Paternidades Pretas: panoramas e horizontes

O homem preto trava uma luta social, que é ainda mais aflorada quando se torna pai

**Por Luciano Ramos, consultor em Masculinidades, Paternidades, Violências baseadas em gênero e Saúde do Homem; Paternidades e Masculinidades Negras, pai de Laura

A paternidade é diferente entre brancos e pretos, porque há barreiras a mais no segundo caso (Foto: reprodução)

“O meu maior medo é não ver o meu filho crescer, pois sou um homem preto e moro na Favela.” (relato de um pai jovem participante de uma oficina sobre Paternidades e Cuidado em 2019).

O Mapa da Violência no Brasil 2017 nos aponta que a cada 23 minutos um jovem preto é morto neste país. Assim, a cada instante um jovem preto não terá a possibilidade de paternar nesta nossa sociedade ou uma criança preta terá o pai assassinado. Ser um homem preto e paternar no cenário brasileiro é um desafio. Esta afirmação encontra respaldo no fato de a sociedade ser racista e de que este racismo se manifesta em diferentes aspectos e âmbitos desta mesma sociedade. O filósofo Silvio de Almeida nos apresenta no seu livro Racismo Estrutural que esta forma racista da sociedade brasileira se relacionar não é uma “anomalia” e sim o “normal” desta sociedade que descaracteriza tudo o que se diferencia de uma supremacia branca. Esse fenômeno não seria diferente para o pai preto.

Olhar as paternidades pretas sem análise histórica e antropológica nos permite uma visão rasa e distinta da realidade. Um ponto central é a compreensão de que não podemos analisar as paternidades pretas da mesma forma que fazemos com as paternidades brancas. Há uma luta racial desigual que não está camuflada e não é desconhecida. Como a afirmação do parágrafo anterior o racismo é o “normal” social. O homem preto brasileiro, com todas as precariedades que lhes foram impostas, só teve a possibilidade de começar a paternar após a abolição da escravatura, em 1888. Logo, ele está há menos de dois séculos exercendo paternidades nestas terras. Um século e meio, quando se trata de desenvolvimento humano, é quase nada. Toda memória de paternidade do homem preto anterior ao século XIX é memória afetiva de África.

Neste contexto precisamos discutir masculinidades como ponto fundamental de construção das paternidades. Há uma luta, aqui posta, que se refere às masculinidades hegemônicas x masculinidades subalternas. É importante entender que há uma interdependência destes modelos apresentados que é construída no interior destas masculinidades. O lugar da hegemonia cabe ao homem branco, hétero e cis e o lugar das subalternidades cabem aos homens pretos e tudo que não está inserido no padrão branco e heteronormativo. A teoria da “virilidade”, enquanto um conjunto de práticas inalcançáveis, e por isso, impeditivas para o homem preto exercer masculinidade, segundo o sociólogo e historiador Georges Vigarello, oferece abrigo a hegemonia do homem branco.

Falar sobre assunto é necessário e cada vez mais (Foto: Arquivo Pessoal)

Nossa sociedade não percebe as diferenças como elemento importante e de riqueza fundamental para a convivência social, ao contrário ela cria desigualdades. Neste sentido o homem preto é visto como inferior ao homem branco. Logo, a este não cabe o exercício da paternidade, a responsabilidade da paternidade, e, menos ainda, o cuidado da paternidade. O machismo retira do homem o lugar do cuidado, submetendo-o, erroneamente, como condição natural da mulher. Do homem preto ele retira duplamente, uma vez que o racismo atribui ao homem preto a característica de “naturalmente violento”. Romper com o machismo para cuidar e com o racismo para ser pai é uma luta constante do homem preto que deseja paternar por aqui. Parece que o racismo unido ao machismo é uma fórmula quase indestrutível de impedimento para o homem preto exercer paternidade.

Que horizonte se apresenta às paternidades pretas? Numa aula que eu ministrei, em 2019, sobre “Masculinidades e Paternidades Pretas” uma jovem me fez essa pergunta e a minha resposta segue a mesma: o Aquilombamento. Essa é a resposta que não podemos perder de vista. Há um provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia para se educar uma criança”. O povo negro possuiu ao longo da história a cultura do afeto e do cuidado coletivo. Esse movimento comunitário pode apoiar o homem preto no exercício da paternidade. Faz-se importante dizer que o movimento coletivo não retira a responsabilidade individual.

Luciano ao lado da filha Laura, de seis meses (Foto: Arquivo Pessoal)

Outro elemento importante a considerar é o fato de que as paternidades pretas têm as suas peculiaridades. E estas precisam ser respeitadas pela comunidade de não pretos. Os medos e desafios dos pais pretos no exercício da paternagem se distinguem dos pais não pretos, por exemplo, o medo constante da morte pela violência do Estado; a instabilidade financeira que afeta diretamente a população preta, etc. Logo, é urgente uma abordagem interseccional quando tratamos o tema de “paternidades”. Sem esta abordagem não conseguiremos considerar as distinções e pensar em Políticas Públicas que deem conta das precariedades a que estes homens pretos foram e são submetidos socialmente e assim vulnerabilizados no exercício de suas paternidades.