O racismo é um problema de todos

É preciso fazer parte da solução, através do esforço coletivo

*Texto por Humberto Baltar, professor de inglês no ensino público há 20 anos e diretor da Humberto Baltar Consulting, idealizador do coletivo Pais Pretos Presentes, e pai de Apolo.

Foi aos sete anos que Humberto passou por um episódio de racismo na escola (Foto: Arquivo Pessoal)

Sete anos. Eu tinha apenas sete anos nessa foto. Ela marca a minha primeira vivência escolar. Toda criança tem memórias nostálgicas dessa fase, mas lembro nitidamente de uma atividade em que tínhamos que colorir figuras de profissões. Eu estava sentado numa mesa próxima à professora pintando a figura de um soldado do corpo de bombeiros com vermelho e amarelo. Quando ela olhou meu desenho, riu e falou: “Onde já se viu bombeiro amarelo?” Uma mulher ao lado dela emendou: “Muito burro.” E as duas ficaram rindo. Eu continuei colorindo, fixando meu olhar naquele desenho na tentativa de disfarçar qualquer expressão de vergonha, raiva ou choro. Essa é a minha primeira lembrança da escola. Não havia crianças negras como eu na turma. Todos os alunos eram mais claros. Em 12 anos de vida escolar, nunca vi uma criança branca passar pela mesma coisa ou algo parecido. Enquanto meus colegas se preocupavam com brincadeiras, merenda e outras coisas do mundo infantil, eu pensava também no tratamento que ia receber da professora. Minha mãe, empregada doméstica, já tinha inúmeras preocupações além do extremo cansaço e eu não queria levar mais um problema contando o acontecido.

Conheci o preconceito na figura de uma professora. Mas tive boas memórias de professores na escola seguinte. A tia Cidinha era uma pessoa doce, de sorriso largo e caloroso. Eu nunca tinha me sentido tão bem recebido como fui no Colégio de Aplicação da UERJ. Como é gostoso lembrar das aulas de música com a tia Bia Bedran e o carinho da tia Angela, que até me presenteou com um novo uniforme de educação física quando a minha mãe não tinha condições de pagar. Os professores mais marcantes na minha vida foram os que me enxergavam e me tratavam como um igual. Existe um estudo que associa a performance de um aluno à quantidade de sorrisos recebidos. Numa sociedade onde a criança negra comumente é associada à criminalidade e à pobreza, quais as chances de sorrirem pra gente? Lembro que a professora mais receptiva a minha presença em toda a minha vida foi a tia Maria Célia, de inglês. O jeito leve e descontraído com que ela falava comigo e corrigia meus trabalhos me faziam querer ser igual à ela. Não foi à toa que escolhi ser professor de inglês e disse isso à ela ali mesmo, durante uma aula. A resposta dela foi que eu seria um ótimo professor. Ouvir aquilo me encheu de esperança e energia para lutar por esse sonho. A reflexão que fica é que a escola precisa se preparar para receber crianças pretas, de forma que elas se sintam tão representadas, acolhidas e apreciadas como as outras crianças na sala. Não basta admitir e tolerar a presença de um negro na turma. Isso não é inclusão. Inserir sem incluir é até uma forma de violência, inclusive. O movimento antirracista precisa levar isso em conta.

Humberto traz todos os ensinamentos para as salas de aula e para o filho, Apolo (Foto: Arquivo Pessoal)

Sou professor no ensino público do Rio de Janeiro há 20 anos e sempre me atentei à sensibilidade racial dos meus colegas, pois vejo que a luta não pode ser relegada apenas à comunidade negra, afinal, o racismo é um problema dos brancos. Minha maior realização profissional é poder trabalhar a cultura e ancestralidade do meu povo e ser não apenas respeitado, mas também encorajado nessa abordagem. Os alunos pretos anseiam por representatividade. De qualquer forma. No meu primeiro dia como professor ouvi um menino gritar na hora da saída: “Mãe! O tio de inglês é preto igual eu!” Trabalho na Escola Municipal Vítor Meireles e tenho orgulho de dizer que os professores se atentam às diversas formas de discriminação e se propõem a aprender uns com os outros. É essencial que a gestão escolar dê liberdade para que professores possam enriquecer a experiência pedagógica dos alunos indo além de uma abordagem conteudista e problematizando posturas, posicionamentos e ideias racistas, homofóbicas, classistas ou que configurem qualquer outra forma de diminuição do outro. Delegar a luta antirracista aos negros, por exemplo, é tomar o lado do opressor. Na equipe da escola onde trabalho há diversas iniciativas antirracistas de professoras brancas que me enchem de orgulho, dentre as quais posso citar a procura da professora Denise dos Anjos por profissionais pretos, fomentando o empreendedorismo negro. Outro exemplo importante é o da professora Ana Luiza e o trabalho com o toque, que aproxima os alunos estreitando laços além das diferenças. Os alunos descobriram as princesas africanas com a professora Iasmin, que trouxe diversas histórias para a sala de aula. Tudo isso graças a uma direção que nos possibilita essa amplitude pedagógica. Infelizmente, em muitas escolas esse modelo de trabalho não é possível. Em um cenário como esse, as famílias precisam cobrar pluralidade e representatividade no ensino para que seus filhos tenham uma formação mais rica, humana e tolerante.

Como a educação e o aprendizado não se restringem ao ambiente escolar, hoje é possível contar também com cursos, palestras, coletivos, rodas de conversa e redes de apoio. O coletivo Pais Pretos Presentes, que idealizei com a minha esposa, nasceu exatamente a partir de uma demanda de pais que se viam carentes de espaços de escuta de suas questões, inseguranças e dificuldades de lidar com diversos problemas impostos pelo racismo, como dar apoio aos filhos que sofrem discriminação, por exemplo. Curiosamente, ao longo da minha infância a minha mãe nunca tratou desse assunto comigo. Provavelmente, por ser um tema tão doloroso e difícil de ser abordado. Hoje nos reunimos online diariamente para nos acolher, nos confortar e trocar informações sobre histórias infantis, desenhos e animações com protagonismo preto, contos e histórias africanas que reforcem uma imagem positiva da nossa ancestralidade, etc. Na luta contra o racismo, toda ajuda é bem-vinda. Por isso, sou extremamente grato pelo espaço cedido pela revista Pais&Filhos e suas plataformas. Esse posicionamento é fundamental para que possamos mudar essa realidade colonial ainda predominante no Brasil e nutrir esperança por dias melhores.

O coletivo Pais Pretos Presentes busca dar apoio aos pais (Foto: Arquivo Pessoal)