Todos os dias na sala de aula, o seu nome nunca era escolhido para nada; não ia ao quadro negro, não era ajudante do dia, não estava na lista das meninas mais bonita, não era a eleita rainha da primavera, nem era a melhor das melhores no diário de notas oficial da turma.

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Não basta incentivar que as crianças falem, é preciso escutá-las (Foto: Arquivo Pessoal)

Não rendia o quanto conseguia, é claro. Não era vista. Coisas que a baixa autoestima faz. Não era BV (boca virgem), mas quem saberia de um beijo escondido no cantinho do ônibus naquela volta da excursão do pessoal do 6º ano, doado por uma menino branco de sua classe? Ele até que gostava dela, mas ela era fora do padrão de belezura.

Era mediana? Não mesmo! Era irreverente, inteligente à beça, gaiata, muitas vezes cantora e apoiadora dos injustiçados, dos seus iguais. Aprovação não vinha, sabe? Nem um “que bonito o seu batom pink boca louca 24h”. Chegava sempre um: “A melhor cor para o seu tom de pele é a cor bronze”.

Maria Aprendeu a defender-se pequena, quando recebera uma faixa de rainha do cocô, numa ocasião de festa de aniversário de uma das “amigas”. As mesmas que permitiram tal fato. Quando era proibida de brincar e quando não era convidada para as saidinhas, quando gritavam “macaquinha” e quando era apelidada de tronco de árvore velho pelo menino mais bonito da sala.

Parecia uma senhorinha com tantas histórias. Mas era uma menina a crescer, a aparecer, na primeira infância. Com qualidades, medos, jeito, perfil, voz doce, franja cacheada, corpo violão, pele negra, inventora de pronomes, brincadeiras de rua, moleca maneira. O tempo passou. Maria floresceu. Educada que só, praticava e enfrentava mudanças de uma sociedade típica e cíclica, Maria que era menina tornou-se mulher e mãe. Repetiu seus pais e dizia a sua filha: “Vai que é sua. Você é linda. Seu cabelo é lindo, sua cor é linda”.

Eles não estavam errados, ela pensava em voz alta. Porém, com uma diferença. Sua filha acreditava nos elogios de seus pais, dessa vez. E devia mesmo! Ainda bem! Vivia no ano 2020. A mente era atualizada para o novo belo, o novo padrão é ser bonita seja do jeito que for. Seja do jeito natural. Ela é bonita e sabe que é. Não entende o passado e de mãos dadas com seus amigos, a menina não era mais diferente, sabe por que? Seus pais e os pais dos seus amigos avançaram, ignoraram a estética do “ter que ser padronizada” ultrapassada, permitem que a unicidade infantil aconteça e finalmente a pluralidade da amizade e beleza infantil aconteceu.

Regras para não subestimar amizades dos filhos? Coloque o ego debaixo do braço, como um jornal lido, notícia velha, pronto para ser levado para a reciclagem. Reciclagem é o que os pais da geração TODES estão passando neste momento. Agorinha. Aí dentro da sua casa. Debaixo do seu nariz e não tem mais para onde esconder-se. Tá engessade? Se joga no chuveiro gelado. A água vai escorrer e desfazer o que tua consciência moral e cívica, geração OSPB fez.

A não ser que tu prefira ser feliz sozinho no mundo antigo faz de conta. Naquele mundo que finges não ver injustiça, não apoiar causas humanas, impedir que vozes negras ecoem acima da tua. Poxa, mas viverá enganada até quando? Desengessa. Eu posso. Tu podes. Ele pode…

É no núcleo familiar que esse assunto deve partir (Foto: Arquivo Pessoal)

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