Meu filho me pariu para o mundo

Sobre a felicidade e honra de nascer com a maternidade

**Texto por Lorena Nonato de Oliveira, mãe, doula, palestrante, acadêmica em enfermagem, coautora do primeiro livro escrito por mães pretas e solo do Brasil “Mães Pretas: Maternidade Solo e Dororidade” e do e-book: “Mãe e mulher: A dicotomia da maternidade”. Pesquisadora autônoma da saúde sexual e reprodutiva das mulheres negras em diáspora. Ativista da humanização do parto e contra o racismo obstétrico no Brasil

Ter um filho preto em uma sociedade racista é um desafio constante
Ter um filho preto em uma sociedade racista é um desafio constante (Foto: Arquivo Pessoal)

A maternidade nasceu para mim de forma muito delicada e intensa; ela chegou de forma avassaladora, afinal de contas eu havia acabado de me tornar noiva, tinha 23 anos e, definitivamente, a responsabilidade de criar um indivíduo não estava em meus planos. Numa consulta de rotina, a primeira suspeita era endometriose ou uma gestação logo no início.

Meu coração ia sair pela boca, as pernas estavam trêmulas, as mãos suavam frio e eu não sabia nem por onde começar a investigar uma das duas suspeitas. Comecei pelo teste de gravidez de sangue, no mesmo dia peguei o resultado e descobri que estava gestando o meu filho. Este tinha apenas algumas semanas no meu ventre. Provavelmente, 3 a 4 semanas. Eu cursava engenharia numa boa universidade aqui de Salvador e fui tomada por inúmeros questionamentos feitos a mim mesma e medo… Muito medo. Afinal de contas, como seria educar, criar, alimentar e manter viva uma criança negra numa sociedade programada para ceifar nossas vidas desde o ventre?

A gestação foi caminhando, passei pelo grande desafio que foi contar aos meus pais, convivi de perto com a depressão e a ansiedade. Busquei terapia só depois de um tempo, procurei uma doula, comecei a praticar escrita terapêutica e entendi o quão doloroso é ser uma mulher preta e gestar uma vida. O racismo nos atravessa de maneiras diversas neste momento de vulnerabilidade. Nesta fase eu aprendi o que é respeitar meu corpo, minhas escolhas, minha vida! Tudo foi ganhando um outro significado, senti pela primeira vez o que é protagonizar um momento, apesar de toda a sociedade colocar o meu bebê no centro de tudo.

Fazia escolhas pautadas em mim, no que eu sentia e queria naquele momento, não foi fácil dizer “não” querendo dizer “sim” por ouvir a razão, abri mão da faculdade de engenharia e de outras convicções que eu nutria, mas que não me faziam feliz de fato. Não contemplavam a minha existência e sim, colocavam o meu bem estar e o de meu filho, em risco. Visto que, não há como ter felicidade e paz vivendo e fazendo aquilo que não te faz transbordar e se sentir realizada e vivendo em plenitude.

E, por favor, quando eu digo isso, não digo observando a vida pelo viés romântico de que todas as coisas serão feitas com prazer porque essa não é uma realidade, em contrapartida, é importante percebemos que teremos desafios e situações, momentos e coisas que faremos mesmo sem querer, contudo essa não deve ser uma constante. Pelo menos, não para mim. Tive uma gestação tranquila e, apesar de o pai do meu filho ser pardo, o racismo nos atravessava quando eu ouvia que me filho nasceria branco, ou torcidas para que ele não nascesse com o meu cabelo crespo e muitas outras frases que me cortam a alma ao ouvir.

E, então, depois de 14 horas de trabalho de parto, 10 centímetros de dilatação e, por fim, uma cesariana, meu filho nasce numa quinta-feira de carnaval. E minha vida inteira é redefinida a partir do momento que eu ouvi aquele choro, eu desaguei na sala de parto. Era um choro profundo, afinal… Nascia uma mãe também. E junto com ela, diferentes medos e expectativas que nenhum curso de parentalidade te contam. Afinal, são especificidades só suas. A partir desse dia, como eu já disse, tudo mudou.

No mesmo ano, eu entendi que precisava fazer algo para dar suporte a mulheres pretas no cenário de parto e me tornei doula através de um curso incrível do Coletivo Doulas Pretas, aqui de Salvador. No ano seguinte, em 2020, eu entrei na faculdade de Enfermagem. Entendendo que o meu papel é colocar a mulher negra no centro do cuidado, para que ela se potencialize e esteja no centro em outras áreas da suas vidas. Nós nunca estamos na posição passiva do cuidado, estamos sempre na posição ativa, ou seja, estamos sempre cuidando de algo ou alguém. Seja dos bens ou filhos de alguém. Mas a posição passiva, recebendo cuidado, tanto nosso quanto dos outros é raro.

Contudo, vale ressaltar que quando estamos dentro dos nossos quilombos, rodeadas por nossas irmãs cuidamo-nos ainda que não tenhamos noção de que aquilo é cuidado expressamente dito. Essa vontade minha tornou-se visceral, especialmente por ter estudado o cenário hospitalar e visto o quanto os nossos corpos negros são alvo quando o assunto é violência obstétrica, que quando denunciada por mulheres brancas a proporção é maior.

Hoje, ser uma mulher preta, mãe solo, criando, educando e formando um menino preto é um desafio gigante, por toda estrutura racista que estrutura a nossa sociedade. Meu filho, aos 2 anos já sentiu literalmente na pele o que é o racismo. No circo, uma criança puxou seus cabelos, no prédio, uma mãe me perguntou como é que poderia “lavar isso” se referindo ao cabelo Black do meu filho. O que está em minhas mãos? Protegê-lo como uma leoa, contribuir para conscientizá-lo do quanto ele é lindo e seu cabelo é incrível. Além de lutar para que todo esse cenário mude dia após dia.

A chegada do meu filho em minha vida, me fez nascer para mim mesma. Nascer para viver toda a minha potência, acompanhada pelos meus ancestrais, seguindo ordens de um bom destino! Me tornei doula, publiquei dois livros neste ano, fiz palestras, lives. Comunicar e estar com outras mulheres pretas e mães solo me alimenta! Os desafios não são poucos, a luta é constante, estudar amamentando, dormir tarde acordar cedo, mas eu vou conseguir. Já estou conseguindo! Pois eu sou uma, mas não sou só!