Por que devemos falar sobre dinheiro com nossas crianças?

Como mulher negra e mãe de dois adolescentes, lidar com questões relacionadas ao dinheiro é uma rotina. Mostro para eles que o vilão não é o dinheiro e, sim, a sociedade racista

**Texto por Mônica Costa, mãe de Pedro e Ayana. Palestrante, Terapeuta e Educadora Financeira. Fundadora do G&P Finanças para Mulheres Negras

É importante que as crianças entendam que o problema não está no dinheiro, mas na sociedade racista
É importante que as crianças entendam que o problema não está no dinheiro, mas na sociedade racista (Foto: Arquivo Pessoal)

“Mamãe, porque não posso ter celulares novos como minhas amigas?”, “Porque vivemos em um país onde homens e mulheres como a mamãe e o papai têm menos oportunidade de trabalho e mesmo quando empregados, ganham menos que as pessoas brancas”. “Ah! Por causa do racismo estrutural, não é mamãe?”, “Exatamente”.

Este é um diálogo que já tive com minha filha, Ayana, de 10 anos. E certamente é uma realidade no cotidiano de muitas outras famílias negras.

Sou jornalista e educadora financeira com várias especializações e três pós-graduações. O pai é Educador Físico. Ainda assim, não conseguimos atender a todos os desejos dos nossos filhos, Ayana e Pedro. Vivemos em uma casa onde os diálogos sobre questões raciais são comuns, por isso, a realidade, embora dura, não é desconhecida por aqui.

E é justamente neste lugar de educadora financeira, que aceitei o convite para falar sobre um tema tão delicado, e ao mesmo tempo, imprescindível. Trabalhando especificamente com mulheres negras, lido constantemente com questões como a que apresento no início deste artigo. E defendo que esta conversa é de total importância para que as próximas gerações não tenham as mesmas dificuldades que nós temos em lidar com o dinheiro.

Vivemos em uma sociedade que secularmente foi estruturada em bases racistas que propõem uma visão totalmente distorcida e prejudicial da nossa história e contribuição para a construção do país. E estes distúrbios estão calcados na relação de poder econômico (em outras palavras, sem dinheiro e sem acesso a patrimônio, a população negra não se estrutura). Só quando desmitificarmos estas condições, teremos oportunidade de olhar para o dinheiro como um aliado e não há oportunidade melhor para fazer este movimento do que durante a infância.

É nesta fase de nossas vidas que se constituem as “grandes verdades” –  uso a expressão entre aspas porque me refiro às crenças que escutamos dos mais velhos, que tomamos como irrefutáveis e que vão se arraigar em nossas mentes de tal maneira que há um sério risco de nunca mais se desfazer.

Criada em um ambiente matriarcal, cercada por mulheres negras, aprendi, desde cedo, que dinheiro é difícil de ganhar, que é sujo, e que só é rico quem é corrupto, entre outros absurdos que me acompanharam por muito tempo. Hoje, como terapeuta financeira, consciente da realidade em que estamos inseridas, tenho a oportunidade de revisitar esses conceitos e entender melhor tais comportamentos.

É fundamental ensinar educação financeira para os filhos
É fundamental ensinar educação financeira para os filhos (Foto: Arquivo Pessoal)

A mulher negra, historicamente, tem os piores salários e as piores condições de vida desde que estas terras foram invadidas pelos europeus. Para nos proteger (e proteger a si mesmas) da frustração que era (e continua sendo) não acessar espaços dignos e de respeito na sociedade, apesar de todo potencial e esforço, nossas mais velhas recorriam aos ditados populares que colocavam a culpa nele, o dinheiro, que desde sempre é mal visto entre nós.

Não podemos repetir os mesmos erros! A partir destas constatações, defendo a importância de tratarmos sobre finanças com nossos filhos de modo franco e aberto. É fundamental que nossos pequenos saibam que, se os pais não podem dar a eles os mesmos mimos que seus amigos brancos recebem, é porque, muito provavelmente, recebem, em média 45% menos que os pais dos amigos. Se forem filhos de mães solos (7 milhões de mulheres negras criam seus filhos sozinhas no Brasil) a disparidade é ainda maior: a média salarial de uma mulher negra pode ser 70% menor do que mulheres brancas.

Com menos poder de compra, é óbvio que nossos filhos terão menos acesso a bens de consumo. E quanto antes eles souberem como se dá esta estrutura, mais cedo terão possibilidades de construir uma nova mentalidade que tira a culpa do dinheiro (ele não é sujo, escasso ou só chega para ladrões ou corruptos) e reflete uma sociedade com métricas cruéis que tentam minar nossos sonhos desde que nascemos.

Nossas crianças precisam entender que dinheiro não é o vilão. O dinheiro é um instrumento de acesso a melhores condições de vida – estudo, saúde, lazer, ócio. O monstro que nos assombra é a sociedade racista.