Práticas antirracistas e a valorização da infância

É preciso retirar a poeira, embaixo do tapete da igualdade racial

**Texto por Arlete Lima, do perfil @frourbana, mãe de Elis Regina

Educar as crianças contra práticas racistas precisa ser um hábito
Educar as crianças contra práticas racistas precisa ser um hábito (Foto: Shutterstock)

Atualmente, existe uma dinâmica intensa, para grandes construções de um novo modelo social, mais justo e igualitário. Mas como podemos de fato, avançar e tornar efetivas as práticas antirracistas? Muito se discute o papel das escolas, dos meios de comunicação, e do quanto nossas crianças estão envolvidas em projetos, que alavancam as engrenagens sociais, mas ainda carecemos de comprometimentos honestos com as pautas raciais, afinal, esse tipo de entendimento, se inicia nos princípios da infância, dentro de casa.

É um trabalho árduo, onde todos nós, estamos diretamente envolvidos, sobretudo, devemos pensar, que mães e pais pretos dentro da diáspora, já cumprem esse papel de sobrevivência pessoal e de suas famílias. O racismo está, em todos os espaços de uma sociedade, que foi pautada com sólidas estruturas, para garantir que um grupo específico se mantenha privilegiado.

Pessoas pretas, percebem o reflexo racial em suas vidas diariamente, em consultas obstétricas, acompanhamento ginecológico, em entrevistas de emprego, no primeiro dia de aula, enfim, apenas pense, quando você presenciou uma violência racista. A infância nos humaniza, ao passo que é um estado em caráter tridimensional, como bem explica o professor Renato Nogueira, existe um poder na infância, um momento inerente de todo ser humano, que nos permite alcançar um êxito, que pode ser direcionado ao longo de nossas existências.

Infelizmente desde a colonização, crianças africanas não são vistas como pessoas, muito menos com direitos a um momento de contemplação do estado de infância e de desenvolvimento sadio. Essa conduta racista e desumana vem ocorrendo em tentáculos de uma necropolítica e vemos poucas iniciativas para que se controle o infantecídio que assola a população negra, negligências cometidas sem pudor, pelos territórios do país.

O racismo estrutural, nega cuidado para crianças, mesmo pequenas, como Miguel, de apenas 5 anos, que acompanhava sua mãe, que cumpria serviços mesmo em meio a pandemia de covid-19. A criança foi abandonada no elevador por Sarí Corte Real, para quem a mãe trabalhava como doméstica. O racismo é cometido de forma fatal, onde nossas crianças não têm chances, mesmo quando a família se esforça para preservá-las. Existe uma naturalização no sofrimento, desprezo e mortes delas.

Esse cenário é extremamente caótico e perverso, toda a sociedade é conivente, porém, existem medidas que podem ser tomadas para que possamos caminhar, compromissos sociais e equipamentos voltados para uma descolonização da sociedade e conhecimentos afro perspectivas, para elevação do orgulho diaspórico.

O Brasil é um país miscigenado, com contribuições dos povos originários e com uma grande cultura popular proveniente de um berço civilizatório africano. Acessar essa ancestralidade, como uma ferramenta de manobra, para uma sociedade melhor, em que crianças pretas e nativas tenham o direito a uma infância segura e protegida, é o mínimo de empatia que os descendentes não negros podem lutar. Ubuntu é preciso!