O segredo da mesa

É preciso alimento, tempo, família e até o próprio móvel para que a refeição seja um lugar de fala e escuta

**Texto por Pamela Gabrielle, 33 anos, curiosa e aprendiz, mãe de Caique, Ícaro e Nara. Assistente Social de formação e atuante no setor público; artista nas horas vagas, Produtora Artística/ Cultural (@ladobfestival); aprendiz das artes do corpo, fotografia (@CrispamClick) e escrita criativa.

Educação é o caminho para uma sociedade menos desigual (Foto: Shutterstock)

Na fila do transvaginal pode ser um bom lugar para se conhecer uma mulher, em geral as experiências de vida me atraem e ouvir quem veio antes faz bem pros dentes, digo pelos socos na vida que se pode evitar. Conheci a Tânia em um sábado desses, na tal fila que eu era a última, cuja beleza e serenidade são de longe notáveis. Dois fatos desse dia me marcaram, o primeiro quando um grupo de mulheres na condição de detentas chegaram algemadas para os exames, não teve pescoço que não virou para vê-las passar, e ainda quem não pôde conter-se quando furaram a fila,  como se já não bastasse a humilhação de entrar entre armas de fogo e algemas. O julgamento prevaleceu.

Importante localizar essa narrativa que vem de um território marcado pela presença do Estado na forma do cárcere, portanto, cenas assim são comuns por aqui. Aguardamos por horas e os assuntos emergiam, o segundo fato que me ocorre partilhar é que Tânia, uma mulher negra que já passa dos 40, em dado momento dividiu um tesouro conosco algo que ela chama de “o segredo da mesa”, a esta hora falávamos sobre convivência familiar, do lugar da escuta, da troca mútua de aprendizado e propiciar um ambiente onde os sentimentos se expressem, enquanto a refeição acontece na mesa.  No convívio diário, na urgência dos dias atuais, a troca de olhares e palavras enquanto se aprecia um alimento na mesa se tornou artigo raro, poucos têm o privilégio deste feito, seja pela ausência do alimento, da mesa, do tempo ou da própria família.

Tânia simplificou a crença que compartilho da importância do exercício de escuta, em uma sociedade com boca sem ouvidos, onde não se dá a ninguém a fala, mas se tira, cada um detém seus próprios mecanismos de linguagem, seu corpo e para além do próprio corpo, a existência… Neste ponto, relembro as mulheres detentas daquele dia, não eram livres, muito menos donas de seus corpos, subjugadas e o que sobrou de sua família agora para sentar-se à mesa? Quem dera se ouvidas, à margem das próprias mulheres periféricas, o retrato do sistema penal deste país é uma pintura da sociedade do controle, cujo instrumento jurídico institucional faz a manutenção das desigualdades de gênero, racial e social que canaliza em um julgamento moral perpétuo mulheres algemadas com olhos pro chão, a representação do poder do Estado em uma breve lembrança de tempos do Brasil colônia, uma memória escravocrata.

Liga os pontos!

O exercício de educar reforça a natureza sombria da sociedade disciplinar e do controle, sem escuta, sem olhos nos olhos, cada vez mais mecanizado, punitivista, por vezes uma réplica do próprio sistema carcerário. Queria eu ter olhos de menina para escrever estas palavras, porque somente uma criança saberia descrever com precisão sua condição, quantas, sob a justificativa do cuidado, não vivem situações de cárcere privado, privadas da rua e do convívio social, mesmo nas regiões periféricas, agora neste contexto de pandemia, ainda mais. Na sociedade cujo adulto é o centro e o homem branco burguês está no topo, todas as outras narrativas se tornam secundárias, inferiores ou desnecessárias. Mas sobre a mesa há um segredo, onde hão de surgir essas narrativas, onde se cutucam os silenciados, onde os sentimentos serão elaborados e a voz de uma nova expressão e de um novo tempo surgirá.