Existe preconceito racial no Brasil?

Eu já passei por diversos episódios de preconceito racial, mas precisamos descontruir essa visão

**Texto por Albertina Calamba, 29 anos, geminiana, orgulhosamente Angolana. país Africano, jornalista,
mestre em comunicação e Marketing é apaixonada pelo Brasil. Mãe de Raquel e Alana

Ninguém nasce racista e precisamos combater o preconceito
Ninguém nasce racista e precisamos combater o preconceito (Foto: Arquivo Pessoal)

Vivi minha adolescência escutando e aprendendo que o negro era um ser inferior em qualquer lugar principalmente. Lembro que na escola, você tinha algumas opções para minimizar a sua vivencia como negro como pertencer a uma classe social alta, ou ser forte demais para ser escolhida nas brincadeiras coletivas, e ser sempre a ultima opção para fazer trabalhos coletivos…

Hoje me abro para contar 1% da minha própria história, nunca vivi tantos episódios de preconceito e discriminação em toda minha vida até vir estudar no Brasil, se tornou tão repetitivo que comecei a me preocupar. Um dia qualquer entrei na loja, estava de chinelos e cabelo afro todo solto não estava tão arrumada, eu queria comprar uma peça de roupa, entrei, olhei as prateleiras e nada me agradou, nenhum funcionário da loja se prontificou a me apresentar os produtos da loja. Até aí tudo bem, isso pode acontecer com qualquer pessoa, quando decidi ir embora por causa do mal atendimento apareceu uma funcionária perguntando se precisava de ajuda, olhei para ela e disse, estou procurando um calça de seda branca…

Pediu que eu aguardasse alguns segundos… Ela voltou e trouxe uma única calça e pediu que eu fosse ao provador. Quando eu ia me trocando, ela perguntou onde eu morava e eu disse o lugar, inclusive mencionei o edifício, foi só dizer isso, que ela fechou as cortinas do trocador em seguida trouxe literalmente todos os artigos da loja ao meu dispor (rs), se calhar viu uma oportunidade de venda.

Foram acontecendo outros episódios. Mas algumas situações em particulares foram marcantes e você vai acumulando em uma caixinha imaginária justificativas para tantos (talvez foi isso ou aquilo e foi sem querer, ou tô exagerando). Situações de racismo e discriminação te levam a se questionar do seu próprio eu em uma esfera de outra dimensão.

Eu lembro que durante o tempo que fiz a universidade em roda de conversa com colegas uma opinião minha ser fantástica e simplesmente alguém rebateu dizendo Albertina vai arrumar seu cabelo. Lá vem de novo e se ele só estava brincando ou não foi para te fazer sentir mal. O racismo faz isso, ele não se importa com o quanto a sua opinião seja importante e pode mudar a vida de alguém. O racismo sempre vai estar ao lado.

O tempo foi passando e o caldo entornou quando fiquei grávida, e tempos depois, dei à luz a uma criança branca de olhos azuis e cabelo castanho claro, isso 6 anos atrás. Imaginem vocês que de lá pra cá deve ter dado umas seis temporadas da série Mãe negra e filha branca…

Quando a minha filha era mais nova eu gostava de ir ao parque perto de casa com ela, e um dia desses com a meteorologia de São Paulo que diz que está sol com 26 graus e logo a seguir começa a chover eu tive que voltar para casa rápido se não nos molhávamos, e como eu estava andando depressa quase correndo imaginem uma cena de filme, as pessoas olhavam para mim e para o carrinho e deduziram que eu estava roubando a criança. Aí vem de novo: deve ser coisa da minha cabeça. Corri em direção ao portão de saída do parque onde imediatamente fui abordada pelos seguranças, PARE seguindo com o questionamento: “Essa bebe é filha da senhora? A senhora vai para onde com ela?”.

E voltamos ao: eles só estavam trabalhando, e se realmente eu parecia suspeita? Agora vos pergunto: suspeita com base em que? Na minha cor?! Cabelo? Ou com base em racismo estrutural? Quais seriam as chances de isso acontecer se fosse uma mulher branca?

Já nos supermercados isso é tão natural por parte de clientes e funcionários em ser abordada e passar por essas situações, é como fazer compras enquanto cada cliente sai com uma fatura eu saio com 5 ou 6 em só uma compra. Situações como: “Oi, tudo bem! É sua filha?”. “Sim, é”. “Nossa ela é linda, tem o olho claro…”. “Obrigada”. Eu pensei graças a deus foi um elogio dessa vez, continuei fazendo as compras e fui parada novamente. “Nossa é linda! é sua filha?”. “É, sim”. “Parabéns!”. Ficou fazendo gracinha para ela alguns segundos olhando para o meu cabelo e lá vem o comentário… “Ela tem o cabelo muito bom!”. Oiii.. Ela percebeu que não gostei do comentário, em vez de se calar ela tentou consertar… “Eu queria dizer lisinho para fazer penteados com lacinhos”.

Fiquei tão chateada e fui direto ao caixa para finalizar a compra, lá vem o moço do caixa: “Que linda! É sua filha?”. “É, sim, olhou uns segundo e lá vem de novo…”. “Um já sei! É bem branquinha como o pai…”. Imagine quantas situações eu ainda terei de passar. Para quantas pessoas eu precisarei explicar? Que tipo de preparo emocional eu devo ter? Passarei o resto da minha vida provando que são minhas filhas? Se eu sair com a babá das minhas filhas por ser branca ela vai precisar se sentir estranha em justificar que não é a mãe que está trabalhando, e perguntou quantas vezes eu vou precisar assistir essas cenas?

Expor o preconceito e falar sobre ele é fundamental para combatê-lo
Expor o preconceito e falar sobre ele é fundamental para combatê-lo (Foto: Arquivo Pessoal)

Os anos se passaram e tive que trabalhar as minhas inseguranças, porque não existe receita pronta para combater o racismo. E discordo com de quem peça que se em algum momento você estiver bem financeiramente isso é minimizado. não importa a quantidade de bens que você conquiste o racismo sempre estará ao lado porque é assim que funciona. quando você e uma pessoa negra precisa provar 10x mas que foi mérito próprio. Porque vivemos em uma sociedade com o racismo estruturado.

Mas o fato de nem todo mundo ter o mesmo tipo de pensamento e atitudes, me tranquiliza um pouco. A questão da etnia vem sendo discutida no mundo todo, inclusive no Brasil, que é um país mestiço, onde ocorre a mistura, principalmente, de negros, brancos e índios. Por mais que se diga que todas as pessoas são iguais, independente da cor da pele, o racismo continua existindo. Músicas, brincadeiras, piadas e outras formas são usadas para discriminar os negros. Até mesmo a violência se faz presente, sem nenhum motivo lógico, anos se passam e as estatísticas estão aí para comprovar os fatos, até mesmo aqueles que os nossos olhos se negam a ver.

Sei que no mundo há grandes diferenças entre pessoas e que, por estupidez e ignorância, cria-se o preconceito, que gera muitos conflitos e desentendimentos, afetando e tirando a vida de pessoas. Infelizmente, o racismo existe no Brasil, isso não podemos negar. Um exemplo claro disso é o mercado de trabalho. Por que certas empresas ou agências de emprego exigem fotos dos candidatos. Simplesmente, para discriminar. As empresas e agências de emprego negam tal atitude, mas a realidade é essa, e elas não tem a coragem para falar isso. Por exemplo, “na minha época de faculdade tinham poucos professores negros, por que será?”…

Hoje sou mãe de duas, a mais velha já tem algumas percepções e faz questionamentos, a mais nova não percebe as coisas direito por ser pequena e eu vou educá-las para que elas saibam o que é certo, e o que é errado e qual a origem delas. Ela está crescendo, e eu pergunto: “Continuarei a ser abordada quando estiver com elas?”. Independente da cor de cada um somos todos humanos hoje não é mais possível enganar ninguém com atitudes paternalista ou com frases bonitas, É preciso ter posicionamento, denunciar, eu deixava passar hoje não mais precisamos levar o problema do preconceito racial com seriedade, para que ele possa ser discutido e resolvido, um dia e precisamos nos respeitar para uma sociedade melhor. Ninguém nasce preconceituoso.