Por uma criação em que viver seja mais importante do que sobreviver

Os desafios de criar uma criança negra em um mundo racista

**Texto por Karoline Miranda, mãe de Gael, historiadora, estudante de jornalismo, umbandista, escritora e autora do blog Uma Mãe Feminista

É preciso falar sobre racismo (Foto: iStock)

“Mãe, esse livro é sobre racismo, né?” pergunta Gael, antes de ouvir a enésima historinha que escolho cuidadosamente sobre a temática negra.

É o quarto livro que já apresentei a ele sobre o assunto. Procuro prepará-lo de todas as formas para o que ele pode vir a enfrentar: ame seu cabelo, ame sua cor, saiba responder às ofensas, ao bullying, ao preconceito. Enfrente o racismo religioso, ostente suas guias, entenda seus orixás, não se envergonhe da sua fé. Vários ensinamentos que eu sei que muitos dos colegas dele não terão. E vários medos que alimento dentro de mim a cada forma lúdica que dou aos horrores raciais que existem na sociedade.

“Meu Deus, e se ele cantar algum ponto na escola? E se a professora disser que ele é do demônio?”, me questiono sempre que pergunto a ele como foi a aula. Lembro do que ele já ouviu: que o cabelo dele é de miojo, que a cor dele é estranha… Me dói o peito. Dói mais o peito saber o que me espera para além disso.

Penso nos 10, 11, 12, 13 anos dele. Não ande sem identidade, meu filho. Se houver polícia na rua, nunca corra. Mãos sempre onde puderem ver. Ande sempre arrumado. Nunca use chinelo a não ser para andar em casa. Cuidado com amizades, se essas amizades usarem maconha, é capaz de você ir preso mesmo se não usar. Tudo isso passa pela minha cabeça em uma fração de segundos, sempre. Será que eu vou ter dinheiro para tanta terapia?

Esses são apenas relatos de pensamentos com os quais convivo todo dia, pelo menos em algum momento. Porque a criação de crianças negras é quase sempre pautada não na vivência, mas na sobrevivência. Como sobreviver em uma sociedade que te rejeita, te odeia? Como sobreviver a políticas de genocídio da população negra, onde cada dia morre uma criança, morre um jovem, uma mãe é arrastada? O noticiário, as estatísticas, o dia-a-dia, tudo mostra que meu filho pode ser o próximo George Floyd. É uma carga muito pesada para quem só queria que o filho tivesse uma infância comum.

Eu quero oferecer a liberdade para meu filho (Foto: Arquivo Pessoal)

É claro que nós, mães negras, fazemos de tudo para que a infância seja doce. Por isso, cada pílula de sobrevivência é adoçada com um universo lúdico, de heróis, reis e rainhas que realmente fomos, mas que só aparece quando abro os livros dentro de casa. Na escola, abarcar a Consciência Negra na Educação Infantil é lindo até a página dois. Tudo bem mostrar a capoeira, a feijoada e o samba, mas não pode falar de candomblé porque algum pai ou mãe pode achar que se ensina o capeta. E por acaso a lei 10.639 serve de quê? Enfeite?

Quero criar meu filho para viver. Ler mundos mágicos e a realidade, sonhar com fadas e dragões, poder falar de seus orixás na rodinha de “como foi o fim de semana?” da escola. Quero orientar a ele que seja bom, justo, estude, cumpra seu papel como cidadão, e não ensiná-lo a como não ser abordado pela polícia e como agir se ele for no futuro. Quero que ele possa se sujar, como qualquer criança, e não tentar limpá-lo e arrumá-lo a todo instante para que ele não seja julgado por outras pessoas.

O racismo aprisiona pessoas, mas mais cruel que isso, ele aprisiona crianças. Não dá a elas a oportunidade de se expressar, se libertar, fazer os próprios penteados, se sujar, pintar, se abrigar de forma a colocar seus próprios gostos, anseios, atitudes, formas de vida. Ele prejulga nossas crianças como menos capazes, menos importantes, menos bonitas, menos interessantes.

A Bela Adormecida, a Cinderela, os Sete Anões, nenhum é negro. Os príncipes não são negros. E até a Branca é de Neve. Apresentam aos nossos filhos histórias que não os representam e dizem que o normal é o branco, eles que se encaixem. Isso é uma prisão. Eu quero que meu filho seja livre. E quero me libertar.

Mas a chave dessa cadeia não está conosco. Está na mão de cada um que pode melhorar o mundo de forma antirracista e não o faz. Está na hora de nos darem o chaveiro.