Empreendedorismo, maternidade e privilégios

Nem sempre criar um negócio próprio é uma escolha. Para muitas mães, é o único caminho para sustentar a família

**Texto por Jandaraci Araújo, mãe de Diumara e Luana, atua como Subsecretária Empreendedorismo Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo

Dividir o tempo entre todas as tarefas do dia é uma verdadeira missão (Foto: Getty Images)

Amo ler as matérias e entrevistas de mulheres fabulosas que decidiram empreender depois da maternidade. Histórias inspiradoras que abordam em sua maioria, a decisão de abandonar uma carreira executiva para partir rumo ao “encantado mundo” do empreendedorismo, tendo como principal argumento: ter mais tempo com suas crias. Essa mudança de rumo também reflete o machismo corporativo, que inviabiliza a permanência e o avanço de talentos femininos. De acordo um estudo realizado pela FGV em 2017, cerca de 50% das mães são demitidas no primeiro ano após retornar da licença-maternidade.  Mesmo com o avanço de empresas “mother friendly” – que possuem programas que beneficiam mães e pais – há muito a avançar nessa pauta, e só isso daria outro artigo.

A conversa aqui é sobre a realidade de milhões de brasileiras mães solo, como eu, que sequer tiveram a opção de escolher um caminho ou outro, mulheres que a necessidade empurrou para o empreendedorismo. Chefes de família que foram empreender, não para ter mais tempo com seus filhos e filhas, mas para poder alimentá-los, vesti-los e tudo mais, porque empreender era a única opção possível e digna. Para contextualizar um pouco, no Relatório Especial de Empreendedorismo Feminino de 2019 elaborado pelo Sebrae, o empreendedorismo por necessidade é proporcionalmente maior entre as mulheres (44%).  Ainda em 2019, a Preta Hub em parceria com o J.P Morgan realizou um estudo com afro empreendedores e constatou que no universo dos que empreendem por necessidade, 46% informaram que iniciaram o seu negócio por falta de emprego.

A realidade de muitas mulheres é partir para o empreendedorismo como forma de sobreviver (Foto: Shutterstock)

Mesmo com as várias redes de apoio ao empreendedorismo feminino, temos muito que avançar na pauta de equidade de gênero. Além de todos os desafios da maternidade e do empreendedorismo, muitas mulheres tiveram que lidar nesse período de pandemia com a incerteza da continuidade dos seus negócios e com o aumento exponencial da violência doméstica. Há questões estruturais que são comuns a todas mulheres independente de raça ou classe social, como a desigualdade salarial que faz mesclar emprego formal e empreendedorismo para complementar a renda, ausência de uma ampla rede de creches públicas, e a quase ausência de políticas públicas e privadas que visem verdadeiramente  alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres.

Romantizar o empreendedorismo de mães é deslustrar as desigualdades que tanto nos impede de avançar social e economicamente. Deslustra-se o desafio da múltipla jornada, a não inserção no mercado de trabalho formal e a precarização do emprego. Precisamos “tocar no assunto” e repensar essa tríade maternidade x empreendedorismo x desigualdade para a “era” D.C (Depois Covid-19), vamos juntas?