Os dilemas da paternidade estão em toda parte

Meu pai sempre foi presente, mas muito duro. Acredito que pelas barreiras que tenha enfrentado na vida, para nos alertar das questões raciais que enfrentaríamos

**Texto por Márcio Chagas, professor de Educação Física, ex-árbitro de futebol, pai do Miguel e da Joana

É difícil saber qual a melhor opção (Foto: Shutterstock)

Lembro como se fosse hoje daquela conversa com o meu pai, e ele me perguntando: “Negrão, tu acha que essa menina gosta de ti? Quem sabe ela está te usando para confrontar a família? Independente da decisão que tu tomar, quero que saibas que além de teu pai sou teu amigo”.

Em 1993, quando entrei pela primeira vez na casa da minha primeira namorada, uma menina branca, a tia que fazia o almoço gritou da cozinha: “Este negro está autorizado a entrar aqui?”. Eu tinha 16 anos, bem na fase de autoafirmação querendo descobrir tudo que o mundo poderia me oferecer e ouvir aquilo foi um soco no estômago. Voltei para casa, não tive coragem de contar para minha mãe, passei um bom tempo da minha vida sem ter essa resposta.

Quando vou falar de paternidade automaticamente me vem à lembrança do meu falecido pai. Meu pai foi presente, porém muito duro, acredito que pelas barreiras que tenha enfrentado na vida. Cobrava demais para que eu e meus irmãos estudássemos bastante, já nos alertava sobre as questões raciais que enfrentaríamos.

Afirmava que não poderíamos ser bons, tínhamos que ser excelentes. Dizia que o sistema sempre duvidaria da nossa capacidade intelectual para competirmos de igual com os brancos, por isso tínhamos que ser três vezes melhores. Com o passar dos anos a vida tratou de mostrar que meu pai tinha toda razão.

Passei por inúmeras situações de racismo e isso mexia, e ainda mexe demais comigo. Já evitei de frequentar alguns lugares para não ser motivo de piadas e brincadeiras racistas. Na busca por melhores oportunidades, meus pais colocaram eu e meus irmãos em escolas particulares, e nesses locais são onde as primeiras manifestações de racismo acontecem. Não há preparo para trabalhar com esses conflitos, e as crianças negras são as que acabam pagando um preço muito alto carregando os traumas dessas violências para o resto da vida.

Me tornei pai aos 37 anos, bem diferente dos meus amigos. A desculpa que eu sempre arranjava era a questão financeira, por não poder mais sair, não poder comprar os meus tênis, não poder viajar e etc. Na realidade, depois de muitos anos de terapias, a resposta dessa paternidade “tardia”, foi em virtude dos medos de colocar uma criança negra nesse mundo tão racista que nos desumaniza diariamente.

Não achava justo colocar alguém no mundo e ter que passar por todas essas violências e traumas que o racismo deixa, e que nunca cicatrizam. Minhas decisões hoje em dia são pensadas nos meus filhos, pois quero deixar um cenário melhor para que eles possam viver, se desenvolver e sejam respeitados sem ter que provar o tempo inteiro que são capazes de ocupar os espaços que desejam.

Quando ouvi aquela pergunta na adolescência, eu não tive a resposta, pois foi como um soco direto na ponta do queixo, fui nocauteado. Hoje em dia, eu ensino aos meus filhos, Miguel e Joana, a resposta que eu não soube dar naquele dia. Vocês não precisam de autorização para entrarem nos lugares, pois vocês vão entrar onde quiserem.