O poder de pertencimento na paternidade preta

50 tons de pais pretos. Nossa subjetividade e outras formas de pertencer.

**Texto por Matheus Carmo, professor de Língua Inglesa, fascinado por literatura, linguística, música, games, skateboard, e Huskies Siberianos, pai de Thomas, Baden, Raví, Cecília e Hugo

É impressionante como o pertencimento influencia a forma de paternar (Foto: iStock)

Houve dias em que o medo oscilava em nós. Hoje, ao pensar em sair de casa, principalmente se for com as crianças, com a família, com amigues, mesmo que em tempos remotos de pandemia, um medo espaço-geográfico e cibernético nos invade em ímpeto. E tudo isso porque nos deram 50 tons, ou mais, de formas asquerosas e inválidas de nos julgar e lidar com a nossa cor: preta!

Sou um pai preto, tenho cinco crianças, quatro com pele bem mais clara do que a minha, e um com a pele do mesmo tom. Em meu paternar, quando estou fora de casa com elas, e sem a mãe, o imaginário social facilmente se cria meio as dúvidas se há um pertencer paterno sobre aquelas crianças, se sou padrasto, tio, ou se exerço alguma relação líquida com elas. Os olhares, as perguntas que me fazem, as expressões, e a linguagem corporal em si entregam toda essa descredibilidade em uma tentativa de afetar o meu subjetivo, o meu eu, e claro, o meu paternar, que faz parte disso tudo.

Sendo bem claro, sabemos, ao menos devemos saber, que há em nossa sociedade uma hierarquia canônica e estrutural de base implantada. O chefe está sempre no último andar do prédio, e na maioria das vezes de cor branca. Quem está no térreo trabalhando, na grande maioria, é alguém de cor preta. Até na carteira de trabalho, quem mais assume os empregos de menor rentabilidade são pessoas pretas. Essas pessoas, assim como eu, tem uma dificuldade nítida para exercer qualquer forma de subjetividade.

Sair sem ser vigiado, viajar sem ser questionado, passear pelas prateleiras do mercado sem ser seguido, sem que alguém tenha que passar o rádio para quem está no andar mais alto, passear sem ser julgado, paternar sem ser alvo de críticas raciais. Esses laços estreitos são correntes preconceituosas e racistas. Todas elas ferem, pois atingem nossa integridade, nossa forma mais honesta de ser!

É indispensável entender a história, a nossa trajetória mas, contada de baixo. O que fomos, como fomos tratados, como nos implantaram um imaginário cultural e hereditário cheio de agrotóxicos, tudo que não tivemos direito quando deveríamos ter, tudo que nos tiraram ou nos proibiram por um critério 100% racista, e todas as formas comparativas engendradas em nosso sistema linguístico sociocultural. Entender esses aspectos nos aproxima de um entre-lugar, e não só, mas de uma conscientização, respeito, e empatia. Tríade essencial para um olhar mais igualitário, sendo esse, fator reagente para mudanças comportamentais urgentes.

Eliminar termos preconceituosos, como criado-mudo, fazer nas coxas, pé na cozinha, denegrir, mulato, lápis cor de pele, cabelo ruim, dentre uma série de outros, faz parte do pacote de desconstrução que todos precisam. Tanto os estudos sincrônicos e diacrônicos analisam a nossa língua, e claro, esses termos, dentro da ótica histórica, institucional, e funcional abrindo o espaço para uma noção do quão oprimidos ainda vivemos. São espelhos enraizados de como fomos/somos vistos quanto ser-humano, que nos percorre por séculos! Uma contaminação do racismo institucional!

É preciso fazer uma nova história, mas também, iniciada por baixo, com mudanças significativas. Nas atitudes, nas palavras, no olhar, nos gestos, na aceitação, no reconhecimento, no momento de lugar de fala, na militância, na parentalidade, na vida, e no ciberespaço. O nosso subjetivo, tem o tom de respeito.