Por uma educação antirracista através da literatura

Na literatura, ressignificamos olhares, comportamentos, e dialogamos com a diversidade

Texto por Paula Brito, arte educadora, artista visual, escritora, com dois livros infantojuvenis publicados: “A Menina e o Céu Azul” e “Embarcando em uma Grande Expedição”, mãe de Pedro Paulo, Maria Flor e Fernanda Liz. Uma mulher preta que tenta construir um caminho aberto no @paulabritooficial e provoca olhares através dos projetos @arteculturasociedade e @oxe_earte

É preciso praticar a educação antirracista
É preciso praticar a educação antirracista (Foto: Arquivo Pessoal)

Conversar sobre questões como racismo, com crianças, não é nada mesmo fácil, é preciso que tais discussões façam parte do universo infantil de forma leve, entendendo que cada fase da criança é uma linguagem. Se não falarmos abertamente, as crianças ficarão expostas, em algum momento irão vivenciar, e não saberão lidar com a situação.

A pergunta é: como, de que forma iniciar a conversa? Lembro que na adolescência, o pai de uma amiga, de forma irônica, sempre me chamava “Ô de cor!”, na época, não compreendia muito bem, mais tarde, o passado veio nas minhas lembranças, e percebi as motivações existentes por trás daquele ato. Ao me tornar mãe, ter meu filho e filhas, tive a certeza que se em algum momento da vida passassem por tal situação, iriam saber lidar. Foi então que de forma bem natural, e lúdica, fui introduzindo o assunto através de conversas e livros.

Sabemos que não existe uma receita pronta. Tente encontrar uma maneira de iniciar a conversa com seus filhos, mas, primeiro se faz necessário que você conheça a nossa história ancestral, se apropriar, para que você possa apresentá-la para a criança sem medos. Se desejamos um futuro de oportunidades, equidade, sem privilégios, é preciso que sejamos proativos na criação das nossas crianças, para que elas cresçam livres, sem preconceitos, medos, que sejam força transformadora.

Quanto mais cedo enfrentarmos o preconceito racial ao lado das(os) nossas(os) filhas(os), nos fortalecemos, para combatermos de frente os “novos colonizadores”, descolonizando o olhar, dando visibilidade a todas as vozes, traçando planos novos para o futuro que é agora.

É preciso pensar em uma ação que gere mudança, através de uma educação que liberta, e não oprime, que incentive as crianças a terem várias formas de olhar, sentir; criando maneiras de contribuir com o seu próprio bem estar e do outro, propondo referências que não estejam pautadas em uma educação eurocêntrica.

O papel de leitura na educação antirracista é fundamental
O papel de leitura na educação antirracista é fundamental (Foto: Arquivo Pessoal)

Aproveite a oportunidade para ressignificar, romper com as regras estabelecidas ao longo de décadas, com os estereótipos que tentam rotular, te convido a uma imersão, através da literatura afrocentrada, em que negras(os), não são objetos de pesquisa, são protagonistas e contadoras de suas histórias. Nessa perspectiva, além de mãe, arte educadora, artista visual, tornei-me escritora, com a proposta de inverter a ordem das coisas, para que entendam que cada um traz consigo suas histórias, memórias, mas que em algum momento se entrecruzam, porque também estamos falando de ancestralidade, pertencimento, identidade, nos tornando cada vez mais visíveis e ocupando espaços, fazendo valer a história do nosso povo negro, das mulheres que vieram antes de nós, e tantas que estão na ativa, lutando, existindo e ocupando espaços, abrindo portais para as que virão.

Se você está preocupado com essa falta de diversidade na caminhada da sua criança preta, repense, lembre que as crianças reproduzem comportamentos; verifique como o racismo é abordado na escola? Elas(es) se veem refletidas(os) nos livros que consomem ou são trabalhados na escola? Lembrem-se, é preciso ser ação. Ao consumir livros de escritoras(es) negras(os), diversidade de narrativas “invisibilizadas”, fazemos uma reparação.

Não se pode pensar em uma literatura para uma parcela da sociedade, excluindo outras. As crianças negras têm o direito de se perceber, por isso, o que se propõe é uma visão de mundo humanizada, que cuide do bem-estar emocional e cognitivo das nossas crianças pretas.