Ei pessoa preta, como você está?

“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”

**Texto por Rúbia Lisboa, mãe da Iasmin, 7 anos, mineira de BH, jornalista e especialista em Intervenção Psicossocial no Contexto das Políticas Públicas. É autora do blog Pois É, Sou Mãe! (@poisesoumae), que busca a reflexão e o debate sobre fé, literatura, maternidade e empoderamento. Em fevereiro de 2021, publicou o primeiro livro infantil, ‘Um Tal de Coronavírus’ (Editora Clube da Leitura), que trata a pandemia com ludicidade para amenizar os seus impactos na vida das nossas crianças. E em março de 2021 foi vencedora da chamada literária NuaFest com o livro ‘Do Feminismo Para Quem ao Feminismo Negro (Editora Nua) que conta a história de uma mulher que encontrou o seu caminho refletindo,  estudando e agindo sobre as pautas do feminismo negro

A educação antirracista é uma luta diária e necessária
A educação antirracista é uma luta diária e necessária (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde que Emicida teve a brilhante ideia e nos deu uma aula perfeita com o documentário AmarElo provando que Belchior já previa o futuro e tinha razão, a frase “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!” virou lema da minha vida e imagino que de muitas pessoas, principalmente das famílias pretas do nosso país.

Porém, passou 2020 quando explodiu a pandemia, que não foi nada fácil e nos deixou sem respirar, tal como George Floyd nos EUA e, 2021 que graças a Deus chegou ao fim com o avanço das vacinas, mas em contrapartida nos fez passar por diversos outros “maus bocados” entre perdas e necessidades que instigam uma pergunta que não quer calar: ei pessoa preta, como você está?

Considerando que somos nós quem mais enfrentamos o desemprego e estamos pagando o preço pelos valores abusivos dos alimentos, gasolina e botijão de gás. Somos nós enquanto mães e pais que mais sofremos com o fechamento das escolas de nossos filhos e não tínhamos com quem deixá-los. Somos nós os mais prejudicados pelos retrocessos políticos e como se não bastasse tudo isso, ainda enfrentamos o racismo e a descriminação de uma sociedade que insiste em nos excluir. Somos nós que não somente há dois anos, mas por toda nossa história não fazemos outra coisa que não seja não morrer; pergunto:

  • Ei pessoa preta, como você está?
  • Seu autocuidado, saúde física e emocional, vida financeira, social e afetiva?
  • Se for mãe preta e solo então, sempre gosto de perguntar também: quem cuida de quem cuida?
  • Como você está?

Se está lendo este texto é porque sobreviveu a mais um ano difícil. E não que eu queira romantizar isso, mas precisamos enaltecer a nossa força, persistência e resiliência. Sim, há um avanço! Os nossos passos vêm de longe e apesar de toda dor e do longo caminho que ainda temos pela frente, as nossas conquistas e vitórias começam a florescer e aumentar ainda mais a nossa esperança e fé em seguir e não desistir. O gigante formado pelo povo preto brasileiro finalmente começa a despertar e a lutar por uma reparação histórica.

Se não for por nós, que seja por nossos filhos! Uma geração de meninos e meninas que que saberão se impor e fazer ecoar as suas vozes e seus direitos. Talvez, não estaremos mais aqui para ver este sonho ou utopia se realizar. Sim, eu tenho um sonho tal como Martin Luther King, mas que deixemos pelo menos as sementes para a colheita das gerações futuras.

Fazendo jus a filosofia Ubuntu: Eu sou porque nós somos! Defendo fielmente no meu blog @poisesoumae e no meu livro “Do Feminismo para Quem ao Feminismo Negro” que nós (principalmente mães e mulheres pretas) podemos ser agentes de transformação social. Começamos dentro de nossas próprias casas empoderando os nossos filhos, depois atuando em nossas comunidades, estudando quando temos oportunidades ou através das nossas vivências diárias que são sim formas de saber, e só fazem sentido se a gente virar estrada pra quem estiver chegando.

Não morri em 2021, tenho sede por 2022, quero ver o despertar da minha filha e de todas as crianças como ela e, contribuir de alguma forma para a construção de uma sociedade mais justa para todos nós.

Se me permite, finalizo com uma fala de Maringhella (se não assistiu, veja o filme): “As pessoas precisam saber que no Brasil tem gente resistindo e que essa luta é justa”. E é sobre isso!

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Mesmo perdendo tantas coisas ao longo do ano, que mantenhamos o brilhantismo do Natal vivo em nossos corações e tenhamos forças para começar de novo e de novo.