Referências e resistências: educando com diversidade

É importante resgatar a história e as origens para entender o presente e mudar o futuro

**Texto por Lúcia Góes, graduada em História pela UFBA, especialização em História e Cultura Afro-brasileira, mãe de Matheus e Caio Antônio

Exemplos de Abayomi, bonecas confeccionadas para manter e valorizar a origem africana (Foto: reprodução/Arquivo Pessoal)

Estamos aqui, existindo, como resultado de um processo, onde cada um representa o prolongamento da vida dos antepassados. Nesse sentido, quero homenagear as primeiras famílias negras que aqui chegaram (em Salvador), após resistir ao tumbeiro, e mesmo sob condições terríveis, utilizando pedaços de suas vestes, confeccionavam uma boneca – Abayomi, e entregavam aos filhos, para acalmá-los e mantê-los ligados simbolicamente.

Expostos à venda, as famílias eram brutalmente separadas. Assim registra Laurentino Gomes, no livro Escravidão: “…o rosto lavado em lágrimas… gemiam, gritavam muito… as mães apertavam seus filhos nos braços e lançavam-se com eles de bruços, recebendo feridas com pouca piedade de suas carnes”.

Não existe presente, nem construção do futuro, sem observação do passado. Ser mãe é experiência única e penso que filhos são massa de modelar caminhos. Em nossa trajetória familiar, Osmar e eu focamos em uma educação pautada no respeito, na verdade, na ética e em muita conversa. Conversas para explicar como o racismo se organiza e se manifesta através de estruturas, formando um sistema perverso, que define oportunidades e valores para pessoas a partir de sua aparência. Explico a ação multifacetada do racismo: na construção da subjetividade (sentimentos e atitudes), nas ações/omissões das relações interpessoais e nas políticas públicas/privadas, que impedem ou restringem acessos.

As experiências com o micro e o macro racismo, vivenciadas ao lado dos meninos, foram dolorosas, e ainda são, mas serviram de exemplo para educá-los para a vida. Citarei algumas: a constrangedora situação quando esperávamos o elevador social e me perguntaram, com desprezo: “Você é moradora desse prédio?” – vergonhosa a situação escolar: “Venha Caio, sua babá já chegou!” – indignação na loja de brinquedos, quando pedi um boneco de super-herói e o vendedor ressalta o preço, sem responder se tem.

Humilhação e falta de respeito, ao ser barrada num hotel de luxo onde iríamos jantar. Situação que me custou 20 anos de luta na justiça, estresse pós-traumático, remédios controlados e desgaste emocional incalculável. A desigualdade e o racismo existentes no Brasil perpassam o tecido social e habitam, de forma absoluta, nossas ruas, casas, nosso cotidiano e marcam a mulher/mãe em variadas circunstâncias. Explicar essas questões a Matheus e Caio é difícil, doloroso mesmo. Exige uma postura firme, segura e consciente. Foi necessário didatizar, criar uma metodologia para que eles entendessem e não se sentissem inferiorizados.