É possível educar crianças invisíveis?

Neste tempo de pandemia, mães e pais são obrigados a se envolverem, mais intensamente, na escolarização de filhos e filhas e descobrem o real sentido da
palavra educação, um espelho que reflete a invisibilidade de muitas crianças

** Texto por Oswaldo Faustino, jornalista, escritor e palestrante sobre temas afro-brasileiros

É preciso ir além do conteúdo para enxergar o potencial das crianças (Foto: Thinkstock)

“Quem não se vê não se reconhece. Quem não se reconhece não se identifica. Quem não se identifica não se ama, tem baixa autoestima e se desinteressa tanto por si próprio, quanto pelo outro. E ainda querem impor-lhe conceitos de cidadania”.  Este pensamento extraído de minha palestra intitulada Reflexões diante de um espelho sem reflexo, criada para capacitação de profissionais da Educação Escolar, pretende sensibilizar, um pouquinho que seja, as pessoas que, neste momento, estão empenhadas em ajudar – mesmo sem preparo – suas crianças a estudarem em casa.

O processo de “pasteurização” do ensino, que tenta alfabetizar e escolarizar todas as crianças de uma única maneira, sem levar em consideração seu histórico familiar, suas condições sociais, suas limitações individuais e tantos outros fatores que, futuramente, necessitarão de serem trabalhados num divã de analista, é uma das principais razões de aproveitamentos diferenciados de estudantes, da evasão escolar, de frustrações, da não realização existencial e da infelicidade de grande parte de nossa sociedade.

Se uma criança olha para o espelho escolar e não se enxerga, é vão todo o esforço de professoras e professores na transmissão de matérias, fatos históricos, estudos geográficos, regras gramaticais, outros idiomas, interpretação de textos, conceitos, teoremas, fórmulas e tudo o que compõe o currículo escolar. É muito mais prático lançar sobre a própria criança a culpa e a ausência de condições intelectuais, por seu baixo desempenho no aprendizado, do que questionar as razões reais dessa falta de empatia com o conteúdo programático escolar, e buscar caminhos que revertam essa situação.

Por que será que um bom número de jovens, com grande facilidade para dominar modernas tecnologias e, por exemplo, decorar longas letras de rap, de funk ou rock”n”roll, participar de saraus periféricos, declamando seus poemas intermináveis, são bastante inventivos em tantas atividades, mas são tão resistentes à educação formal?

O educador Paulo Freire, de reconhecimento internacional, tem uma frase que define muito bem sua visão do que realmente seria uma escola ideal: “Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar. É também criar laços de amizade, de afeto. É criar ambiente de camaradagem. É conviver. É ser ‘amarrado nela’. Ora, é lógico, numa escola assim, vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz!” Ser feliz… Qual seria o principal grande farol da existência humana se não o de ser feliz?

Nesse momento a educação familiar e a escolar se amalgamam, já que acontecem no mesmo local, a casa. Pais e filhos contam, porém, com a orientação de especialistas que, além de antigos atributos, como o pesquisar, preparar aulas e transmitir conhecimentos, por força das circunstâncias, agora também juntaram-se predicados de produtores de vídeos, atores e atrizes, diretores, técnicos de som, de luz, artistas gráficos, editores e uma infinidade de outras atribuições. Quem sabe se, por conta disso, a meta da felicidade não esteja ainda mais próxima dos educadores diretos e de educandos, dada a proximidade maior de pais e filhos e outros familiares que se predisponham a auxiliar na execução das tarefas.

Mas onde se encaixa a questão da invisibilidade nesse contexto todo? Até a promulgação da Lei 10.639/03, que estabelece na Lei de Diretrizes e Bases do ensino escolar, a obrigatoriedade da inclusão de história e cultura afro-brasileiras e história da África e da 11.645/08 que estende essa obrigatoriedade na as culturas indígenas, o ensino brasileiro só considerava a contribuição europeia na formação cultural do Brasil. Como se esses outros povos e, mesmo os asiáticos, os do Oriente Médio, os ciganos e tantos outros mais não tivessem dado muitas contribuições na formação do chamado “povo brasileiro”. As Leis estão aí, mas seu cumprimento efetivo ainda está muito distante.

Obras de intelectuais como Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, João Guimarães Rosa, Florestan Fernandes, entre tantos outros, buscam nos apresentar o arquétipo desse povo multiétnico e multifacetado, com sua diversidade, sua religiosidade variada e costumes que ora se complementam, ora se diferenciam. É esse “quebra-cabeças” que deveria ser refletido pelo espelho escolar e pelo espelho midiático, para que eles sejam verdadeiramente brasileiros. Para se educar crianças invisíveis temos, antes, de começar a educar a sociedade para enxergá-las. Aí, criança nenhuma, de nenhuma região do país sofreria de invisibilidade.

Oswaldo Faustino é engajado no tema e já escreveu livros sobre o assunto (Foto: Arquivo Pessoal)

Como escritor, mas também como um grande defensor da oralidade, tradição da maioria dos povos do mundo, que faz de mim um contador de histórias, peço licença para transcrever aqui um conto de minha autoria, intitulado O Espelho Mágico:

“Não. Ele não estava lá. Olhava que olhava, procurava que procurava, mas ele não conseguia ver sua imagem refletida na superfície daquele espelho. A sala estava lá, a mesa, cadeiras, a janela ao fundo, tudo, tudo menos ele… 

‘Caramba! Será que eu não existo?’, indagava assustado.  Existia, sim. Mas, pasme, aquele era um menino invisível.

Você sabe o que é uma criança descobrir-se invisível? Não. A gente pode imaginar, pode ter uma vaga ideia. Mas saber, saber mesmo, só sabe quem é invisível. A dor da invisibilidade só sente quem é acometido por ela. E aquele menino era verdadeiramente invisível.

Claro que ele não era invisível para todos. A mãe conseguia vê-lo, amá-lo, compreendê-lo, e era para ela que ele sempre corria: ‘Mãe, eu quero me ver. Eu quero ser visto’. E ela, sempre generosa, dizia: ‘Calma, meu filho! Talvez isso seja porque você, por enquanto, ainda é… ninguém. Mas um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo e amá-lo como eu’.

E o menino ficava matutando sobre aquelas palavras: ‘Um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo, amá-lo’.

‘Mas o que fazer para ser alguém?’, ele insistia. A própria mãe, que acreditava ter todas as respostas, disse-lhe o que ela imaginava ser a solução: ‘Para ser alguém você precisa estudar’.

‘Mãe, então me põe na escola para eu ser alguém! Afinal, quem é ninguém jamais poderá se ver refletido no espelho’.

E lá foi o menino para o seu primeiro dia de aula e… Não. Ele não se via refletido no espelho escolar. Ele não estava lá também. Em nenhum espelho. Não estava no livro de Matemática. O livro de História não contava a sua história. O de língua-pátria não falava a sua língua. 

Nem a professora o enxergava. Ela beijava algumas crianças, acariciava, dava atenção, aplaudia suas respostas, caprichava na nota. Mas ele, não. Não estava lá.

O tempo passou. E, no mesmo dia em que se tornou adolescente, como num passe de mágica, ele deixou de ser invisível e se tornou suspeito, suspeito crônico, suspeito de todos os males que acometiam a comunidade em que vivia. De todos os males da sociedade.  

E, no Brasil, se você é suspeito, já é culpado. Se não culpado do que suspeitam, culpado por terem suspeitado de você. E, finalmente, ele se tornou visível, na primeira página do noticiário policial.

Mas essa história não termina aí. Seria triste demais. 

Aquele menino tinha uma irmãzinha caçula, tão invisível quanto ele. E, como ainda era criança, ela acreditava na existência de um velhinho que trazia presentes no dia de Natal. As outras crianças o chamavam de Papai Noel. Como a mãe, para ela, era Iyá e o pai, Baba, resolveu chamar o velhinho de Baba Noel. E, como as demais crianças, ela também escreveu uma cartinha para ele. 

E Baba Noel começou a ler as cartinhas recebidas. Uma pedia boneca, outro queria bola, outras, bicicleta, celular, computador, vídeo game… Foi aí que ele abriu aquela carta com um pedido estranho: ‘Para que eu possa me ver, me reconhecer, me identificar, eu quero um espelho mágico’.

Só então Noel se deu conta de que não era a primeira carta que ele recebia com esse pedido. Havia outras, que ficaram esquecidas no fundo do baú de correspondências. Eram dezenas, centenas, milhares. Caramba! Como arranjar espelhos para atender a tantos pedidos?

Pela primeira vez ele se sentiu incapaz, impotente. Decepcionar criança é o que jamais gostaria de fazer. Por isso chorou. Chorou muito, intensamente. Suas lágrimas escorreram pelo assoalho, por debaixo da porta, para fora da casa e se misturaram às lágrimas de todas as crianças invisíveis de todo o mundo, por todos os tempos, formando uma grande lagoa. O frio polar a congelou e o frio de muitos corações humanos se encarregou de cristalizá-la.

Foi aí que passou por ali, em trenós, uma caravana de peregrinos. Eles avistaram o imenso cristal e, com muito esforço, o arrancaram do solo e o levaram para sua aldeia distante. Seus magos artesãos lapidaram aquele cristal, durante anos, e o transformaram num gigantesco espelho mágico que trazia em seu reflexo todas as nossas personalidades, culturas, tradições, e realizações. Lá estão nossos ancestrais, nossa forma de ser e de pensar o mundo. Esse, sim, é o nosso espelho.

No dia em que o espelho mágico ficou pronto, todas as crianças, antes invisíveis, puderam ver seu reflexo e refletir sobre elas próprias, sua gente, sua cultura, sua história. Aí, descobriram que são belas, belíssimas, ricas, poderosas, não ficam a dever nada a todas as demais crianças do planeta.

Olha só a maravilha de sorriso que esse espelho revelou! E não é para menos, sobre a cabeça de cada uma delas há uma coroa, uma mais linda que a outra. Sabe o porquê? São verdadeiros reis e rainhas, legítimos herdeiros de civilizações gloriosas. E o melhor ainda é que as crianças, que antes eram as únicas visíveis, ao se olharem também no mesmo espelho, conseguem ver a si e às demais igualmente lindas. E passam a amá-las e a conviver com elas em total harmonia. 

Agora, àquelas pessoas que receberam a missão de educá-las cabe apenas o privilégio de polir essas maravilhosas coroas, cada vez mais, mais e mais. Deixem todo o restante por conta delas!”.

A família Faustino completa (Foto: Arquivo Pessoal)