Educação antirracista dentro e fora de casa

Naturalizar os referenciais negros e afrodescendentes na vida das crianças negras para fortalecer suas existências

**Texto por Maria Teresa Ferreira, cozinheira e Educadora Social, mãe de Davi. Nos últimos anos, administra um pequeno empreendimento culinário chamado Delicias da Casa e uma agenda como escritora e consultora em letramento racial, feminismo e diretos humanos, no âmbito público e privado, além da idealização e coordenação do Projeto Enegrecendo.

O empoderamento das crianças negras é necessário
O empoderamento das crianças negras é necessário (Foto: Arquivo Pessoal)

Sabe a música do Chico Buarque “Todo dia ela faz tudo sempre igual/Me sacode às seis horas da manhã/Me sorri um sorriso pontual…”? Essa é a trilha sonora das manhãs daqui de casa desde que Davi, meu filho, era um tico de gente. Um dia ele entrou correndo cozinha a dentro falando que o nome da música que a gente canta de manhã é Cotidiano. Pensei comigo “ele aprendeu a nomear as coisas que são importantes”.

Eu canto Chico, ele canta Projota “… Ela é uma letra do Caetano com flow do Racionais/
Hoje pode até chover, mas ela só quer paz…”, aqui em casa tudo tem trilha sonora, um thriller de filme, uma boa dose de risada e um textão. Desde de muito cedo fazemos o exercício de dar sentido e nome a tudo que nos acontece e sempre, mesmo que seja dolorido, falamos sobre a importância de assumir as responsabilidades e principalmente as consequências dos nossos equívocos.

Há uns anos, logo que viemos de Salvador para morar em Sorocaba, Davi chegou da escolinha, entrou em casa e ficou sentado em frente a caixa de carrinhos com um olhar perdido e tristonho. Percebi a movimentação com estranheza e um leve traço de preocupação. Mães são assim, a menor mudança de comportamento uma sirene toca nos ouvidos e no coração.

Davi é uma criança alegre e perspicaz, de onde ele chega nos conta tudo com riqueza de detalhes. Aquele dia nem sequer uma palavra, aos poucos e com o cuidado que a ansiedade materna permitiu, fui perguntando sobre os acontecimentos da escolinha. Ele foi monossilábico nas respostas, mas disse num sussurro: “Mãe eu sou chato? O menino na escola falou que ser marrom não é legal. É por isso que nem todas as crianças brincam comigo?”, falou ele choramingando.

Fui do céu ao inferno numa fração de segundos. Um raio de ódio me atravessou. Nasceu em mim uma avalanche de lágrimas internas que foi engolida por um imenso vazio dentro do meu peito. As palavras sumiram, consegui abraça-lo e dizer que o amava muito além do infinito pintado por Deus.

Ele se acalmou e seus olhos foram sorrindo de novo,  quando ele saiu dos meus braços tudo já era colorido novamente. A infância traz em si a magia da cura pelo amor. Ele estava recuperado, e eu mal me aguentava em pé, meu desejo era ir na escola, falar com a direção, ver se o projeto psicopedagógico da escola contemplava a lei 10639, mandar chamar a mãe do menino, exigir desculpas, no mínimo fazer a revolução da educação antirracista.

Mas, ao invés disso, calei. Estávamos a 15 dias da festa de encerramento da escola. Davi super animado com a ideia do buffet que teria brinquedos e coxinha à vontade. A ponderação dos fatos e suas consequências arrefeceu minha indignação. Confesso que fiquei receosa de ir à escola, causar uma situação desconfortável, ser a preta que vê racismo em tudo e acabar por estragar a festa da criança. Engoli seco e sozinha as dores dessa triste história e Davi teve dor de barriga de tanta coxinha que comeu.

Por muitos dias fiquei me perguntando o que fazer? Moramos numa cidade extremamente conservadora, e meu sentimento de desamparo era gritante, o que diminuía minha coragem de pensar em algum tipo de intervenção, mas precisava fazer alguma coisa, seja com amparo dos órgãos responsáveis, fosse sozinha.

Estávamos na transição da educação infantil para o Fundamental I, ele iria para uma escola maior e tradicional da cidade. Pois bem, marquei com a coordenadora pedagógica, contei o que havia acontecido, pedi pra ver o planejamento psicopedagógico e o quanto dele contemplava a lei 10639. Ela, por sua vez, bastante espantada com a história disse que ali “isso” nunca tinha acontecido e que “aquilo” naquele espaço não se repetiria, porque a escola é um espaço democrático, de garantia de direitos e de exercício constante do respeito. Ela também estava indignada comigo por estar ali fazendo tal cobrança.

O que ela estava chamando de “isso”, tem nome, e é racismo, e esse é o mecanismo usado por ele, nos culpar pela ousadia de reivindicar a naturalidade da nossa presença. Permaneci firme no meu direito de garantir uma educação antirracista para meu filho e tantos outros meninos e meninas negros e negras. Esses episódios me levaram a conhecer e me integrar ao movimento negro da cidade e construir uma trajetória de militância dentro do movimento negro.

Enquanto isso dentro de casa, continuei a fortalecer e reforçar todas as características da negritude de Davi. O cabelo ora black, ora de tranças, ora de dradds e todas as suas variações. O candomblé, seus fios de contas no pescoço e o branco na sexta-feira. As músicas de vão do rap ao hip hop passando pelo samba e pagode. Tudo isso para que ele tenha referenciais que possam forrar seu estofo emocional e possibilitar a criação de ferramentas para enfrentar os “issos” e “aquilos” que a escola e o mundo, proporcionam a crianças negras.

No mês da Consciência Negra, ele se recusou a fazer um exercício de leitura de português, porque uma das alternativas dizia que os negros eram bem alimentados na senzala. Ele disse a professora que não faria o exercício e que aquela frase, mesmo num exercício de múltipla escolha, era um erro, pois reforçava o que as pessoas pensam sobre a escravidão.

Fui chamada na escola, porque ele perdeu a linha na indignação e subiu o tom de voz com a professora. Na conversa com a coordenação, me comprometi a tomar as providências que cabiam a maternidade, faria minha parte, ele ficaria de castigo, mais quais providências tomaria a escola a respeito de um texto que dentre outras coisas dizia “que os escravos no pós-abolição estavam desempregados e por consequência eram presos por estarem nas ruas, porque não sabiam fazer outra coisa a não ser serem escravos”?

Instalado o desconforto e o silêncio na sala de reuniões, pude perceber o quanto aprendemos a nos apoiar na nossa relação de mãe e filho, na força ancestral que nos trouxe até aqui, no quanto somos potentes e principalmente na importância do afeto que cura e fortalece, para que o racismo institucional não nos culpe e silencie como aconteceu nas outras escolas.

A lição da vez é a importância de apresentar referências negras em todas as áreas do conhecimento para nossas crianças, pra que como dizia Nina Simone “possamos nos levantar e sair quando o amor e o respeito deixarem de ser servidos”.

*A lei 10 639 é uma lei do Brasil que estabelece a obrigatoriedade do ensino de “história e cultura afro-brasileira” dentro das disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos Ensinos Fundamental e Médio.