Educação é caminho para tomar consciência no combate ao racismo

Minha mensagem é dedicada para mães e pais que acreditam nesse valor para mudar o futuro

** Texto por Ana Paula Bernabé, mãe de Idiana, Idiara e Ingrid

A educação plural nos leva mais longe (Foto: iStock)

Aqui passo a relatar a história de minhas filhas Idiana, Idiara e Ingrid, de como consegui educar e cuidar delas em meio a realidade de uma comunidade violenta em Macaé, município do interior fluminense, cuja escolha se deu por acreditar que nessa cidade minhas filhas teriam melhores perspectivas de futuro.

A caminhada foi dura, ainda mais para uma mulher, mãe, solteira, preta e semianalfabeta, mas sempre trabalhei muito como empregada doméstica, ambulante e operadora de caixa. Matriculei as meninas numa escola que entendi ser boa para o ensino delas e as manifestações do preconceito passaram a ocorrer, por elas estarem sempre cheirosas e limpas.

Em determinada ocasião fui perguntada pela diretora da escola a razão pela qual não colocava as meninas em uma instituição particular, já que eu trabalhava na Petrobrás. À época atuava na petroquímica como auxiliar de serviços gerais no laboratório e a remuneração era de R$ 275,00. Além disso a diretora questionou o fato das meninas levarem a merenda com muitas frutas. Para proporcionar uma alimentação balanceada a elas recorria a um amigo dono de uma criação de porcos, que me permitia pegar as sobras de frutas, legumes e verduras de sua carroça junto a mais duas amigas.

A indagação aconteceu porque a escola é voltada às crianças em situação de vulnerabilidade social. Após a situação esclarecida elas estudaram nessa escola estadual. Nas instituições, por eu ser conhecida como rainha de bateria de escola de samba e maratonista, além de desenvolver uma ação social direcionada aos moradores de rua aos sábados, o preconceito contra as meninas deu uma trégua.

Cresci com várias dúvidas e uma que me incomoda fortemente é a motivação pela qual as populações das comunidades sofrem com falta de oportunidades. Quem cresce morando nesse ambiente sabe que há possibilidade dos sonhos e a liberdade serem tirados muito cedo, muitas vezes nem chegando aos 25 anos.

Me perguntei sobre a experiência de ser mãe, pensando em uma perspectiva histórica: desde o período escravocrata às mulheres pretas foi delegada a procriação, sofremos com o abandono de nossos parceiros e acumulam-se os papéis paterno e materno em um contexto de alta criminalidade. Escolhi sobreviver, ser feliz, batalhar, ser pai e mãe.

Educar é algo complexo: compreender e passar a concepção de certo e errado às minhas descendentes se demonstrou uma tarefa desafiadora. Como trazer essa visão a um filho que brincando pela comunidade pode ser confundido com um criminoso e acertado por tiros?

Desde cedo temos de transmitir valores aos nossos filhos e aqui destaco o valor da pele preta, que apesar de maioria da população brasileira ainda não é respeitada, considerada, ouvida nos mais diversos aspectos.

Ana Paula se diz realizada pela família que construiu (Foto: Arquivo Pessoal)

Quero deixar com muito carinho uma mensagem às mães e pais e principalmente às mães solteiras e pretas que moram nas comunidades: consegui que minhas filhas tivessem uma formação e que não fossem cooptadas pela marginalidade com educação, cultura e esporte, e as incentivando independentemente da situação financeira, cor de pele ou opção religiosa e consolidei junto a elas a verdade como um princípio.

Ser mãe solteira, ser preta não é condição e, sim, uma realidade. Ensinei minhas filhas a terem senso crítico de forma semelhante a que minha mãe fez comigo. A matriarca, descendente de escravos ajudou-me a tomar consciência de quem eu era e de como poderia galgar patamares mais elevados. Com sua amizade sincera, lembrava de minhas raízes, que hoje transmito às minhas filhas bem como estimulava a pensar e formar opinião. Tenho imenso orgulho das três lindas mulheres que criei, fruto desse longo processo de diálogo e aprendizados.