Intencionalidade para o empoderamento de suas filhas e filhos

A luta antirracista é necessária e urgente, hoje e sempre

**Texto por Kiusam de Oliveira, escritora, Doutora em Educação, filha de Erdi

“Se a tesoura aponta a lâmina, que sejamos capazes de cortar a raiz da barbárie”. Que frase para iniciar um texto! E eu a escolhi por conta dos tempos difíceis vividos no Brasil. Num país onde tem sido necessário discutir as crises democrática, sanitária, racial, social, política, de gênero, econômica e a naturalização da violência política misógina e genocida, não há frase mais adequada para eu iniciar essa reflexão, onde pretendo refletir sobre as rupturas e suturas psíquicas (OLIVEIRA, 2001) necessárias às pessoas consideradas animais desde o tempo da escravidão até os dias atuais: mulheres e homens, adultas e adultos, jovens e crianças negras e negros, cujas feridas são provocadas pelo racismo.

O combate ao racismo é urgente
O combate ao racismo é urgente (Foto: Alex Pires)

Minha mãe, Dona Erdi (in memorian), tinha um pensamento certeiro e pretejante: era preciso planejar a vida de suas filhas. E para que tais vidas fossem de sucesso, ela acreditava ser necessário:

  • Ter a intenção de planificar uma caminhada rumo ao futuro de sucesso;
  • Abrir o jogo sobre o racismo conosco;
  • Trazer os saberes ancestrais para o tempo presente.

Portanto, Dona Erdi traçou um plano de sucesso para a minha vida ligado à educação e à cultura: eu deveria ser uma criança leitora e dançante, pois segundo ela, o molejo do corpo estava ligado ao jogo de cintura que as pessoas negras  devem adquirir ao longo da jornada, observando os gestos, falas e olhares das pessoas não negras e a leitura abriria meu olhar para o mundo que era gigante.

Dona Erdi se concentrava no aspecto da necessidade de falar conosco sobre o racismo que estruturava o comportamento das pessoas brasileiras, entendendo que se eu e minha irmã aprendêssemos desde cedo tudo sobre isso, doeria menos em nós quando fossemos diretamente atingidas por ele. Nos momentos de tempestade ou queda de energia elétrica, minha mãe aproveitava para narrar lendas do folclore brasileiro e mitos africano e afro-brasileiro, trazendo referências negras positivas para as nossas vidas, como Saci, Curupira, Iara, Maria Bonita e Lampião, Oxum, Oxóssi, Iemanjá, Ogum, Iansã.

Conheci o racismo aos 6 anos em uma escola de freiras em que estudei. Solicitei à madre superiora autorização para ir ao banheiro, ela não permitiu e fiz xixi na sala de aula. Puxando minha orelha, ela me levou ao banheiro, tirou a minha roupa, enfiou em minha boca um bocado de papel higiênico e empurrou meu corpo embaixo do chuveiro, de onde caía água fria. Ela se retirou de lá e ao retornar, o fez com todas as crianças de minha sala de aula. Enquanto as crianças gritavam “a macaca está pelada” eu tentava esconder as minhas partes íntimas. Foi quando a madre superiora gritou: “Calados. Olhem bem para o que vocês estão vendo: é assim que todo preto deve ser tratado”. Por algumas horas, não consegui contar à minha mãe o ocorrido e quando o fiz, olhei em seus olhos e disse: “Mãe. É isso o racismo”?

Representatividade e exemplos são muito importantes na luta antirracista
Representatividade e exemplos são muito importantes na luta antirracista (Foto: Alex Pires)

Nem preciso dizer que tal experiência colocou fim à minha infância, pois iniciei um processo de auto-perseguição, ao tentar deixar de ser quem eu era: uma criança negra. Minha autoestima foi resgatada somente por volta dos meus 14 anos, quando minha mãe me levou para o Movimento Negro Unificado (MNU) e lá, estudando intelectuais africanos cujas pesquisas eram traduzidas do francês para a nossa língua portuguesa, aprendi sobre África – Berço da Humanidade.

O racismo tem matado crianças negras logo que chegam ao espaço escolar, e devemos não permitir que isso aconteça estando atentas e atentos às práticas antirracistas que devem fazer parte do nosso cotidiano. Sobre isso, as lições de Dona Erdi, eram:

  • Não permita que ninguém conte piadas que ofendam origem racial, étnica, condição social de ninguém;
  • Jamais atenda alguém que te chama por apelidos;
  • Preste atenção ao texto das brincadeiras cantadas, pois podem incitar violências;
  • Nem todas as brincadeiras são divertidas para as pessoas envolvidas: se fala sobre “escravos”, por exemplo, já deixa de ser brincadeira;
  • Cabelo de ninguém é ruim e/ou duro: ruim e duro é lidar com o racismo das pessoas;
  • Ninguém deve ser tratado de forma desigual por conta das diferenças que carrega, afinal, as diferenças são relativas, etc.

Eu poderia ficar aqui por muito tempo trazendo ensinamentos de Dona Erdi, que viveu a vida buscando formas para empedrar as filhas. Para o momento, deixarei o ensinamento dela mais poderoso e espero que sirva de inspiração para tantas outras mães não só nesse mês: quando minha mãe tentou combater o poder das práticas racistas em nossas vidas, ela passou a deixar seu cabelo natural, crespo, crescer infinitamente: minha mãe viveu com o penteado black power mais gigante que eu já vi, pois ela entendeu que deveria dar o seu exemplo às filhas. E deu.

Todo o poder para as mães pretas que buscam, sem que ofusquem a autonomia de suas filhas e filhos, empoderá-las e empoderá-los numa perspectiva do autoamor, da valorização da história negra ancestral e do resgate da autoestima: só assim, as rupturas psíquicas são possíveis de serem suturadas possibilitando, consequentemente, a criação de um contra-corpo afrodescendente (negro), isto é, um corpo negro contra-hegemônico necessário para os embates que viverá ao longo da vida, em prol das lutas antirracistas, que se reconhece como um templo, portanto, entendendo o valor dessa máxima: “Resistir às atrocidades provocadas pelo racismo também é um ato sagrado”.

Referência:

OLIVEIRA, Kiusam Regina de. Duas histórias de autodeterminação: a construção da identidade de professoras afrodescendentes. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade. São Paulo, 2001.