Harmonia e fraternidade humana: palavras e ações é o que necessitamos

Precisamos fazer valer a equidade social, para todas as pessoas, em todos os lugares do mundo

**Texto por Jacira Monteiro, escritora, autora de “O Estigma da Cor”

Não precisa ser religioso para perceber que há algo de errado em nosso mundo. Ao invés de vivermos em perfeita humanidade, lutando pelo bem da raça humana, há violência, ódio, destruição do outro e de si próprio, etc. Há algo de errado com a humanidade. A origem desse mal, os religiosos responderiam que foi no Éden, os não religiosos têm suas explicações também. Mas o ponto principal é que temos um problema a resolver aqui: como trabalhar para o bem comum da raça humana, com tantos contratempos em nossas relações?

Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista (Foto: iStock)

Segundo a Constituição Federal de 1988, no Artigo 5º, “caput”:  “(…) Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes (…)”. Parece idealista? Parece. Tendo um passado de escravatura de mais de 300 anos dos povos africanos e tendo uma abolição da escravatura inacabada, que desembocou na desigualdade social brasileira, como ter esperança de que haja de fato direitos igualitários para todos os brasileiros? De uma coisa sabemos, só as palavras bonitas da constituição não são suficientes.

O que há de errado em nosso mundo é fruto da corrupção do nosso coração humano mau. E fruto de nossos desvios na moralidade, do nosso egoísmo. É fruto da nossa incapacidade nata em amar o outro, o diferente. Como corrigir? Mais que palavras bonitas – tanto da constituição, quanto da Declaração dos Direitos Humanos – precisamos também de ações bonitas, ações que resultem na reconciliação e harmonia da raça humana. Ações generosas que auxiliem as pessoas que estão em desvantagem e sofrimento neste mundo.

Poderíamos definir Justiça com “fazer o certo com equidade, equilíbrio e imparcialidade”. O certo seria tudo o que resulta em florescimento da sociedade. Ou seja, tudo o que gere harmonia, reconciliação e fraternidade em toda a criação, em toda a sociedade. Isto é, nas relações dos humanos uns com os outros, mas também nas relações dos humanos com a natureza (o cuidado com o meio ambiente). Agora, como foi dito anteriormente, há um problema na raça humana, que seria a corrupção (um desvio na moralidade). A corrupção humana (o que os cristãos chamam de pecado) corrompe e perverte a justiça.

Neste sentido cada pessoa tem a responsabilidade de se empenhar pela reconciliação e harmonia da criação. Isto significa o quê? Defender a unidade da comunidade, repudiar todo racismo, discurso de ódio, preconceitos, intolerâncias… Isso quer dizer buscar a defesa dos direitos, tendo um olhar especial pelos que são mais fracos. Tudo isso significa ser humano. A justiça social, a justiça racial, a justiça ambiental, perpassa, necessariamente, por um reconhecimento do erro (as desigualdades sociais, a escravatura, o racismo…) e uma intencional decisão de buscar a fraternidade.

Dar espaço e visibilidade para pessoas negras, para mulheres, para pessoas deficientes… Pressionar para que hajam políticas públicas que realmente trabalhem na resolução do problema maior da sociedade brasileira: uma educação básica de qualidade…. Palavras e ações é o que necessitamos. Em nossa sociedade amplamente polarizada e mergulhada em ódio e dissabores, pensar, falar e agir em prol da harmonia da raça humana é um ponto urgentíssimo se quisermos de fato caminharmos como irmãos.