Invisibilidade da beleza negra: a importância de buscar por representatividade

Quanto antes as crianças tiverem exemplos reais, mais cedo irão entender que podem chegar em qualquer lugar que desejarem

**Texto por Carol Santos, dona do projeto @coletivodepretascriadora, diretora criativa, de conteúdo e stylist, mãe de Maria Flor

Ao lado do pai da menina, Carol busca ser exemplo para a filha (Foto: reprodução/Arquivo Pessoal)

Hoje uma das maiores lutas de pais e mães de crianças pretas é buscar representatividade para uma construção de identidade, sendo que neste sentido as coisas melhoraram muito em relação a gerações anteriores. Hoje temos mais artistas e figuras com grande representatividade em alguns setores, mas falando com relação ao Brasil isso ainda é muito pouco.

Ainda temos que recorrer ao mercado americano para acharmos figuras representativas, aqui não temos uma vasta literatura infantil que discute o assunto, temos alguns poucos escritores, não temos animações que passam na televisão e sendo assim ficamos sem referências. Vale lembrar que melhorou muito pouco, mas isso é muito importante para  a construção da autoestima da criança. Quando ela vê as figuras semelhantes ao ambiente do dia a dia tudo muda, a inclusão nos ambientes, a educação melhor, as relações são mais saudáveis, principalmente na vida de uma menina negra que vai enfrentar barreiras.

O ideal seria uma parceria das instituições de ensino e nós, pais, para apresentar livros, artistas, brinquedos e aquisições de elementos que tenham maior inclusão. E com isso diminuir a tentativa de branqueamento da população preta, que desde muito pequena têm os cabelos alisados e sua ancestralidade apagada apenas para agradar o padrão de beleza imposto por uma sociedade culturalmente racista.

“Dou meu apoio como pai da Maria Flor nesta cruzada, desde muito cedo  participo de vários movimentos, já que minha mãe faz parte do movimento negro há 50 anos e tenho comigo que só através da educação dentro de casa e através de exemplos e a formação de lideres vamos conseguir mudar este cenário. Desde pequeno foram mostrados exemplos e figuras negras para mim, sendo assim cresci com uma autoestima bem construída e acreditando que poderia agir na mudança. Passo esses valores e esta visão da sociedade para os meus filhos, para construir uma autoestima forte e futuramente a minha filha ser uma líder “, diz Ogyan Salatiel.

Representatividade e valorização das características é um bom começo (Foto: reprodução/Arquivo Pessoal)

Eu, hoje com 35 anos, diretora criativa, criadora de conteúdo e stylist faço questão de mostrar pra minha filha Maria Flor de 4 anos, através do meu trabalho com o meu projeto @coletivodepretas e meu Instagram @carolsantosprodutora, que além de beleza somos poder de criação e construção de conceitos sim. Nós, mulheres pretas, também somos beleza, somos símbolo de sucesso e podemos ser o que quisermos. Por mais que ainda infelizmente o mundo lá fora tente provar o contrário.

Fazer com que ela ame os cabelos, a cor da pele e seus traços é nosso exercício diário, através das fotos e produções que eu faço a incluindo sempre como protagonista ou produção daquele conteúdo. E assim desenvolvo o empoderamento dela como beleza, autoestima e inteligência feminina. E tudo isso que eu faço tem um único objetivo: deixá-la forte o suficiente intelectualmente para que ela saiba se defender e não sofrer o quanto eu sofri e sofro com o racismo e a invisibilidade negra que o sistema ainda impõe diariamente. Racismo esse que começa cedo, quando ainda somos crianças.