Por instinto e sobrevivência, cada família preta vai sempre criar as suas possibilidades

Não vai ser possível sempre proteger nossas crianças pretas de tudo isso que nos abate, mas a ponta do iceberg está nas experiências e possibilidades que cada família cria em seu convívio interno, que vai reverberar na comunidade

**Texto por Jéssica Vieira, de 30 anos, Administradora, e graduanda em Produção Cultural, mãe solo de Ana Pérola. Uma mulher preta, periférica, do candomblé, do samba, da dança de salão, do carnaval e que respira arte e cultura sempre, além de acreditar nela como premissa e base da formação social e pessoal. Co-Escritora da Antologia Mães Pretas, maternidade solo e dororidade

É fundamental que nossas crianças pretas possam escolher a própria trajetória
É fundamental que nossas crianças pretas possam escolher a própria trajetória (Foto: Shutterstock)

Uma certeza é: eu preciso deixar claro para minha filha como ela pode buscar o espaço dela no mundo, e que ele existe. Abrir esse caminho para ela se sentir segura para ser, vivenciar e se construir como indivíduo, pois somos deslegitimados, sim, nos espaços e por sobrevivência vamos desconstruir isso, quebrar esses ciclos, a todo momento. Essa precisa ser nossa primeira consciência. Ter orgulho do que somos, e de nossa história, ancestralidade. Talvez eu não tenha a solução e resposta de algo que é estrutural, mas as vivencias, vão me dizer como criar minha criança preta, sem negligenciá-la.

A realidade da raça hoje é política, histórica e social, não mais apenas biológica. A cultura da hierarquização é o jogo de damas mortal da nossa atualidade. “Cabe de novo perguntar: como é que a gente chegou a este estado de coisas, com abolição e tudo em cima?”. “Sabe qual é o negro mais bonito do mundo? É aquele que tem consciência de suas raízes, de suas origens culturais. É aquele que tem a atitude de quem sabe que é ele mesmo, e não um outro determinado pelo poder branco”. (Lélia Gonzalez, 1984)

Pesquisando mais a fundo a vida e bibliografia de Lélia Gonzalez, você vai se reavaliar a cada palavra. Eu decidi construir uma maternidade consciente através de diálogo, do respeito às urgências que se façam a vivência e experimentação do desenvolvimento e crescimento de minha filha. Psicologicamente sei o quanto isso é extremamente difícil, numa sociedade da hierarquização, do poder, onde a gente não exercita a escuta e o diálogo, mas será um diferencial para mim e  principalmente para ela. Com isso, como se blinda um ser tão ingênuo de tanta atrocidade que é o crescer, consciente em uma sociedade que é estruturalmente racista, machista, misógina. Não é exagero – ou “mimimi”, a gente sobrevive sobre o impulso do medo, com o bloqueio e inércia que ele nos atravessa todo santo dia.

Um dos meus primeiros pensamentos ao descobrir minha gestação foi o de como criar uma criança negra no Brasil. Eu sempre falei que seria cruel demais trazer alguém ao mundo pra passar por muitas coisas que vivemos aqui. Mas como uma mulher espírita e de fé, entendi que tudo tem um propósito. Mas ainda assim eu questiono: como nós criamos crianças negras, com consciência e saúde mental no Brasil, sem medo? Eu me deparo com o racismo todos os dias e em qualquer lugar. Minha filha só tem 2 anos, e eu no súbito desses medos já retornei pra casa pra pegar documentos dela que esqueci, para comprovar que ela era minha filha mesmo. Já me privei de estar em algum espaço por sermos negras. Isso nunca vai acontecer com uma pessoa branca, por exemplo. Ela nunca vai precisar ter esse tipo de preocupação. O racismo é segregador a todo momento.

Criar crianças pretas para o mundo é uma missão
Criar crianças pretas para o mundo é uma missão (Foto: reprodução/Marcos Monteiro/Arquivo Pessoal)

As discussões sobre racismo no Brasil começaram em 2001, numa conferência em Durban. Antes não se falava do assunto na mídia brasileira. Eu já vivia isso desde 1991 e meus antepassados sabe-se lá quantos anos mais! O professor Kabengele Munanga explica que na educação brasileira, nos é colocado desde sempre que os outros são racistas e não nós. O que torna mais difícil compreender o que é ser racista, para então entender o que é ser antirracista. Um crime perfeito, que nos mata fisicamente e psicologicamente, como um carrasco, onde as coisas não são ditas e tudo se explica através dos discursões de democracia racial. Democracia está que nunca existiu, pois ela é um estado de plena igualdade entre as pessoas independentemente de raça, cor ou etnia, que no mundo atual, apesar do fim da escravização e da condenação de práticas e de ideologias racistas, está longe de se ver frente ao abismo que segrega as populações negras, indígenas e aborígenes da população branca.

Eu vivo criando possibilidades de já conscientizar a Pérola do quanto ela é linda, livre e potente pra ser quem ela é, quando nem eu as vezes consegui e consigo conceber isso. Mas preciso fazer. Tenho 30 anos e quantas de nós realmente pode dizer aqui que cresceu com esses tipos de diálogos em casa. A sobrecarga, de tudo isso nos tira o foco e autoestima. Trabalho desde os meus 15 anos, e daí já se vai muito tempo todo dia precisando me auto reafirmar digna de estar nos espaços que cheguei por mérito próprio, porque o ocidente quer ditar as portas a serem ou não abertas. Até quando nós vamos nos construir através da dor?! Até quando dentro dos processos nos será negado o direito de exercer funções dentro do nosso espaço social pura e simplesmente pela nossa cor?

Venho deixar aqui uma maior reflexão e conselho sobre como eu tento furar essa bolha todos os dias, que é consumindo arte, cultura, leituras, e informações, “escrevivências” que compõem de verdade a construção e origem da minha história. Trazendo isso para a vida da minha filha em doses homeopáticas – mas pulsantes! O meu melhor antídoto. O mundo é cruel e nem sempre eu vou poder protegê-la, o que é desesperador para mim. Mas sou o que sou hoje, porque desde sempre dentro da minha família, apesar de toda precariedade, fui apresentada à persistência, o  pertencimento e a resiliência através da riqueza e da origem da minha história. A todo custo dentro da comunidade precisamos retornar à nossa ancestralidade e cocriar, recriar os nossos espaços. Porque faz parte da branquitude tentar desestruturar esse pilar todos os dias. Mas o conhecimento ninguém nos tira, minha mãe me passou isso, e minha filha vai crescer com essa consciência desde sempre. Acreditem no poder da leitura, da literatura infantil, da oralidade dos seus mais velhos e mais velhas. O conhecimento, e a cultura vão transformar sempre, construindo as pontes que perpetuam a nossa história.